Em São Paulo, o xadrez eleitoral ganhou um movimento silencioso, mas de enorme peso estratégico. Kim Kataguiri, do Missão, e Paulo Serra, do PSDB, retiraram suas pré-candidaturas ao Governo do Estado no espaço de 48 horas. Ambos migraram para a disputa pela Câmara dos Deputados. A saída não foi acidente. Foi cálculo. Apurei junto a fontes que acompanham de perto o movimento nos bastidores da direita paulista: o recuo de Kataguiri e Serra não foi espontâneo. A decisão ocorreu após tentativas de aliados do governador de convencer ambos a cederem espaço para Tarcísio de Freitas. O resultado prático é que o campo conservador passa a falar uma única voz na disputa pelo Palácio dos Bandeirantes. O impacto no cenário é imediato. Kataguiri e Serra disputavam fatias do eleitorado de direita, centro-direita e liberal que, dispersas, poderiam forçar um segundo turno. Sem essa fragmentação, a tendência é de concentração gravitacional dos votos nesse campo em torno do Governador. As sondagens já indicavam a magnitude do favoritismo de Tarcísio antes mesmo das desistências. Levantamento realizado em meados de junho apontava vantagem de 13 pontos percentuais do governador sobre Fernando Haddad, do PT. Outro levantamento, de maio, registrava aprovação de 64,4% para a gestão Tarcísio no estado, com menos de um terço do eleitorado reprovando o governo. Os números anteriores ao afunilamento já eram sólidos. Com o campo enxuto, tornam-se ainda mais confortáveis.
Para Fernando Haddad, o cenário que se apresenta é adverso por razões que vão além da aritmética eleitoral. O ex-ministro entrou na corrida por convocação política, não por escolha estratégica própria. Nos bastidores do PT, sabe-se que o nome de Haddad foi escalado para cumprir uma função estrutural no jogo nacional: garantir ao presidente Lula um palanque robusto no maior colégio eleitoral do país, independentemente do resultado final. Há, entretanto, uma leitura política que vale registrar. São Paulo não é um estado de comportamento eleitoral uniforme. Entre os eleitores de baixa renda, a tendência de voto se inverte, com Haddad à frente de Tarcísio nessa faixa. A capital concentra um eleitorado com perfil distinto do interior, onde o conservadorismo vota em bloco. A polarização Tarcísio-Haddad, portanto, replica em nível estadual a mesma tensão que deverá marcar a disputa presidencial em nível nacional.
O que os bastidores revelam é que as desistências de Kataguiri e Serra representam mais do que a simples redução do número de candidatos. Representam a consolidação de um campo, a organização de uma coalizão e, no limite, uma primeira declaração de intenção do campo conservador para outubro. Tarcísio não ganhou apenas dois adversários a menos. Ganhou, potencialmente, a inércia dos votos que eles carregavam. Se a eleição paulista converge para o primeiro turno, como os indicadores sugerem, São Paulo poderá registrar o pleito mais enxuto de sua história em eleições gerais. E, nesse caso, o maior colégio eleitoral do país sinalizará algo ao restante do Brasil bem antes de outubro.
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