Um crime de violência sexual chocou a comunidade indígena Mapiranga, em Juruá, no Amazonas, e colocou em ação uma complexa articulação entre forças de segurança e órgãos de proteção.
A Polícia Civil do estado negocia com a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) a entrega de adolescentes suspeitos de participação no estupro coletivo de uma menina de 12 anos, da etnia Kulina.
A estratégia de mediação busca garantir que os jovens, já identificados, respondam ao processo sob medida de internação, sem necessidade de uma intervenção conflituosa.
O cerne da operação atual reside no diálogo. A localização da comunidade, a cerca de três a quatro horas de lancha da cidade mais próxima, impõe logística complexa e exige sensibilidade no contato.
A Funai atua como interlocutora essencial junto às lideranças Kulina para viabilizar a apresentação espontânea dos suspeitos.
“Temos a Funai como uma grande parceira para abrir esse canal com a comunidade”, explicou o delegado Paulo Mavignier, diretor do Departamento de Polícia do Interior (DPI).
Ele deixa claro, porém, que a via negociada tem prazo. Caso não prospere, uma operação policial convencional, já planejada e com apoio de PM e Guarda Municipal, será deflagrada para apreender os adolescentes.
Agressores filmaram a própria violência
A investigação, iniciada após a mãe da vítima procurar o Conselho Tutelar, encontrou uma prova devastadora: vídeos feitos pelos próprios agressores durante o ato.
As imagens, que facilitaram a identificação de ao menos oito envolvidos, mostram cenas de brutalidade, com a criança pedindo socorro enquanto é ridicularizada.
O delegado Célio Lima, titular da delegacia de Juruá, coordenou o resgate imediato da menina.
Após ação conjunta das polícias Civil e Militar, ela foi retirada da comunidade e encaminhada para atendimento integral.
Após o trauma, a prioridade das autoridades voltou-se para a assistência à criança. A adolescente recebeu os primeiros cuidados médicos e psicológicos em uma unidade da Secretaria de Saúde Indígena (Sesai).
Atualmente, conforme informou o delegado Mavignier, ela está inserida em uma rede de proteção, que oferece acolhimento e busca preservar sua integridade física e emocional enquanto o caso segue seu curso legal.
O episódio expõe o desafio de aplicar a justiça comum em terras indígenas, onde protocolos de abordagem e costumes tradicionais devem ser considerados, sem abrir mão do rigor na apuração de crimes graves.