A escassez de ácido fluossilícico, insumo essencial para a fluoretação da água, levou o setor de saneamento a pedir, suspensão da obrigatoriedade por 90 dias. O pedido é dirigido ao Ministério da Saúde e busca evitar sanções a concessionárias enquanto elas recorrem à importação.
Crise de insumo atinge sistemas de abastecimento
A falta do produto não interrompe o abastecimento público de água, mas altera um componente central da política de prevenção em saúde bucal. A fluoretação reduz cáries e beneficia principalmente populações com menor acesso a dentistas e tratamentos.
Concessionárias de saneamento em grandes centros urbanos, como Rio de Janeiro e São Paulo, relatam dificuldade crescente para comprar o ácido no mercado interno. Os estoques se esgotam, e a alternativa passa a ser a importação, mais cara e complexa.
O ácido fluossilícico é usado na etapa final do tratamento, quando se adiciona flúor controladamente à água destinada ao consumo. O produto é corrosivo, exige tanques e tubulações específicos e transporte especializado, o que aumenta o custo e o risco logístico.
Paralisação da produção e efeito da guerra
O Brasil historicamente obtém o ácido fluossilícico como subproduto da cadeia de fertilizantes fosfatados. Essa produção nacional, porém, está paralisada, sem prazo definido para retomada.
Segundo o setor, o conflito entre Estados Unidos e Irã desorganiza a cadeia global de suprimentos e torna inviável a produção local. Matérias-primas ficam mais escassas no exterior, fretes encarecem e contratos se tornam difíceis de fechar.
“A escassez do ácido fluossilícico é uma consequência imprevista da guerra entre Estados Unidos e Irã, que inviabilizou a produção nacional de fertilizantes fosfatados. O setor de saneamento não deve ser penalizado por uma situação excepcional e sobre a qual não tem controle”, afirma Carol Marques, diretora técnica e econômica da Abcon, entidade que reúne empresas privadas de saneamento.
Na prática, as concessionárias passam a depender de uma cadeia internacional fragilizada para manter a fluoretação da água. O resultado é incerteza sobre prazos, preços e capacidade de entrega, em um serviço que precisa operar todos os dias.
Pedido de trégua regulatória por 90 dias
Diante do cenário, a Abcon encaminha ao Ministério da Saúde um pedido de suspensão temporária da obrigatoriedade da fluoretação por 90 dias. O prazo, segundo a entidade, é o mínimo necessário para estruturar uma rede de importação com segurança operacional.
O objetivo é evitar que empresas sejam multadas por não cumprirem uma exigência técnica que, no momento, se torna impossível em muitos sistemas de abastecimento. A associação sustenta que a interrupção da fluoretação, se ocorrer, será forçada por fatores externos, não por desídia das concessionárias.
Carol Marques afirma que, mesmo sem o ácido, o fornecimento de água tratada continua. “Uma eventual interrupção da fluoretação não compromete a potabilidade da água, e o tratamento continuará garantindo água limpa, descontaminada e própria para o consumidor”, diz.
Até agora, o Ministério da Saúde não torna pública nenhuma decisão sobre o pleito. A ausência de posicionamento mantém o setor em um limbo regulatório, em que as empresas precisam escolher entre correr risco de sanção ou operar sem um insumo considerado obrigatório.
Impacto no dia a dia e risco de retrocesso em saúde bucal
Para quem abre a torneira em casa, o efeito imediato não é a falta de água, mas a mudança silenciosa na composição do serviço. A água segue potável, porém, sem o reforço de flúor, a proteção contra cáries pode perder eficiência ao longo dos meses.
O impacto tende a ser maior em áreas com baixo acesso a dentistas e a cremes dentais fluorados, onde o sistema de abastecimento de água residencial funciona como principal barreira contra doenças bucais. Crianças e idosos de baixa renda aparecem entre os grupos mais vulneráveis.
Em regiões como o abastecimento público de água no Rio de Janeiro e o sistema de abastecimento de água de São Paulo, a pressão é dupla. As concessionárias lidam com redes antigas, altos índices de perda de água e, agora, uma crise de insumos que encarece a operação.
Além do ácido fluossilícico, outros produtos sobem de preço, como sulfato de alumínio e policloreto de alumínio, usados na etapa de clarificação da água. Tubos de policloreto de vinila e de polietileno de alta densidade, essenciais para expansão de redes, também ficam mais caros, o que ameaça a agenda de investimentos.
Setor pressionado por custos e incerteza
O aumento dos custos coincide com um momento em que o país precisa acelerar obras de saneamento para cumprir metas legais. A falta de previsibilidade em insumos críticos pode empurrar para frente projetos de ampliação de redes e de substituição de tubulações antigas.
Em paralelo, a economia sente outros movimentos de investimento, como os R$ 377 milhões anunciados pelo BNDES para a expansão de ferrovias da Brado Logística. No saneamento, porém, não há anúncios equivalentes para blindar a cadeia de suprimentos contra choques externos.
Concessionárias alertam para o risco de reajustes tarifários em médio prazo, caso o encarecimento de produtos químicos e materiais persista. Municípios de grande porte, como os da Região Metropolitana do Rio e da Grande São Paulo, podem ter menos margem para absorver aumentos sem repassar parte ao consumidor.
A crise atual expõe a dependência de um único arranjo produtivo para um componente estratégico do tratamento de água. Mostra também como conflitos geopolíticos distantes conseguem atingir o calendário de abastecimento de água em bairros brasileiros.
O que vem pela frente
O próximo passo dependerá da resposta do Ministério da Saúde ao pedido de suspensão por 90 dias. Uma decisão favorável dará ao setor um curto período de respiro para organizar a importação e criar estoques mínimos.
Se a flexibilização não vier, concessionárias podem ser obrigadas a escolher entre descumprir a norma de fluoretação ou reduzir outros investimentos para custear soluções mais caras. Nesse cenário, a disputa tende a ir para agências reguladoras e para a Justiça.
A médio prazo, a crise recoloca em debate a necessidade de diversificação de fontes de suprimento e de estoques estratégicos de insumos essenciais ao abastecimento de água hoje. Também pressiona governo federal, estados e empresas a pensar uma política industrial que reduza a exposição a choques externos.
Sem uma solução estruturante, episódios como o atual podem se repetir com outros produtos químicos ou equipamentos, com impacto direto sobre o serviço mais básico do país: garantir água tratada para a população.