População de peixes migradores desaba 81% e acende alerta global na COP15 em Campo Grande

Relatório inédito da ONU revela que quase todas as espécies protegidas correm risco de extinção; Bacia Amazônica e Rio Paraguai estão entre as áreas de maior preocupação.
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As rotas migratórias subaquáticas, essenciais para o equilíbrio da biodiversidade e da economia global, estão em colapso. Uma avaliação global lançada nesta terça-feira (24), durante a COP15 da Convenção sobre Espécies Migratórias (CMS) em Campo Grande (MS), revela um cenário devastador: as populações de peixes migradores de água doce encolheram 81% desde 1970. O estudo, considerado o mais detalhado já feito sobre o tema, aponta que o grupo é hoje um dos mais ameaçados do planeta, superando o declínio de animais terrestres e marinhos.

Peixe bagre. (Foto: Zeb Hogan)

Crise hídrica e biológica

Especialistas da ONU e da CMS apresentaram nesta terça-feira, em Campo Grande, um relatório que identifica 325 espécies de peixes em situação crítica, necessitando de proteção internacional urgente. O documento detalha como a fragmentação dos rios por barragens e a degradação de habitats estão interrompendo ciclos vitais de reprodução e alimentação. A urgência da cooperação entre os 132 países membros do tratado se justifica pelo fato de que 97% das espécies de peixes já listadas na convenção correm risco iminente de desaparecer. O objetivo da divulgação é pressionar governos a manterem corredores fluviais conectados e produtivos para evitar um colapso socioeconômico e ambiental sem precedentes.

Ameaça silenciosa nos rios da América do Sul

O levantamento dedica atenção especial aos sistemas fluviais da América do Sul, com foco nas bacias Amazônica e La Plata-Paraná. Na Amazônia, o avanço de grandes obras e a exploração econômica desenfreada ameaçam o último grande refúgio de espécies como a dourada (Brachyplatystoma rousseauxii), famosa por realizar uma migração recorde de 11 mil quilômetros entre os Andes e a foz do Rio Amazonas.

Peixe Dourado. (Foto: Zeb Hogan)

A crise não é apenas ambiental, mas também financeira. Na região amazônica, a pesca de espécies migradoras de longa distância movimenta cerca de US$ 436 milhões anualmente, representando 93% de toda a atividade pesqueira local. A interrupção desses fluxos por hidrelétricas coloca em risco a segurança alimentar e o sustento de milhares de comunidades.

No sistema La Plata, espécies emblemáticas como o surubim enfrentam a combinação letal de pesca excessiva e alteração do curso natural das águas, resultando em quedas acentuadas no número de indivíduos.

Um mapa do risco global

Além das bacias sul-americanas, o relatório lista casos críticos em outros continentes. Na Ásia, o bagre-gigante do Mekong luta contra a extinção, enquanto na Europa, a enguia-europeia e o esturjão-beluga são considerados casos de emergência sanitária e ambiental.

De acordo com Zeb Hogan, biólogo e autor principal do estudo, a solução exige que as nações ignorem fronteiras políticas para proteger as “estradas azuis” do planeta. Como quase metade da superfície terrestre está inserida em bacias hidrográficas compartilhadas, a falta de uma gestão conjunta pode selar o destino dessas espécies.

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