EUA chamam de absurda avaliação do Itamaraty sobre ação militar

Departamento de Estado dos EUA rejeita acusações do Itamaraty sobre possível ação militar no Brasil.
Redação NC News
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O Departamento de Estado dos Estados Unidos negou, ontem, 7, qualquer intenção de realizar uma ação militar no Brasil e chama de “absurda” a avaliação do Itamaraty que vê risco de intervenção após a inclusão do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) na lista americana de organizações terroristas.

Crítica direta a alerta de Mauro Vieira

A reação pública de Washington ocorre cinco dias depois de o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, enviar à Câmara dos Deputados um documento em que aponta a possibilidade de uso de força militar dos EUA em território brasileiro. O texto da última quinta-feira, 2, respondeu a um pedido de informações do deputado Evair de Melo (Republicanos-ES) e acende um alerta sobre os efeitos da medida americana.

No mês passado, o governo dos EUA decidiu classificar PCC e CV como organizações terroristas. A decisão abre espaço para um pacote de sanções econômicas e de restrições financeiras contra suspeitos de ligação com as facções. O Itamaraty, porém, enxerga um movimento unilateral que pode afetar a soberania brasileira e escreve que a decisão poderia ser usada como justificativa para ações extraterritoriais.

Em nota, um porta-voz do Departamento de Estado reage com inusual dureza. “Esse comentário [sobre risco de uma ação militar] é um absurdo. Os Estados Unidos estão adotando medidas decisivas, com base em suas próprias prerrogativas soberanas, para combater narcoterroristas”, afirma o representante americano.

Ele reforçou que, na visão do governo Trump, o alvo são facções que teriam cruzado fronteiras e passado a atuar também em território americano. “Essas facções brasileiras agora operam nos Estados Unidos, e defenderemos nosso povo delas. Alegações vagas de intervenção costumam servir de pretexto para ajudar e favorecer alguns dos grupos mais violentos do mundo”, diz o porta-voz.

Documento sigiloso acende alerta em Brasília

O documento de Mauro Vieira à Câmara, revelado na quinta-feira, 2, contrasta com o tom adotado por Washington. O chanceler escreve que a “classificação unilateral” de PCC e CV como terroristas “poderia ser invocada como justificativa para ações extraterritoriais sobre instituições brasileiras, em particular no âmbito financeiro, migratório e penal”.

Em seguida, o ministro explicita a preocupação mais sensível para Brasília. “Há, ademais, o risco de uso da força militar dos EUA contra o território nacional”, registra no texto encaminhado ao Legislativo, em resposta ao questionamento formal de Evair de Melo.

Vieira relata ainda que o Brasil não recebe comunicação formal prévia sobre a decisão americana. Segundo o chanceler, o governo toma conhecimento do enquadramento de PCC e CV como organizações terroristas já pela declaração pública do secretário de Estado, Marco Rubio. O Itamaraty se opõe à medida e argumenta que não vê ganhos concretos no combate ao crime organizado que compensem os potenciais efeitos negativos para o país.

O desconforto se insere num quadro mais amplo de tensão. A decisão de Washington sobre as facções brasileiras surge em meio à estratégia americana de ampliar o uso da legislação antiterrorismo contra grupos ligados ao narcotráfico que operam para além de suas fronteiras. Para Brasília, porém, o uso da etiqueta de terrorismo por um país estrangeiro, sem coordenação prévia, carrega implicações políticas e jurídicas que extrapolam o esforço policial.

Sanções atingem brasileiros e empresas ligadas ao PCC

As primeiras consequências práticas aparecem rapidamente. Na semana anterior à nota do Departamento de Estado, o Tesouro americano anuncia sanções contra dois brasileiros, três empresas sediadas no Brasil e uma empresa portuguesa, todas associadas pelo governo dos EUA ao PCC.

Entram na lista Victor Henrique de Oliveira Shimada e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira, além das empresas Victory Trading Intermediação de Negócios Cobranças e Tecnologia Ltda, Pixwave Soluções de Pagamentos Ltda, Wave Construções Inteligentes Ltda e Avenidas Flutuantes Unipessoal Lda, registrada em Portugal. As medidas determinam o bloqueio de eventuais bens existentes nos Estados Unidos e impõem restrições a qualquer transação financeira que envolva essas pessoas e companhias sob jurisdição americana.

Na prática, o rótulo de organização terrorista amplia o alcance das ferramentas econômicas usadas por Washington. Bancos, plataformas de pagamento e empresas com exposição ao sistema financeiro dos EUA tendem a cortar laços para evitar riscos regulatórios. As sanções miram o caixa das facções, mas acabam produzindo efeitos colaterais sobre o ambiente de negócios brasileiro.

Empresas brasileiras incluídas em listas de sanções sofrem perda imediata de acesso ao mercado americano e podem enfrentar obstáculos em parcerias, contratos de exportação e operações de crédito, inclusive com instituições de outros países que seguem as diretrizes dos EUA. O custo reputacional também aumenta, mesmo para quem contesta a vinculação com o crime organizado.

Soberania, crime transnacional e disputa de narrativas

O episódio expõe um dilema antigo da política externa brasileira. O país precisa da cooperação internacional para enfrentar o crime organizado transnacional, mas resiste a qualquer sinal de que potências estrangeiras possam agir de forma autônoma em seu território ou sobre suas instituições.

Ao falar em risco de uso da força militar, Mauro Vieira ecoa receios de parte da diplomacia e de setores da segurança pública. A preocupação não é apenas com tropas em solo brasileiro, vista como hipótese extrema. O Itamaraty teme que a classificação de terrorismo autorize ações extraterritoriais mais discretas, mas invasivas, como investigações unilaterais sobre contas bancárias, bloqueios de ativos e medidas migratórias contra brasileiros sem coordenação com as autoridades locais.

Washington, por sua vez, tenta enquadrar o debate como questão estritamente de defesa nacional. O Departamento de Estado insiste que age “com base em suas próprias prerrogativas soberanas” e que as medidas respondem ao fato de que PCC e CV passaram a operar dentro dos EUA. O recado, ao classificar de “absurda” a leitura do Itamaraty, busca deslegitimar a preocupação brasileira e evitar que ela ganhe apoio interno e externo.

O embate discursivo ocorre num momento em que governos multiplicam o uso de sanções econômicas e financeiras como instrumento de política externa. A linha entre cooperação e imposição torna-se mais tênue, principalmente quando as decisões são tomadas de forma unilateral e cobram reações rápidas de países diretamente afetados.

Próximos movimentos na relação Brasil–EUA

Diplomatas em Brasília e Washington já trabalham com a perspectiva de um período de negociação tensa. O governo brasileiro deve pressionar por canais formais de consulta antes de novas medidas unilaterais e insistir no respeito à soberania, enquanto tenta preservar a cooperação policial e de inteligência contra as facções.

Os EUA, por outro lado, indicam que não pretendem recuar da estratégia de enquadrar PCC e CV como terroristas e podem ampliar o escopo das sanções, caso julguem necessário. A tendência é de aumento da vigilância sobre fluxos financeiros e migratórios associados às facções, dentro e fora do Brasil.

Nos próximos meses, a forma como os dois países administrarem esse atrito definirá se o episódio ficará restrito a uma troca de notas duras ou se se converterá em ponto de inflexão na parceria bilateral. O equilíbrio entre combate ao crime transnacional e respeito à soberania nacional volta ao centro da agenda, em um cenário em que decisões unilaterais ganham alcance global quase imediato.

 

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