Uma pesquisa Datafolha divulgada neste sábado, 4 revela um eleitorado brasileiro majoritariamente desinformado sobre quem o representa em Brasília. O levantamento mostra que 68% dos eleitores não conseguem citar o nome de um único deputado federal e 75% não sabem indicar um senador em exercício.
Eleitor vota, esquece e se afasta da política
Os números do Datafolha trazem um detalhe ainda mais incômodo: quase 70% dos entrevistados não se lembram em quem votaram para o Legislativo nas eleições de 2022. O resultado reforça a percepção de um voto cada vez mais automático, sem acompanhamento posterior.
Leitores que escrevem ao Fórum do Estadão enxergam na desmemória um sintoma de algo mais profundo. Falam em desinteresse, falta de compromisso e uma visão de curto prazo que ignora passado e futuro político. Um deles relata ter adotado o hábito de escrever a todos os eleitos que receberam seu voto, cobrando posições em temas relevantes. “Tenho para mim que um número expressivo de manifestações dos eleitores tem consequências, e por isso tenho instado as pessoas do meu convívio a fazerem o mesmo. É o que está ao nosso alcance fazer como cidadãos, e o mínimo que podemos fazer para não sermos omissos”, afirma.
A discussão avança para o próprio desenho do sistema eleitoral. Em São Paulo, por exemplo, o eleitor escolhe apenas um entre 70 deputados federais, o que, para alguns, reduz a sensação de pertencimento e responsabilidade. Nas cartas, surge a proposta de permitir voto em até três nomes para as Câmaras, como um experimento para estreitar o vínculo entre representados e representantes.
Críticas ao STF alimentam desgaste institucional
Enquanto o eleitor se distancia de seus parlamentares, o Supremo Tribunal Federal enfrenta um desgaste de outra natureza. A aprovação, por unanimidade, de penduricalhos salariais para seus ministros, em desacordo com o teto previsto no artigo 37, inciso XI, da Constituição, acende um alerta sobre corporativismo e privilégios em Brasília.
Em nova rodada de cartas, leitores do Estadão dizem ver um tribunal blindado do mundo real. “Parece que os ministros do STF têm uma Constituição própria, inacessível aos brasileiros, que, aliás, pagam seus salários”, critica um deles. Outro sustenta que “o STF segue acumulando decisões que frustram a sociedade” e acusa a atual presidência da Corte de “fraqueza e incapacidade de exercer a liderança necessária”.
A reversão da tese da “revisão da vida toda” para aposentadorias cristaliza esse mal-estar. Depois de reconhecer o direito de segurados que contribuíram antes de julho de 1994 a recalcular o benefício com base em toda a vida contributiva, o tribunal muda de posição em novo julgamento. A guinada, tomada após o INSS apresentar projeções de impacto financeiro, é vista como exemplo de um tribunal mais sensível a cálculos orçamentários do que à realidade de quem trabalhou décadas pelo teto da Previdência.
“O resultado prático dessa mudança de atitude é devastador”, avalia um leitor, ao lembrar que milhares de aposentados, que contribuíram antes de 1994, veem agora seus direitos “sumariamente anulados”. Ele acusa o STF de acolher projeções do governo sem auditoria e deixar “os aposentados sem amparo”.
Suspeitas milionárias e erosão da confiança
O ambiente se torna ainda mais carregado com a revelação de mensagens envolvendo um contrato de R$ 129 milhões, citado em carta de leitor, que menciona a esposa de um ministro do Supremo e um “criminoso contumaz”. O caso, ainda sem solução pública clara, alimenta a sensação de que a degradação ética não poupa nenhum dos Poderes.
“As mensagens trocadas em torno de um contrato de R$ 129 milhões envolvendo a esposa de um ministro do Supremo Tribunal Federal e um criminoso contumaz nos obrigam a uma reflexão incômoda: onde e quando deixamos o Brasil chegar ao ponto a que chegou?”, escreve José Ricardo Bittencourt Noronha. Para ele, práticas que deveriam chocar há muito tempo foram normalizadas, de presidentes enrolados em escândalos a famílias políticas com patrimônio incompatível. O que antes parecia restrito ao Executivo e ao Legislativo agora, na percepção desses leitores, ronda também o Judiciário.
Sanções dos EUA apertam cerco ao PCC
No campo da segurança pública, outro foco de tensão vem de fora do país. Reportagem do Estadão registra que sanções dos Estados Unidos a operadores ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC) já afetam investigações brasileiras, obrigando a Polícia Federal a acelerar prisões e operações.
“Sanção dos EUA faz PF acelerar ação contra operadores ligados ao PCC”, resume a manchete. Advogados associados a facções criminosas entram no alvo, num movimento que mistura pressão externa, estratégia de inteligência e urgência interna. O cerco internacional a fluxos financeiros suspeitos, que passam por bancos e empresas no Brasil e no exterior, limita margens de manobra e impõe prazos mais curtos para o cumprimento de mandados.
Esse redesenho de prioridades policiais tem impacto direto na rotina de grandes centros urbanos como São Paulo e Rio de Janeiro, mas também chega a estados do Nordeste, como Bahia, Pernambuco, Ceará e Paraíba, onde o avanço de facções disputa território com facções locais e força pública.
Polarização à direita e país em transe
O mesmo Datafolha que revela o eleitor desinformado mostra, segundo a Folha de S.Paulo, que a direita volta a superar a esquerda na autodefinição ideológica dos brasileiros. “Direita volta a superar a esquerda entre brasileiros, aponta Datafolha”, destaca o jornal. A mudança redesenha o ambiente político às vésperas de um novo ciclo eleitoral.
A vida institucional, porém, não se resume à guerra de narrativas entre campos ideológicos. No Ceará, o governo prioriza a recuperação de açudes em meio à vulnerabilidade climática e à pressão sobre o abastecimento de água, numa agenda social que corre em paralelo à instabilidade em Brasília. Em outro extremo do noticiário, a Mega-Sena acumula e promete R$ 33 milhões ao vencedor, na loteria de quem busca um atalho individual em meio às incertezas coletivas.
As cartas enviadas aos jornais revelam um sentimento difundido de cansaço. Há quem declare não ver “candidato que mereça nosso voto” e preveja “mais uma eleição perdida”. Outros resumem a crise do Congresso a uma palavra: “honestidade”. Em tom amargo, um leitor afirma que o brasileiro “não sabe votar” e prevê a reeleição de políticos condenados e anistiados, embalados pelo apego a “políticos de estimação”.
A polarização, que empurra o debate para os extremos, encontra uma sociedade que se afasta dos fatos concretos da política. O resultado é um círculo vicioso: menos informação, mais espaço para discursos simplificados; mais desconfiança nas instituições, mais terreno para soluções fáceis e personalistas.
Entre a apatia e a pressão por reformas
O quadro que emerge das edições deste sábado em jornais como O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, O Globo, Correio Braziliense, Zero Hora, A Tarde, Correio da Bahia, Jornal do Commercio, Diário do Nordeste, Folha de Pernambuco e ParaibaOnline é de um país em disputa consigo mesmo. De um lado, um eleitorado que vota, mas não acompanha. De outro, instituições questionadas por privilégios, decisões controversas e suspeitas que beiram a promiscuidade.
Entre esses polos se movem forças de segurança pressionadas por sanções internacionais e governos locais que tentam responder a problemas concretos, como a recuperação de açudes no semiárido nordestino. As próximas semanas e meses tendem a trazer novos capítulos dessa tensão, com debate sobre eventual reforma do Judiciário, discussões sobre mudanças no sistema eleitoral e mais operações contra o crime organizado.
A interrogação central segue em aberto e ecoa na pergunta do leitor que se espanta com o contrato de R$ 129 milhões: em que momento o país naturalizou a degradação ética e a distância entre representantes e representados? A resposta, se vier, não sairá apenas dos tribunais ou dos palanques, mas do quanto o eleitor decidir, ou não, voltar a olhar com atenção para quem fala em seu nome.