Um ônibus com mais de 40 romeiros tomba na manhã do último sábado, 4, na CE-456, zona rural de Canindé, e mata duas mulheres. Outras 21 pessoas ficam feridas e são levadas à Santa Casa de Canindé, que registra amputações e cirurgias ortopédicas emergenciais.
Viagem de fé interrompida na estrada
O grupo saiu da Vila São Sebastião, zona rural de Brejo Santo, no Cariri, com destino ao Santuário São Francisco das Chagas, em Canindé, um dos principais polos de romaria do Ceará. A peregrinação, que deveria terminar em oração, termina em luto e correria por atendimento médico.
O acidente acontece na localidade de Juá, trecho de pista simples da CE-456, quando o ônibus perde o controle, sai da estrada e tomba às margens da rodovia. Entre os passageiros estão crianças, adultos e idosos. Muitas vítimas ficam presas às ferragens.
A Guarda Municipal de Canindé confirma duas mortes no local: Selma Maria Sousa e Maria Sandra Alves. Os demais ocupantes são socorridos por equipes do Corpo de Bombeiros de Canindé, Baturité e Quixadá, além de ambulâncias do município e do Samu.
Hospital em alerta e amputações entre as vítimas
A Santa Casa de Canindé entra em regime de emergência. Para dar vazão ao fluxo de ambulâncias, a Guarda Municipal bloqueia ruas no entorno do hospital. O objetivo é garantir espaço para manobra dos veículos e rapidez no acesso ao pronto-socorro.
Em nota, o hospital detalha o quadro. “Deram entrada na emergência da Santa Casa de Canindé 21 pessoas, de ambos os sexos e idades variadas, incluindo crianças. Destas, duas pacientes foram transferidas para hospital terciário e quatro foram submetidas a procedimentos cirúrgicos/ortopédicos e permaneceram internadas”, informa a unidade.
Parte dos feridos sofre amputações de membros, segundo equipes de resgate que atuam na rodovia. O quadro de gravidade amplia a pressão sobre a rede pública de saúde, que precisa articular transferência de pacientes para hospitais de maior porte e garantir reabilitação prolongada a quem sobrevive.
Passageiros com ferimentos leves ou em condição estável são encaminhados ao Abrigo São Francisco, em Canindé, que também recebe familiares das vítimas em busca de informação.
Duas versões para a mesma tragédia
A Polícia Civil abre inquérito para apurar a causa do tombamento. Investiga o motorista do ônibus e ouve sobreviventes ainda neste fim de semana. As versões sobre o que acontece na pista se chocam.
Segundo relato repassado às autoridades, “o motorista alegou que tentou desviar de um caminhão que vinha no sentido contrário, quando perdeu o controle e desceu a ribanceira”. Passageiros, porém, apresentam outra explicação: “A segunda versão, dos passageiros, é que o condutor dormiu ao volante”.
Perícia deve analisar marcas no asfalto, posição final do veículo e tacógrafo, equipamento que registra velocidade e tempo de direção. A investigação também mira as condições do ônibus, a jornada do motorista e a eventual responsabilidade da empresa responsável pelo transporte dos romeiros.
Romaria abalada e fé em meio ao luto
Em Canindé, a notícia chega ao Santuário São Francisco das Chagas enquanto fiéis participam da missa votiva deste sábado. O reitor do santuário, frei Gilmar Nascimento, interrompe a celebração para comunicar o acidente e pedir orações.
“Nesse Dia Votivo a São Francisco de Chagas, queremos trazer presentes também as vítimas de um acidente que aconteceu hoje de manhã. Um ônibus de romeiros que capotou. Nós tivemos algumas vítimas, duas pessoas, pelo menos até agora, vieram a óbito. É sempre um momento difícil quando acontece um acidente. E nós queremos fazer presente nessa Santa Missa todas essas pessoas”, diz o religioso, visivelmente abatido.
O frei explica que o grupo fazia parte de uma caravana maior. “Seriam dois ônibus. Um chegou ao Abrigo São Francisco, e o outro tombou. As pessoas estavam previstas para chegar ao Santuário São Francisco das Chagas, onde costumam ficar os romeiros, mas ocorreu esse acidente”, afirma.
O clima no santuário é de comoção. Fiéis acendem velas, rezam pelos mortos e pelo restabelecimento dos feridos. A rede de apoio informal, típica das grandes romarias, se ativa para acolher parentes e sobreviventes que conseguem chegar à cidade.
Sistema viário sob pressão após novo tombamento
O acidente na CE-456 acontece menos de um mês depois de outra tragédia envolvendo ônibus no Ceará. Em 15 de junho, um veículo que levava um time de basquete de Juazeiro do Norte tomba na CE-187, em Tauá, e deixa sete atletas mortos e mais de 30 feridos.
Naquela ocasião, o motorista também alega ter perdido o controle ao tentar desviar de um animal na pista. A dinâmica segue em apuração pela Polícia Civil. A repetição de tombamentos em rodovias estaduais, em intervalo de 19 dias, reforça a pressão por fiscalização mais rígida e revisão das condições de segurança do transporte coletivo.
No caso dos romeiros, o impacto recai sobre diferentes frentes. O sistema viário estadual volta ao centro do debate, especialmente em trechos rurais usados por grupos religiosos. O setor de transporte de passageiros encara risco de responsabilização civil e criminal, com possíveis efeitos econômicos para empresas que atuam em rotas de romaria.
Na saúde pública, a sobrecarga imediata da Santa Casa de Canindé e de hospitais terciários sinaliza custos futuros com reabilitação física e psicológica de feridos que sofreram amputações e fraturas graves. A comunidade religiosa, por sua vez, passa a conviver com mais desconfiança em relação à segurança das viagens organizadas para eventos de fé.
O que vem pela frente
As próximas semanas devem ser marcadas por depoimentos de sobreviventes, laudos periciais e definição de eventuais denúncias contra o motorista e responsáveis pelo veículo. A apuração da Polícia Civil pode servir de gatilho para mudanças em normas de fiscalização de ônibus de romeiros e para exigência de controles mais rígidos de jornada, descanso e manutenção de frota.
No campo político, a sucessão de acidentes graves em rodovias estaduais tende a alimentar discussões sobre investimento em infraestrutura, sinalização e políticas de segurança viária. Moradores de regiões rurais, que dependem quase exclusivamente do transporte por ônibus para deslocamentos longos, cobram respostas concretas.
Enquanto laudos não ficam prontos e responsabilidades não são definidas, famílias de Selma Maria Sousa e Maria Sandra Alves organizam velórios no Cariri sob a sombra de uma pergunta que ecoa entre romeiros e autoridades: quantas mortes ainda serão necessárias para que as estradas usadas diariamente por fiéis e trabalhadores se tornem, de fato, mais seguras?