Por Davidson Cavalcante
O episódio das vaias ao prefeito de Iranduba, Augusto Ferraz, durante a comemoração do aniversário do município, teve impacto maior do que um simples ruído de evento.
Para quem acompanha de perto os bastidores políticos da Região Metropolitana de Manaus, o sinal é claro.
A insatisfação que ecoou no palco não surgiu do nada. Ela reflete um incômodo crescente com a gestão, alimentado por problemas estruturais, prioridades contestadas e pela sensação de que a administração não responde ao ritmo das necessidades locais.
Fontes que transitam entre lideranças de Iranduba afirmam que as manifestações públicas contra Ferraz vinham ganhando força desde o início do segundo semestre.
A cidade ocupa posição desconfortável no ranking das vinte mais violentas da Amazônia Legal, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Esse contexto de insegurança, combinado com a percepção de abandono em áreas básicas como infraestrutura urbana, contribui para o ambiente de desgaste.
O peso simbólico da vaia
A vaia, portanto, não foi um ato isolado, mas a expressão pública de um acúmulo silencioso. A gestão tentou contornar a situação com anúncio de atração nacional e estrutura de show milionária.
Mas, para boa parte da população, o gasto acima de R$ 1 milhão para o evento soou desconectado da realidade de um município que ainda enfrenta esgoto a céu aberto, ruas precárias e serviços essenciais limitados.
Interlocutores que acompanham a base do prefeito afirmam que o prefeito aposta na entrega de obras em ritmo acelerado a partir do próximo ano para tentar controlar a narrativa e reduzir o impacto negativo.
A estratégia, contudo, enfrenta obstáculos. Iranduba tem orçamento limitado, depende de repasses federais e enfrenta pressões políticas constantes por parte de grupos locais que disputam influência no entorno de Ferraz.
O fato é que a vaia não foi apenas um desconforto momentâneo. Ela surge como marcador político. Abre conversas internas, põe aliados em alerta e reposiciona o prefeito em uma disputa que ainda está distante, mas já é lida com atenção pelos atores da política amazonense.
Iranduba é pequena no mapa, mas grande na influência para quem sabe interpretar sinais. O episódio serviu como aviso. E, na política local, avisos raramente aparecem por acaso.