A participação do Brasil na Copa do Mundo terminou nas oitavas de final, com a derrota por 2 a 0 para a Noruega. Os desdobramentos políticos do resultado, porém, começaram quase imediatamente. A eliminação da seleção abriu espaço para uma disputa de narrativas que ultrapassa o universo esportivo.
Horas depois da partida, Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro recorreram às redes sociais para associar o jejum de títulos mundiais aos governos do PT. A comparação, no entanto, ignora que o pentacampeonato foi conquistado em 2002, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, e que as eliminações mais recentes em Copas do Mundo — em 2018 e 2022 — ocorreram, respectivamente, durante as gestões de Michel Temer e Jair Bolsonaro.
Repercussão política
Nos bastidores da pré-campanha presidencial, interlocutores avaliam que o episódio teve também um componente político. A leitura é que a repercussão da eliminação coincidiu com a viagem de Flávio Bolsonaro a Washington, onde participa de uma audiência no Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos sobre a tarifa de 25% imposta a produtos brasileiros.
Ao mesmo tempo, outro episódio envolvendo o futebol ganhou repercussão internacional. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou ter solicitado pessoalmente ao presidente da FIFA a revisão da punição aplicada ao atacante Balogun, da seleção norte-americana, e fez críticas ao árbitro brasileiro envolvido no lance.
Posteriormente, a FIFA decidiu suspender, por um ano, a aplicação automática da sanção que impediria a participação do jogador na fase seguinte da competição.
Debate sobre influência política no esporte
A declaração do presidente norte-americano reacendeu o debate sobre os limites da atuação de autoridades políticas em temas relacionados a competições esportivas internacionais, sobretudo porque a maior parte do torneio é disputada em território norte-americano e a decisão também será realizada no país.
Embora sejam episódios distintos, eles ocorrem em um contexto político semelhante. De um lado, a Casa Branca mantém uma postura de maior assertividade em diferentes frentes internacionais, incluindo comércio exterior e temas ligados ao esporte. De outro, lideranças da oposição aproveitam a repercussão da eliminação da seleção para reforçar críticas ao governo federal e ampliar o alcance de suas mensagens nas redes sociais.
Cenário já estava em movimento
Nos bastidores, interlocutores dos dois campos políticos afirmam que nenhum desses movimentos surgiu em razão da derrota da seleção. A audiência sobre o tarifaço já estava prevista antes do início da partida, enquanto o ambiente de tensão política entre governo e oposição vinha sendo acompanhado de perto por diferentes grupos.
A eliminação do Brasil acabou funcionando como um elemento de forte repercussão pública em um cenário político que já estava em movimento.