A mais recente “Superquarta” trouxe recados mistos para o mercado financeiro e o setor produtivo. Enquanto o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central brasileiro reduziu a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, fixando-a em 14,25% ao ano, o Federal Reserve (Fed) optou por manter os juros inalterados nos Estados Unidos.
Embora o corte no Brasil abra espaço para algum otimismo, especialistas do mercado financeiro são unânimes: o efeito prático sobre o consumo, os investimentos e o custo de crédito para as empresas será limitado e muito gradual. A expectativa é que o cenário de pressão financeira se estenda até 2027.
O descompasso entre a Selic e os juros longos
O principal entrave para que o corte da Selic chegue ao bolso do consumidor e ao caixa das empresas é a curva longa de juros. Gustavo Assis, CEO do Asset Bank, explica que boa parte das operações de financiamento utiliza as taxas de longo prazo como referência. “Mesmo com uma eventual redução da Selic, as taxas de mercado para longo prazo continuam elevadas, refletindo preocupações com inflação, risco fiscal e sustentabilidade das contas públicas”, destaca.
Valdir Piran Jr., CEO da Intra Asset, reforça a visão de cautela. Segundo ele, o custo de capital no Brasil permanece alto em termos reais. “A decisão pode melhorar o humor do mercado e destravar parte das decisões de investimento, mas empresas e investidores ainda devem manter seletividade”, pontua.
Alternativas de crédito e o fator externo
Com o crédito bancário tradicional ainda restritivo, soluções alternativas ganham força. Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos, aponta que os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) se tornam ferramentas essenciais. “Eles permitem que empresas antecipem recebíveis, financiem cadeias produtivas e acessem capital de forma mais estruturada”, explica Araújo.
No radar do Banco Central, o cenário externo continua sendo um fiel da balança. A manutenção das taxas pelo Fed mantém o dólar sob pressão. Por outro lado, a recente queda nos preços do petróleo traz um alívio inflacionário, embora frágil. Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, alerta que “o comunicado deixa claro que o espaço para novos cortes continua limitado” e que o foco do mercado se volta para as próximas reuniões em busca de prever o nível terminal da Selic em 2026.
Impacto nos Fundos Imobiliários (FIIs)
Para os investidores, o cenário exige atenção aos fundamentos. Isabella Almeida, gestora de Fundos Imobiliários da Rio Bravo Investimentos, esclarece que a performance dos FIIs é mais sensível aos juros reais de longo prazo (medidos pelas NTN-Bs) do que à Selic no curto prazo.
“Diante da deterioração das expectativas inflacionárias e dos dados de inflação recentes, os FIIs podem apresentar volatilidade. Por outro lado, esses momentos também podem criar oportunidades de alocação em fundos com fundamentos sólidos, baixos níveis de endividamento e ativos de alta qualidade”, conclui a gestora.