Bonnie Tyler, voz marcante de “Total Eclipse of the Heart” e “It’s a Heartache”, morreu aos 75 anos nesta última quarta-feira, mas foi divulgada pela família, hoje, 9, pela manhã, em Portugal. A família e a equipe confirmam o falecimento no Hospital de Faro, onde a cantora galesa está internada desde maio por complicações de saúde.
Internação longa após dores ignoradas
As causas da morte se ligam à mesma doença que a leva ao hospital há seis meses. O quadro começa ainda em um show em Londres, quando Bonnie sente fortes dores abdominais e passa mal no palco. Ela procura atendimento médico, mas o problema não é identificado de imediato.
De volta a Portugal, onde vive, as dores se intensificam. Em maio de 2023, a artista é levada às pressas ao Hospital de Faro. Exames apontam o rompimento do apêndice, uma emergência cirúrgica. Ela passa por uma operação de urgência para conter a infecção e as complicações internas.
O quadro, porém, se agrava. Segundo o amigo Liberto Mealha, Bonnie sofre uma parada cardiorrespiratória e precisa ser colocada em coma induzido. A medida tenta proteger órgãos vitais enquanto a equipe médica controla a inflamação e as infecções decorrentes do apêndice rompido.
Em meados de junho, pouco depois do aniversário de 75 anos, os médicos retiram a cantora do coma. A melhora parcial alimenta a esperança de recuperação. A família mantém a discrição sobre o estado de saúde, enquanto fãs se mobilizam nas redes sociais. A internação, no entanto, se prolonga até novembro, quando as complicações finalmente se tornam irreversíveis.
Da voz rouca à consagração mundial
Nascida Gaynor Hopkins em Skewen, no País de Gales, Bonnie Tyler constrói uma carreira que atravessa cinco décadas. A voz rouca, que se torna sua marca registrada, é consequência de uma cirurgia nas cordas vocais nos anos 1970. O que poderia encerrar a trajetória de uma cantora passa a ser o diferencial que a projeta no rádio.
Ela ganha projeção internacional com “It’s a Heartache”, balada melancólica que estoura nas rádios e abre caminho para o mercado americano. A década de 1980 consolida seu lugar na cultura pop. Em 1983, ela lança “Total Eclipse of the Heart”, composta e produzida por Jim Steinman. A canção, com arranjo grandioso e interpretação dramática, ocupa o topo das paradas e se torna um hino romântico daquela geração.
O videoclipe, de estética teatral e clima quase operístico, fixa a imagem de Bonnie Tyler no imaginário dos anos 1980. A artista emenda outros sucessos, como “Bitterblue”, “More Than a Lover” e “Lost in France”. Em 1984, “Holding Out for a Hero” entra na trilha sonora de filmes e séries e, décadas depois, volta a ganhar força com o público jovem ao integrar o filme “Shrek 2”.
A morte de Bonnie encerra, de forma definitiva, a trajetória em tempo real de uma das vozes mais reconhecíveis do pop e do rock radiofônico. O catálogo, porém, tende a ganhar novo fôlego. Gravadoras e plataformas de streaming costumam registrar saltos expressivos na audiência após perdas desse porte, impulsionando reedições, box sets e versões remasterizadas.
Laços com o Brasil e memória afetiva
No Brasil, Bonnie Tyler constrói uma relação que vai além das paradas de sucesso. Em 1986, ela grava com Fábio Jr. a música bilíngue “Sem Limites pra Sonhar”, que se torna um fenômeno nas rádios e em trilhas românticas da televisão. A parceria marca a juventude de uma geração e associa definitivamente sua voz à memória afetiva do público brasileiro.
Em entrevista ao Estadão em 2022, durante turnê que celebra 50 anos de carreira, Bonnie relembra com humor e carinho o encontro com o cantor brasileiro. “Me lembro de ele [Fábio Jr.] ser um homem muito bonito que me deu um anel lindo de ouro com pedras cravejadas. Ele era absolutamente lindo. Não consigo me lembrar da música agora, mas éramos número 1 no Brasil. Isso foi muito empolgante”, conta.
Na mesma entrevista, ela aponta Chaka Khan, Tina Turner, Pink, Janis Joplin e Miley Cyrus como suas cinco maiores influências femininas. A lista revela a linhagem em que se insere: cantoras de presença forte, vozes potentes e performance intensa, referências diretas para artistas que crescem ouvindo Bonnie Tyler nas rádios e, mais tarde, nas playlists digitais.
A notícia da morte rapidamente mobiliza fãs no Brasil, no Reino Unido e em Portugal, país que ela escolhe para viver. Redes sociais se enchem de trechos de “It’s a Heartache” e “Total Eclipse of the Heart”, capas de discos e fotos de shows. O setor de eventos já começa a discutir tributos presenciais e sessões especiais em casas de espetáculo, enquanto a imprensa musical prepara retrospectivas e documentários.
Legado, lacunas e próximas homenagens
A ausência de Bonnie Tyler abre um vazio no circuito de turnês de nostalgia, que lota arenas com nomes que dominaram as rádios nos anos 1970 e 1980. Produtores perdem uma artista que ainda circula com frequência em festivais retrô, e músicos deixam de ter uma parceira de estúdio e de palco com experiência rara.
O legado artístico, porém, deve se fortalecer. A morte tende a acionar novas leituras sobre sua obra em contextos acadêmicos e culturais, de estudos sobre a estética dos videoclipes oitentistas a pesquisas sobre a voz feminina no rock. Colecionadores disputam edições raras em vinil, enquanto plataformas de streaming organizam listas e destaques especiais.
O caso também reacende o debate sobre a gravidade de quadros abdominais agudos. O apêndice rompido que leva à internação de Bonnie Tyler expõe o risco de atrasos no diagnóstico e na intervenção cirúrgica. Especialistas já alertam, em outras situações, que dores intensas e persistentes exigem avaliação rápida para evitar complicações como infecções generalizadas e paradas cardiorrespiratórias.
Nos próximos meses, são esperados lançamentos póstumos, coletâneas e possíveis documentários que revisitam sua trajetória, da pequena Skewen às grandes arenas. O catálogo de Bonnie Tyler segue disponível, pronto para ser redescoberto por quem a conhece apenas como trilha de filmes ou novelas. A pergunta que permanece é como as novas gerações vão incorporar essa voz rouca e teatral em seu próprio repertório afetivo — e por quanto tempo seus refrões continuarão a ecoar em karaokês, playlists e pistas de dança.