A despedida de Jesus Alves da Secretaria de Habitação não foi apenas administrativa. Teve clima de campanha, discurso afinado e recado indireto. No palco, David Almeida antecipou simbolicamente a transição para Renato Júnior. Nos bastidores, porém, o movimento mais relevante não foi o que apareceu, foi o que não aconteceu. Jesus não vai para o Avante. E isso muda a leitura de todo o jogo.
Durante meses, o roteiro parecia pronto. Aproximação com o prefeito em agendas conjuntas, participação no lançamento da pré-candidatura e sinais claros de saída do MDB. Nos bastidores, era tratado como questão de tempo. Mas a política, sobretudo no Amazonas, não perdoa erro de cálculo. E aqui entra o ponto que travou a operação.
O nome é Fernanda Aryel. Dentro do Avante, a prioridade já está definida. A filha do prefeito é o projeto central para a Câmara Federal. Está em pré-campanha ativa, circulando no interior e consolidando base. Não há espaço para dois protagonistas disputando o mesmo terreno com a mesma força. E mais do que isso, não há garantia matemática. O partido pode não atingir o volume de votos necessário para eleger dois deputados federais.
Nesse cenário, alguém ficaria de fora. E não seria a candidata prioritária do grupo. Jesus percebeu isso a tempo. Entrar no Avante significaria disputar como coadjuvante, com risco real de terminar como suplente. Um desfecho pequeno para quem saiu da Prefeitura com status de peça estratégica e ligação direta com Eduardo Braga. A saída foi recuar. Longe de ser improviso, foi movimento de sobrevivência política. Jesus volta ao MDB, recompõe com Braga e entra em uma chapa mais competitiva. Não é simples, longe disso, mas é um terreno onde ele não começa em desvantagem estrutural.
O MDB montou um time forte, com nomes que têm voto, lastro político e presença regional. A disputa interna será dura, mas ao menos existe viabilidade real de eleição. No Avante, ele seria peça de reposição. No MDB, ainda pode ser jogador. No fim, a saída da Secretaria não marcou apenas o encerramento de um ciclo na gestão municipal. Foi também o momento em que Jesus Alves fez sua escolha mais importante para 2026. E, ao que tudo indica, escolheu não apostar no projeto de David Almeida.
Coluna — Davidson Cavalcante