De volta a Salvador depois de uma surf trip em El Salvador com o filho mais velho, Marcelo, 16, o nutricionista Daniel Cady, 41, admite um medo novo: não saber quando terá outra chance de viajar sozinho com o adolescente. A reflexão ganha corpo na entrevista publicada nesta quinta-feira, 9 , um dia após o retorno ao Brasil.
Um rito de passagem em El Salvador
A viagem à América Central repete um roteiro que os dois fizeram há três anos, na Costa Rica. Na época, Marcelo ainda era chamado de Marcelinho e vivia uma rotina mais colada à dos pais, Daniel e a cantora Ivete Sangalo, 53, de quem o nutricionista é ex-marido.
Agora, o cenário muda. O jovem tem namorada, vida social intensa e interesses próprios. No avião de volta, o pai percebe que a dinâmica não é mais a mesma. “A gente acha que vai ter muito tempo para viajar com os filhos, que eles vão estar sempre disponíveis para a gente, mas percebi nesta viagem agora que, pelo menos o meu mais velho, Marcelão, que não é mais Marcelinho, já está com asas grandes”, diz.
Ele conta que a sensação é de que aquela surf trip pode ter sido uma espécie de rito de passagem. “Provavelmente vai ser difícil fazer outra viagem só filho e pai, como está, que a gente está disponível um para o outro”, afirma.
A disputa com a namorada e a vida nova do filho
Daniel não fala de conflitos abertos, mas admite a disputa silenciosa por espaço no tempo do adolescente. “Agora a gente compete com namorada, e com outras descobertas da vida e do início da vida madura, de quase 18 anos. Bateu aquele sentimento: ‘Será que vou ter outra oportunidade de viajar com ele?’”, relata.
O nutricionista descreve o prazer de dividir o mar com o filho, pranchas lado a lado, repetindo movimentos treinados ao longo de anos. Ao mesmo tempo, reconhece que agora precisa negociar cada dia de convivência exclusiva. “Foi fantástico estar com ele no mar e surfando, fazendo o que a gente gosta”, diz.
No relato, o pai não esconde a mistura de orgulho e perda. Vê o filho ganhar autonomia, construir relacionamentos e fazer planos próprios. Percebe também que a agenda de um adolescente de 16 anos, em 2026, pouco se parece com aquela que ele próprio teve na mesma idade.
O alerta aos pais e a infância que encolhe
Ao compartilhar a experiência, Daniel transforma a memória íntima em alerta público. “Vamos aproveitar nossos filhos enquanto a gente tem tempo e enquanto eles estão disponíveis para a gente, porque depois é namorada, amigo, o mundo e a vida… Passa muito rápido”, afirma.
O desabafo ecoa em famílias que atravessam a mesma fase. A adolescência amplia o círculo de afetos e desloca naturalmente os pais do centro da vida dos filhos. Viagens longas, como uma surf trip para outro país, se tornam mais raras. Entram no lugar encontros curtos, combinados em meio a festas, estudos, trabalho e namoros.
Especialistas em saúde mental familiar apontam esse movimento como parte do desenvolvimento saudável dos jovens. O desafio, para pais e mães, é adaptar a forma de se relacionar. No caso de Daniel, isso significa aceitar que talvez não haja outra viagem de vários dias só com Marcelo, mas que pode haver fins de semana de surf em praias próximas de Salvador ou conversas rápidas entre uma saída e outra.
Família em transformação e novos formatos de afeto
Daniel e Ivete são pais também das gêmeas Helena e Marina, que completam 8 anos em fevereiro de 2026. Enquanto o mais velho testa as asas, as meninas ainda vivem a fase das dependências diárias: escola, tarefas, brincadeiras e a presença muito próxima dos pais.
Dentro de casa, convivem, portanto, duas infâncias em estágios distintos. Uma quase se encerra, outra ainda pede colo. A fala de Daniel expõe essa sobreposição de tempos: ele se prepara para perder a exclusividade com o primogênito ao mesmo tempo em que ainda precisa lidar com as demandas das caçulas.
A repercussão da entrevista também revela um interesse crescente por relatos francos de paternidade. Ao admitir que se sente em competição com a namorada do filho, o nutricionista verbaliza uma tensão pouco confessada por muitos homens. A transparência abre espaço para que outros pais falem sobre ciúmes, inseguranças e culpa diante da autonomia dos filhos.
O episódio chega em um momento em que experiências compartilhadas, como viagens, viram produto de mercado. Agências de turismo oferecem pacotes voltados a pais e filhos, e profissionais de saúde mental reforçam a importância de rituais de passagem bem marcados para fortalecer laços. Histórias como a de Daniel ajudam a dar rosto a essas estatísticas.
O que vem depois da surf trip
De volta a Salvador desde a madrugada de 8 de julho, Daniel retoma a rotina dividida entre o consultório, a exposição nas redes sociais e a vida de pai de três. O impacto imediato da viagem é íntimo, mas o relato público tende a alimentar debates sobre parentalidade e adolescência.
A tendência, nos próximos meses, é que essa conversa avance para além da curiosidade sobre a vida do ex-casal famoso. Fica em evidência a pergunta que acompanha muitos lares: como manter vínculos fortes com filhos que ganham o mundo cada vez mais cedo?
Na prática, a resposta passa por ajustar expectativas. Em vez de repetir a surf trip da Costa Rica ou de El Salvador, Daniel talvez precise criar outros tipos de encontro com Marcelo, mais curtos, mais negociados, mas ainda significativos. Se a infância encolhe, a relação entre pai e filho pode ganhar novos formatos.
Por enquanto, a lembrança dos dias de onda na América Central funciona como lembrete de urgência: o tempo compartilhado não é infinito, e cada viagem pode, sim, ser a última daquele jeito.