A Polícia Federal deflagrou nesta terça-feira (23) uma operação contra o Banco Digimais, instituição controlada pelo bispo Edir Macedo, sob suspeita de práticas financeiras consideradas temerárias e supostas manipulações contábeis para ocultar a real situação financeira da empresa.
A ação teve como alvo pessoas físicas, empresas e fundos de investimento ligados ao banco. A Justiça autorizou o bloqueio de bens e valores de até R$ 670 milhões, além da quebra de sigilos fiscais de diversos investigados.
Em nota, o Banco Digimais informou que permanece à disposição para colaborar com a investigação. “A instituição reafirma seu compromisso com a transparência, a conformidade regulatória e a plena colaboração com as autoridades competentes”, completa posicionamento.
Já o escritório que defende o bispo Edir Macedo afirmou que não tiveram acesso aos autos da operação e “nada vai comentar, por se tratar de instituição financeira”.
O que aconteceu?
Segundo a investigação, dirigentes e pessoas ligadas ao Banco Digimais teriam adotado mecanismos para apresentar uma situação financeira mais sólida do que a realidade da instituição.
De acordo com os investigadores, o suposto esquema teria envolvido manipulação de registros regulatórios, alterações em demonstrativos contábeis e estratégias para esconder dificuldades financeiras da instituição perante órgãos fiscalizadores.
A operação desta terça-feira cumpriu nove mandados de busca e apreensão.
Embora Edir Macedo não tenha sido alvo das buscas por residir no exterior, a Justiça determinou medidas patrimoniais e a quebra de seu sigilo fiscal.
Quem são os alvos da operação?
Entre os investigados que tiveram bens bloqueados estão:
- Marcelo de Lima Brasil
- João Alves de Campos
- Rodrigo Ruggero
- João Luiz Urbaneja
- Thiago Rodrigues Urbaneja
- José Roberto Giancoli Filho
Rodrigo Balassiano - Banco Digimais S.A.
- ID Corretora de Títulos e Valores Mobiliários S.A.
Também tiveram quebra de sigilo fiscal autorizada:
- B.A. Empreendimentos e Participações S/A
- Banco Digimais S.A.
- Bless Capital Gestora de Recursos
- Digimais Securitizadora de Créditos Financeiros S.A.
Edir Macedo Bezerra - EXP 1 FIDC-NP
- Guidare FIM CP
- Hermon Fundo de Investimento em Direitos Creditórios Não Padronizados (FIDC-NP)
- ID 112 FIDC-NP
- ID Corretora de Títulos e Valores Mobiliários S.A.
- João Alves de Campos
- João Luiz Urbaneja
- José Roberto Giancoli Filho
- Marcelo de Lima Brasil
- Rocha Silva Consultoria e Estruturação (Marcos Serviços de Consultoria Ltda.)
- Rodrigo Balassiano
- Rodrigo Ruggero
- Thiago Rodrigues Urbaneja
Como funcionaria o esquema investigado?
Segundo a Polícia Federal, o banco teria criado uma aparência de solvência por meio da supervalorização de ativos e da emissão de produtos financeiros com retornos considerados muito acima dos praticados pelo mercado.
Na prática, os investigadores afirmam que a instituição captava dinheiro de investidores oferecendo remunerações elevadas e utilizava mecanismos contábeis para esconder riscos e problemas financeiros.
A PF sustenta que o modelo permitia ampliar a entrada de recursos enquanto a deterioração da carteira de crédito não aparecia de forma transparente nos balanços.
Qual a relação apontada entre Digimais e Banco Master?
Um dos principais pontos da investigação é a suposta semelhança entre as práticas atribuídas ao Banco Digimais e aquelas que ficaram associadas ao Banco Master.
Segundo a Polícia Federal, ambas as instituições teriam utilizado uma estratégia baseada na emissão de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com taxas muito superiores às oferecidas por concorrentes.
A investigação aponta que a confiança dos investidores na proteção oferecida pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) teria sido utilizada como fator de atração para a captação de recursos.
Os investigadores afirmam ainda que essa estratégia teria transferido riscos para o sistema financeiro ao mesmo tempo em que mascarava dificuldades internas.
O que chamou a atenção dos investigadores?
A PF destaca que cerca de R$ 600 milhões teriam sido alocados pelo Digimais em carteiras de direitos creditórios vinculadas ao Banco Master.
Outro ponto citado é a tentativa de aquisição do Digimais pelo empresário Maurício Antonio Quadrado, ex-sócio e ex-executivo do Banco Master, por meio da holding Bluebank.
A operação acabou não sendo aprovada pelas autoridades reguladoras devido aos riscos identificados durante a análise.
Segundo os investigadores, a combinação entre captação agressiva de recursos, ativos considerados de origem duvidosa e operações financeiras complexas levantou suspeitas sobre a gestão da instituição.
O que dizem os investigados?
Até o momento, os investigados terão a oportunidade de apresentar suas versões durante o andamento do processo.
Como a apuração ainda está em fase inicial, não há decisão definitiva da Justiça sobre as suspeitas apresentadas pela Polícia Federal.
Pelo princípio da presunção de inocência, todos os envolvidos são considerados inocentes até eventual condenação transitada em julgado.
O que acontece agora?
A Polícia Federal continuará analisando documentos, registros financeiros, movimentações bancárias e materiais apreendidos durante a operação.
O objetivo é verificar se houve crimes financeiros, gestão temerária, fraude contábil ou outras irregularidades relacionadas ao funcionamento da instituição.
As conclusões poderão resultar em novos desdobramentos judiciais, denúncias do Ministério Público e eventuais ações de responsabilização.
Entenda o contexto
A operação contra o Banco Digimais surge em um momento de forte atenção das autoridades sobre instituições financeiras de médio porte e modelos de captação considerados agressivos.
Os investigadores apontam semelhanças entre práticas adotadas pelo Digimais e estruturas que já haviam despertado preocupação no mercado financeiro brasileiro. A apuração busca esclarecer se houve apenas estratégias de negócios de alto risco ou se ocorreram irregularidades que possam configurar crimes financeiros.
O caso ainda está em fase de investigação. Os próximos meses serão decisivos para definir se as suspeitas serão confirmadas ou descartadas pelas autoridades responsáveis.