A recente proposta do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de suspender a implementação da Reforma Tributária por um ano tem muito pouco a ver com preocupações técnicas sobre o sistema fiscal do país. Na realidade, a movimentação atua como um “escudo” para estancar uma crise política e reposicionar o parlamentar no xadrez eleitoral rumo à Presidência.
A avaliação é do comentarista político Davidson Cavalcante, da NC News. Segundo a análise, existem momentos na política em que uma proposta “não nasce de uma convicção programática, mas de uma necessidade de sobrevivência”.
A raiz da manobra: A crise com o mercado
Para Cavalcante, o momento escolhido pelo entorno de Flávio Bolsonaro para encampar a paralisação da Reforma Tributária fala por si. A verdadeira crise do pré-candidato surgiu “dentro de casa”, com a exposição pública de sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro.
Vorcaro é investigado em conexão com o colapso de uma das maiores instituições financeiras privadas do país. Esse escândalo abriu um flanco político complexo para Flávio, gerando um desgaste que ultrapassa a imagem pessoal e atinge diretamente a estratégia de sua pré-campanha: a consolidação de apoio junto ao mercado financeiro e a uma parcela expressiva do empresariado.
Diante da instabilidade, a saída encontrada foi a criação de uma “agenda conveniente”.
“Convocam-se empresários, realizam-se reuniões, mobilizam-se especialistas e apresenta-se uma proposta com aparência técnica. O movimento possui método, mas transmite a sensação de ser uma reação a uma crise, e não fruto de um planejamento de longo prazo”, destaca o comentarista da NC News.
O paradoxo da insegurança jurídica
A manobra do senador, no entanto, esbarra em uma contradição evidente. A Reforma Tributária foi aprovada após décadas de tentativas fracassadas e negociações intensas entre o Congresso, o Executivo e o setor produtivo. Ao pedir a sua suspensão, Flávio reintroduz incertezas em um ambiente de negócios que já começava a se adaptar às novas regras.
Cavalcante aponta a ironia do movimento: o mesmo campo político que acusa o governo Lula de produzir instabilidade regulatória agora atua para interromper um processo validado democraticamente. Para os investidores, lembra o analista, a previsibilidade é um ativo tão valioso quanto a redução da carga tributária.
Embora existam críticas legítimas ao texto da reforma — como a alta carga final e o excesso de regimes de exceção —, a credibilidade do debate se perde quando ele é levantado no momento de “maior vulnerabilidade política de quem a conduz”.
Rachas na direita e espaço para adversários
A tentativa de Flávio Bolsonaro de usar a Reforma Tributária como cortina de fumaça não é unanimidade nem mesmo dentro do seu próprio espectro político.
- Divergências internas: Diversos aliados da direita que acompanharam e validaram a tramitação do texto no Congresso preferem lutar por ajustes pontuais, rejeitando a ideia radical de reabrir um processo já concluído.
- Oportunidade para rivais: Ao gerar ruído no setor produtivo, a atitude de Flávio abre um vácuo no eleitorado conservador e empresarial. Adversários políticos e outros pré-candidatos que apostam no discurso da “estabilidade institucional” encontram terreno fértil para capturar esses apoios.
Uma pré-campanha sem eixo
A conclusão do comentário da NC News expõe a fragilidade atual do projeto presidencial de Flávio Bolsonaro. Segundo Davidson Cavalcante, a campanha do senador carece de um eixo político definido, oscilando confusamente entre abraçar a herança radical do bolsonarismo e tentar construir uma identidade própria e moderada.
“Suspender a Reforma Tributária não pode ser pretexto para limpar a barra de um desgaste por incoerência no discurso. Candidaturas que parecem guiadas mais pela conveniência do momento do que pela consistência de suas convicções costumam enfrentar um custo político que, cedo ou tarde, se paga caro”, finaliza o comentarista.