A prisão de um homem de 40 anos, na zona rural do município de Maraã (AM), nesta semana, desvela uma história de violência silenciosa que durou dez anos.
Acusado de estupro, tortura e favorecimento à prostituição, o suspeito é apontado como o autor de abusos sistemáticos contra a própria filha, hoje com 17 anos, e uma prima desta, de 15.
A operação policial que culminou em sua captura em um sítio isolado foi acionada por um grito de socorro da família.
O caso veio à tona no dia 15 de novembro, quando a tia de uma das vítimas decidiu cruzar a porta da Delegacia Especializada em Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca), em Manaus.
Seu relato à delegada Mayara Magna deu início a uma investigação urgente: a sobrinha, então com 17 anos, era estuprada pelo pai desde os sete. A denúncia não era sobre um episódio isolado, mas sobre uma década de terror doméstico.
Abuso, tortura e prostituição forçada
Conforme as peças do quebra-cabeça criminal se encaixavam, a polícia percebeu que os crimes iam muito além dos abusos sexuais. As investigações revelaram um padrão de dominação brutal.
“Descobrimos que, nesse período, a adolescente foi submetida a uma tortura, onde esse homem chegou a raspar o cabelo dela e a levou para dormir com outros homens”, detalhou a delegada Mayara Magna em coletiva.
A última violência registrada contra a jovem ocorreu em 1º de novembro. O pai, segundo as autoridades, não apenas a violentava, mas também a entregava para outros homens, configurando o crime de favorecimento à prostituição.
O mergulho nas evidências e nos depoimentos revelou que o sofrimento não se limitava a uma única adolescente.
A equipe da Depca e da 60ª Delegacia Interativa de Polícia (DIP) de Maraã coletou provas de que a prima da vítima principal, hoje com 15 anos, também foi alvo dos mesmos crimes.
Os abusos contra ela começaram quando tinha apenas oito anos, estabelecendo um modus operandi predatório sobre crianças do círculo familiar de confiança.
Perseguição e prisão
Alertado sobre a investigação, o suspeito fugiu da área urbana, tentando se esconder em propriedades de familiares na zona rural de Maraã, município a 634 quilômetros da capital.
Sua imagem foi divulgada, e uma força-tarefa com Polícia Civil, Polícia Militar e Guarda Civil Municipal partiu em seu encalço.
“Após uma longa investigação, tivemos informações de que ele estava escondido no interior”, explicou a delegada.
A prisão foi realizada em um sítio de difícil acesso, encerrando a fuga do acusado.
O homem foi formalmente autuado pelos crimes de estupro (considerada a vulnerabilidade das vítimas), favorecimento à prostituição, ameaça e tortura. Ele agora aguarda, preso, os próximos passos do processo judicial.
Para as duas jovens, a prisão representa o fim imediato de anos de tormento, mas o início de uma longa jornada de recuperação.
Casos de violência contra crianças e adolescentes podem ser denunciados anonimamente pelo Disque 100 ou por meio de delegacias especializadas, como a Depca no Amazonas.