Quando a safra da manga chega, Manaus percebe antes mesmo de ver. Não é a cor vibrante que anuncia a temporada — é o aroma. Doce, intenso e inconfundível, ele ocupa ruas, feiras e cozinhas, avisando que o ciclo se renovou. Para muitos, é quase um rito anual: a cidade se enche da fruta como quem reencontra um velho amigo que traz boas notícias.
Mas nem tudo foi abundância. Quem vive do comércio sente primeiro os impactos da natureza. É o caso de Seu Oliveira, feirante há mais de 20 anos, que viu o rendimento cair.
“Ano passado a gente teve um ano bem quente e isso influenciou muito na safra desse ano. Eu creio que a gente produziu hoje em torno de 18% a 20% a menos. Mas como este ano é bastante chuvoso, a probabilidade de ter uma boa safra no ano que vem é muito grande”, explicou.

A manga, porém, oferece muito mais que polpa. Ela carrega clima, território e identidade. Quando aparece em abundância, movimenta renda, aquece feiras, reforça um senso de pertencimento e lembra que o calendário da natureza segue firme, mesmo diante das variações do tempo.
Além de saborosa, é um alimento poderoso. Rica em vitaminas A e C, fibras e antioxidantes, ela auxilia na digestão, contribui para a imunidade e atua silenciosamente contra processos inflamatórios — desde que integrada a hábitos saudáveis, como reforça a nutricionista Fran Prata.
“Graças aos compostos que possui, ela tem ação anti-inflamatória, podendo ajudar no controle de processos inflamatórios do corpo. Mas isso só funciona dentro de um estilo de vida saudável. Não adianta comer só manga que não vai resolver”, alerta.

Apesar do teor doce, não há motivo para medo, reforça a especialista. “A manga tem um teor calórico moderado, mas nada que impeça o consumo. O segredo está no equilíbrio. Não precisamos temer as calorias das frutas, e sim dos alimentos industrializados.”
No mundo, existem mais de 1.600 tipos conhecidos de manga. No Brasil, aproximadamente 30 variedades são cultivadas. Em Manaus, predominam as tradicionais. “Aqui a gente tem a manga espada, a fiapo — que o pessoal chama de comum — e as manguitas. As outras mangas que a gente comercializa vêm de fora”, explica Seu Oliveira.
Assim, a safra da manga em Manaus vai além de um calendário agrícola: é celebração da terra, reforço econômico, estímulo à alimentação natural e convite à criatividade — seja na feira, na mesa ou na memória afetiva de quem espera, todo ano, pelo perfume adocicado que anuncia: a temporada começou.