A investigação da Polícia Federal (PF) que embasou a recente Operação Exchange e as sanções do governo dos Estados Unidos revelou um esquema de engenharia financeira internacional de proporções gigantescas. A empresa brasileira Victory Trading, controlada pelo empresário Victor Henrique de Oliveira Shimada — atualmente procurado pelas autoridades —, funcionava como um verdadeiro “banco invisível” para escoar fortunas do comércio paralelo de eletrônicos no Brasil para o continente asiático.
A estrutura funcionava como uma “casa de câmbio invisível” baseada em um esquema industrial de criptomoedas, desenhado especificamente para atender comerciantes chineses estabelecidos no país. Utilizando a modalidade conhecida como “cripto-cabo”, a rede burlava completamente a fiscalização de bancos e corretoras de câmbio oficiais, convertendo dinheiro vivo em ativos digitais que cruzavam o mundo sem deixar rastros no sistema financeiro regulado.
A rota do “Dólar China” e remessas em 10 minutos
O principal motor do esquema era o mercado apelidado no submundo financeiro de “dólar China”. Os clientes da Victory Trading eram majoritariamente lojistas do setor de eletrônicos e acessórios que vendem produtos importados, como iPhones e capas de celular, no mercado nacional.
A mecânica da operação interestadual e transfronteiriça era ágil e dividia-se em quatro etapas:
- Captação: Os lojistas entregavam vultosas somas de dinheiro em espécie (reais) para os operadores da rede no Brasil.
- Conversão: Os valores em moeda física eram inseridos no sistema e convertidos em USDT (criptomoeda pareada ao dólar americano).
- Velocidade e Destino: Por meio de bases operacionais em Hong Kong e Taiwan, as carteiras digitais no exterior eram abastecidas em cerca de 10 minutos.
- Pagamento de Fornecedores: Para garantir o fluxo ininterrupto e a liquidez das operações, um escritório em Hong Kong operava até as duas horas da manhã (fuso local), repassando os ativos diretamente para contas de fornecedores em polos industriais da China Continental, como a cidade de Hangzhou, quitando as mercadorias.
Escala industrial e deboche em mensagens interceptadas
A perícia técnica realizada pela Polícia Federal no histórico público da principal carteira digital do grupo constatou que a rede remeteu 152 milhões de USDT ao exterior em um período de apenas 198 dias — montante que ultrapassa a cifra de R$ 872,9 milhões. Desse total, os investigadores federais já comprovaram minuciosamente o desvio de R$ 120 milhões pertencentes a lojistas, rastreados a partir de 148 operações documentadas em grupos de mensagens.
As interceptações telefônicas e telemáticas obtidas pela PF flagraram conversas entre os operadores que evidenciam o ritmo frenético e a certeza da impunidade. Em uma das mensagens, Kevin Fortunato, apontado como um dos responsáveis pelo “cripto-cabo”, explica a um interlocutor identificado como “Zanatta” a dinâmica agressiva dos clientes asiáticos, afirmando que lojistas “não sabem o que é câmbio” e operam direto fechando lotes de pagamento.
Ao ser alertado por Zanatta sobre os sérios riscos legais do esquema e a possibilidade de “ir para a cadeira com os bens bloqueados”, Fortunato debochou da situação jurídica dos clientes estrangeiros: “Chinês [não] liga pra isso brother kkkkkk os caras fica 6 meses presos e volta pra China com 10m de dol em USDT. Se toca zaza kkk chinês tá ligando pra isso não”, escreveu o operador.
O avanço das investigações agora mira o rastreamento completo de outras carteiras digitais conectadas à Victory Trading e ao PCC.