Famílias procuram sobreviventes após terremotos na Venezuela

Após fortes tremores, comunidades venezuelanas enfrentam perdas e buscam por entes queridos desaparecidos.
Redação NC News
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

Dois fortes terremotos, de magnitudes 7,2 e 7,5, atingem a Venezuela na noite de 24 de junho de 2026 e deixam ao menos 164 mortos e mais de mil feridos. Em La Guaira, Morón e Caracas, famílias passam a madrugada entre escombros, filas de hospitais e chamadas não atendidas de parentes desaparecidos.

Noite de telefonemas, gritos e buscas

Nas primeiras horas depois dos tremores, o país se transforma em um corredor de gente correndo atrás de notícias de filhos, pais e irmãos. Linhas de celular caem, a internet oscila, e boa parte dos telefonemas se resume ao mesmo pedido: “me atende, por favor”.

Um relato divulgado por uma jornalista da BBC sintetiza o clima de terror. Depois de horas sem conseguir contato, ela encontra a irmã e envia uma mensagem curta, que ecoa em milhares de casas venezuelanas: “Irmã, pensei que fôssemos morrer”.

Caracas, La Guaira e Morón convivem com cenas repetidas. Crianças de pijama em praças, idosos em cadeiras de plástico na calçada, mães com documentos e remédios em sacolas improvisadas. Quem consegue sinal de internet compartilha fotos de parentes, pede informações de hospitais, organiza caronas para áreas menos afetadas.

O medo não termina com o amanhecer. Mais de 20 réplicas sacodem a região, e prédios que ainda resistem rangem a cada pequeno tremor. Famílias que passaram a vida em um mesmo apartamento agora dormem em carros, escolas e quadras esportivas. Muitas não têm sequer onde chorar seus mortos.

Dois abalos em menos de um minuto

O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) detalha que o primeiro terremoto, de magnitude 7,2, ocorre no fim da tarde de quarta-feira, com epicentro a cerca de 21 quilômetros a oeste de Morón, no litoral venezuelano, e a 160 quilômetros de Caracas. O tremor parte de cerca de 10 quilômetros de profundidade, o que aumenta a força sentida na superfície.

Quase um minuto depois, um segundo abalo, ainda mais forte, de magnitude 7,5, atinge praticamente a mesma área. A sequência, em intervalo tão curto, pega famílias dentro de elevadores, escadas e ruas estreitas, quando muitos tentavam deixar os prédios após a primeira sacudida.

Há relatos de edifícios de 10 a 15 andares que desabam imediatamente, sem tempo para evacuação. La Guaira concentra parte importante das imagens mais graves, com torres inteiras transformadas em pilhas de concreto. “É uma verdadeira tragédia”, afirma a presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, ao atualizar os dados na manhã de quinta-feira, 25.

Ela informa ao menos 164 mortos confirmados, mais de mil feridos e “dezenas de edifícios colapsados” apenas em La Guaira. Em muitas dessas construções, famílias inteiras estão entre os escombros, e vizinhos apontam lacunas nos protocolos de evacuação e na fiscalização de obras.

Famílias entre escombros e hospitais lotados

Hospitais em Caracas, La Guaira e Morón atendem além da capacidade. Corredores se enchem de parentes tentando reconhecer corpos, entregar remédios ou descobrir para onde um ferido foi transferido. Médicos improvisam leitos em estacionamentos, e parentes se revezam segurando soro, carregando macas e abastecendo grupos de mensagens com listagens de pacientes.

Nas áreas mais atingidas, pais caminham com fotos impressas de crianças, perguntam de porta em porta, descrevem roupas, cicatrizes, qualquer pista. A cada nova réplica, o resgate precisa ser interrompido. O risco de novos desabamentos obriga as equipes a recuar, sob o olhar angustiado de quem sabe que um filho ou um irmão está embaixo daquele concreto.

O analista de clima e meio ambiente Pedro Côrtes explica que, embora a Venezuela esteja em uma região geologicamente problemática, tremores tão fortes são raros. “Já há cerca de 100 anos que não se sentia um tremor com essa intensidade”, diz. A placa tectônica do Caribe, onde o país se localiza, é pequena, mas sofre pressões simultâneas das placas dos Cocos, norte-americana e sul-americana.

A profundidade de apenas 10 quilômetros no primeiro abalo, considerada superficial, deixa pouca rocha para absorver a energia liberada. “Essa proximidade com a superfície aumenta a onda de choque”, afirma Côrtes. O resultado chega direto às casas e às famílias.

O USGS projeta um cenário potencialmente muito mais grave, com estimativa de 10 mil a até 100 mil mortes, dependendo da extensão dos desabamentos em cadeia. “O que a gente tem visto é que, infelizmente, talvez essa perspectiva não seja exagerada”, diz o analista.

Estado de emergência e fundo para reconstrução

Diante da dimensão do desastre, Delcy Rodríguez decreta estado de emergência e suspende aulas e serviços públicos não essenciais. A medida tenta reduzir o tráfego nas ruas e liberar prédios públicos para abrigar famílias desalojadas.

O governo anuncia também um fundo de US$ 200 milhões para reconstrução, com recursos do Fundo Monetário Internacional (FMI). A promessa é priorizar habitação, hospitais e escolas. Famílias que perderam tudo cobram rapidez e transparência, lembrando experiências traumáticas recentes em outros desastres no país, em que indenizações demoraram anos para chegar.

A missão de direitos humanos da ONU na Venezuela pede que o governo suspenda temporariamente as restrições às redes sociais, para facilitar a circulação de informações sobre desaparecidos, abrigos e rotas de resgate. A comunicação é vital para parentes que tentam localizar mães e filhos em cidades diferentes.

Países como México, Brasil, Catar, Estados Unidos e China oferecem equipes de resgate e material médico. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva se manifesta ainda na noite de quarta-feira. “Instruí o Ministério das Relações Exteriores a avaliar a situação venezuelana para adotar as medidas assistenciais necessárias”, afirma.

No Brasil, os tremores são sentidos em estados do Norte, como Amazonas, Amapá, Pará e Roraima. Em Belém e Macapá, prédios são evacuados por precaução, mas a Defesa Civil informa não haver danos estruturais. Mesmo à distância, famílias de venezuelanos que vivem nessas cidades passam a madrugada em filas de ligações internacionais, tentando contato com parentes em Caracas e La Guaira.

Herança sísmica e futuro das famílias

Os abalos desta semana já entram para a história como um dos desastres naturais mais graves da Venezuela em mais de um século. Desde o grande tremor de 1900, de magnitude 7,7, o país convive com uma memória sísmica que ressurge a cada novo evento, mas que nem sempre se traduz em normas rígidas de construção ou preparação comunitária.

Casas erguidas sem observância de padrões de segurança, prédios antigos sem reforço estrutural e a falta de rotas de evacuação claras tornam a vida das famílias mais frágil diante de um cenário geológico complexo. Lares que já lidavam com desemprego, inflação e serviços públicos precários agora somam luto e desabrigo.

Especialistas apontam que a reconstrução não poderá se limitar a erguer novos prédios onde os antigos ruíram. A pressão internacional deve recair sobre mudanças em códigos de obras, sistemas de alerta e planos de evacuação que incluam escolas, hospitais e bairros populares.

As próximas semanas serão decisivas. O número de mortos ainda pode subir, à medida que equipes alcançam áreas isoladas e escombros mais instáveis. As réplicas previstas mantêm famílias em alerta e atrasam buscas delicadas.

Quando a poeira baixar, o país terá de responder a uma pergunta incômoda: que tipo de cidade e de moradia oferecerá às novas gerações para que, no próximo grande tremor, pais e filhos não precisem correr pelas escadas repetindo a mesma frase desesperada — “pensei que fôssemos morrer”.

Tem placa tectônica na Venezuela?

Sim. A Venezuela está sobre a placa tectônica do Caribe, uma formação pequena, comprimida pelas placas dos Cocos, norte-americana e sul-americana, o que torna a região sísmica.


Carregar Comentários