Bora lá. O que está em curso no Amazonas é um processo típico na forma, mas absolutamente atípico no conteúdo. A renúncia em sequência de Wilson Lima e Tadeu de Souza não apenas antecipou movimentos, ela desmontou um desenho que vinha sendo construído há pelo menos dois anos. O primeiro impacto é direto. O tabuleiro virou. E virou de um jeito que pegou até quem estava no centro da articulação. Nos bastidores, a leitura é clara.
Roberto Cidade saiu de um sábado cotado para ser vice e acordou no domingo ocupando o cargo mais cobiçado do estado. Isso muda tudo. Muda o peso político, muda a capacidade de articulação e, principalmente, muda a relação com os deputados que vão decidir a eleição indireta. E é justamente aí que entra o nome de Omar Aziz. Não por acaso. Omar reúne hoje três ativos importantes. Lidera pesquisas, tem estrutura partidária e, acima de tudo, tem histórico de relação com a Assembleia. E numa eleição decidida por 24 deputados, isso pesa mais do que qualquer pesquisa.
Nos bastidores, o estímulo para que ele entre na disputa não é ideológico, é matemático. Há quem veja nele mais capacidade de sentar, negociar e construir maioria. Diferente de um cenário de eleição direta, aqui o voto é político, não popular. Agora, tem um ponto que pouca gente está olhando com atenção. Brasília. Existe uma discussão no Supremo envolvendo o caso do Rio de Janeiro que pode, sim, criar um efeito dominó. Se houver entendimento por eleição direta em situações semelhantes, o Amazonas pode entrar nessa mesma discussão. Hoje, juridicamente, o caminho está pavimentado para a eleição indireta. Mas política não é só direito. É interpretação. E, sobretudo, correlação de forças. Já vimos tese cair e entendimento mudar quando o impacto político é grande demais para ser ignorado. Outro detalhe que passa quase despercebido.
A situação de Alessandra Campelo. Ela entrou no jogo como peça de composição, mas o cenário mudou rápido demais. O que antes era construção de chapa virou disputa por sobrevivência política dentro de um novo contexto. E nesse tipo de ambiente, quem não reage rápido, perde espaço. No fim das contas, o que está em jogo não são apenas nove meses de mandato. É o controle da máquina, o poder de articulação e, principalmente, a largada para 2026.
Quem vencer essa eleição tampão não leva só o governo por um período curto. Leva vantagem estratégica para a próxima disputa. E tem mais uma camada. A forma como esses acordos foram quebrados deixou marcas. E política com memória recente costuma cobrar a conta. Resumo do bastidor. Nada está decidido. E o que parece improvável hoje pode virar fato consumado amanhã. Porque, nesse jogo, o movimento mais importante quase nunca é o que aparece.
Coluna — Davidson Cavalcante