Um relatório da Polícia Federal revelou detalhes de uma investigação que pode expor um dos maiores esquemas financeiros atribuídos ao crime organizado na região Norte do país. Documentos obtidos pela coluna mostram uma estrutura financeira milionária que, segundo os investigadores, teria sido usada pelo Comando Vermelho para lavar dinheiro do tráfico internacional de drogas na Amazônia.
O caso tramita na 4ª Vara Federal Criminal da Justiça Federal no Amazonas e envolve operações com PIX, criptomoedas, empresas de fachada e câmbio clandestino. Entre os principais investigados estão Roosevelt Moraes Pires Junior, sargento da Polícia Militar do Amazonas (PMAM), e o venezuelano Ramon Arturo Badillo Carrasco, apontados como sócios da empresa Romar LTDA, conhecida como “ARA Câmbio e Turismo”.
Segundo a representação da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (FICCO), a empresa Romar teria funcionado como uma espécie de “instituição financeira paralela”, movimentando aproximadamente R$ 128 milhões entre créditos e débitos, apesar de não possuir autorização do Banco Central para operar como corretora de câmbio ou instituição financeira. A investigação afirma que a estrutura era usada para receber recursos oriundos do tráfico, converter valores em dólar e criptomoedas e redistribuir o dinheiro por meio de contas bancárias de terceiros.
Os investigadores apontam que o núcleo da organização era ligado a Alan Sérgio Martins Batista, conhecido como “Alan Índio” ou “Sangue Azul”, apontado como uma das principais lideranças do Comando Vermelho no Amazonas. Mesmo foragido e utilizando identidade falsa na Colômbia, Alan Índio, segundo a PF, continuava comandando operações financeiras da facção e ordenando transferências milionárias para empresas ligadas aos investigados. Somente entre fevereiro e abril de 2025, mais de R$ 3,4 milhões teriam sido enviados às contas da Romar LTDA e da Bellagio Barbearia LTDA.
As investigações mostram ainda que operadores financeiros ligados ao grupo utilizavam “laranjas”, empresas recém-criadas e contas pulverizadas para ocultar a origem do dinheiro. Conversas extraídas de celulares e e-mails interceptados revelariam referências diretas ao tráfico de drogas, pagamentos de cargas de entorpecentes e envio de dinheiro para integrantes da cúpula da facção.
Em um dos diálogos citados pela PF, as transferências eram chamadas de “o do Rio”, em referência a Alan Índio, que estaria escondido no Rio de Janeiro durante parte das movimentações financeiras.
Outro ponto considerado explosivo na investigação envolve operações com criptomoedas. A Polícia Federal afirma ter identificado carteiras digitais usadas pelos investigados para movimentar valores milionários, uma criptomoeda pareada ao dólar. Uma dessas carteiras teria movimentado mais de 72 milhões de dólares cerca de R$ 394 milhões na cotação apontada nos autos.
Segundo os investigadores, as operações eram realizadas principalmente no modelo P2P, sem controle direto de instituições financeiras tradicionais, dificultando o rastreamento do dinheiro.
A investigação também aponta conexões internacionais envolvendo a tríplice fronteira amazônica entre Brasil, Colômbia e Peru. A PF cita o nome de Kelisson Rego Da Silva, conhecido como “Itália” ou “Loirinho”, descrito no relatório como uma das lideranças máximas do Comando Vermelho na região.
Conversas interceptadas mostram que ele teria poder de decisão sobre conflitos armados, envio de drogas e até execuções ordenadas dentro da facção. Em um dos trechos do relatório, a PF menciona pagamento de até R$ 50 mil por assassinatos determinados pela organização criminosa.
Os documentos também revelam suspeitas sobre o uso de aeronaves de pequeno porte na logística do tráfico internacional na Amazônia. A Polícia Federal afirma ter encontrado imagens e referências a voos usados para transporte de drogas na região de fronteira.
Além disso, os investigadores identificaram movimentações financeiras consideradas incompatíveis com os rendimentos oficiais declarados pelos investigados. Roosevelt Moraes, por exemplo, teria declarado cerca de R$ 255 mil em rendimentos, mas movimentado mais de R$ 10 milhões em contas pessoais no período analisado, além de participar da administração da estrutura financeira investigada.
Com base nas provas reunidas, a Polícia Federal pediu prisões preventivas, mandados de busca e apreensão e aprofundamento das investigações. O relatório sustenta que o grupo investigado operava uma estrutura criminosa “estável, sofisticada e profissionalizada”, voltada ao tráfico internacional de drogas, lavagem de dinheiro e crimes contra o sistema financeiro nacional.
O caso é considerado uma das maiores investigações financeiras já conduzidas contra o crime organizado na Amazônia e pode atingir diretamente o núcleo econômico do Comando Vermelho na região Norte do país.