Paquistão e Afeganistão trocam ataques após declaração de “guerra aberta”

Bombardeios e ataques com drones marcam escalada inédita entre os dois países após Islamabad declarar “guerra aberta”; governos apresentam versões divergentes sobre mortos e danos.
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Paquistão e Afeganistão intensificaram o confronto militar na madrugada desta sexta-feira (27) com bombardeios e ofensivas com drones após Islamabad declarar “guerra aberta” ao país vizinho. A escalada marca o momento mais grave da crise entre os dois governos desde o retorno do Talibã ao poder em Cabul.

O Exército paquistanês realizou ataques aéreos contra alvos em território afegão, incluindo a capital Cabul. Segundo autoridades de Islamabad ouvidas pela agência Reuters, mísseis lançados por via aérea atingiram supostos escritórios e instalações militares do Talibã em Cabul, Kandahar e na província de Paktia. Testemunhas relataram explosões e a presença de caças sobrevoando as áreas atingidas.

Kandahar, localizada no sul do Afeganistão, é considerada o principal reduto do Talibã e abriga o líder supremo do grupo, Haibatullah Akhundzada.

Ataques retaliatórios

Em resposta, o Talibã anunciou ter conduzido “com sucesso” ataques com drones contra instalações militares em Islamabad, além das cidades de Nowshera, Jamrud e Abbottabad, classificando a ação como retaliação.

O ministro da Informação do Paquistão, Attaullah Tarar, afirmou que drones afegãos foram abatidos em Nowshera, Abbottabad e Swabi, e declarou que não houve vítimas em território paquistanês.

Já o ministro do Interior do Paquistão, Mohsin Naqvi, classificou os bombardeios como uma “resposta adequada” às ações recentes atribuídas ao Afeganistão, especialmente na província de Paktia.

O porta-voz do governo afegão, Zabihullah Mujahid, confirmou os ataques aéreos paquistaneses e afirmou que Cabul retomou “operações ofensivas em larga escala” na fronteira. Segundo ele, não houve vítimas do lado afegão — versão contestada por Islamabad.

Versões divergentes e risco de escalada

Desde quinta-feira, os dois países apresentam relatos conflitantes sobre o impacto das ofensivas. Mujahid afirmou que “dezenas de soldados paquistaneses morreram”, além de feridos e prisioneiros, e que mais de 15 postos avançados teriam sido tomados.

O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, negou as informações e declarou que nenhum posto foi capturado ou danificado, sustentando que as forças paquistanesas infligiram “graves perdas” ao rival.

Até a última atualização, não havia balanço oficial consolidado de mortos desde o início dos bombardeios. Ambos os lados afirmam ter causado baixas, mas não divulgaram números verificáveis.

Os ataques marcam a primeira vez que Islamabad mira diretamente instalações associadas ao Talibã desde que o grupo reassumiu o controle do Afeganistão, representando uma ruptura significativa entre vizinhos historicamente próximos.

Foto: Mapas Mundo

Contexto de tensão

A atual escalada ocorre após meses de deterioração nas relações bilaterais. O Paquistão, potência nuclear, acusa o governo afegão de oferecer abrigo a militantes responsáveis por atentados em seu território — alegação que Cabul rejeita.

No fim de semana passado, Islamabad já havia realizado ataques aéreos nas províncias afegãs de Nangarhar e Paktia, em resposta a atentados suicidas em solo paquistanês. A fronteira terrestre entre os dois países permanece em grande parte fechada desde confrontos ocorridos em outubro, que deixaram mais de 70 mortos dos dois lados.

Um cessar-fogo mediado pelo Catar e pela Turquia foi firmado anteriormente, mas não resultou em acordo duradouro. Rodadas posteriores de negociação fracassaram.

Em meio à crise, Irã e China se ofereceram para atuar como mediadores. Teerã declarou estar disposto a “facilitar o diálogo”, enquanto Pequim pediu moderação e um cessar-fogo imediato para evitar novo derramamento de sangue.

A tensão ocorre também em um cenário regional sensível, com a atuação do Estado Islâmico do Khorasan, braço do Estado Islâmico que opera nos dois países e é considerado um dos mais ativos da organização.

Até o momento, não há indicação de recuo das forças envolvidas. Analistas avaliam que, caso não haja intervenção diplomática rápida, o conflito pode se transformar em confronto prolongado, ampliando a instabilidade em uma das regiões mais sensíveis do cenário geopolítico asiático.

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