Um novo rótulo nasce nas redes sociais brasileiras: o “neysexual”. Homens heterossexuais, em 2024, assumem em memes e piadas uma atração simbólica por Neymar.
O movimento diverte, rende engajamento e viraliza. Ao mesmo tempo, abre uma janela para discutir masculinidade, desejo, afeto e a influência de ídolos midiáticos no comportamento cotidiano.
Humor, desejo e um ídolo onipresente
O termo “neysexual” surge de brincadeiras em que homens se declaram, com ironia, “apaixonados” pelo camisa 10. Os posts usam insinuações e linguagem com conotação sexual para falar de fascínio e encantamento. Na superfície, é zoeira. No fundo, expõe mudanças na forma como homens se permitem falar de admiração.
Nas timelines, o roteiro se repete. Usuários comentam lances do jogador, fotos em festas ou polêmicas da vida pessoal e, em seguida, adicionam frases em tom de flerte exagerado. O exagero funciona como escudo: protege quem publica de qualquer leitura de desejo “real” e mantém tudo no território seguro da piada.
A figura de Neymar ocupa um lugar privilegiado nesse cenário. Ele não é apenas um craque de futebol. É um personagem constante em transmissões esportivas, programas de entretenimento, publicidade e fofocas de celebridades. Sua vida, com mansões, festas e romances, é acompanhada como um seriado aberto, 24 horas por dia.
O que diz o cérebro sobre o ‘neysexual’
Para a neurocientista e analista emocional Telma Abrahão, o fenômeno não cabe em rótulos simples de orientação sexual. “A atração humana é muito mais complexa do que apenas orientação sexual”, afirma.
Segundo Telma, o cérebro cria uma sensação de familiaridade com figuras de grande relevância social e alta exposição midiática. Na neurociência, esse processo é conhecido como “efeito da mera exposição”: quanto mais uma pessoa aparece, maior a chance de ser percebida como próxima e relevante, mesmo sem contato direto.
Ídolos como Neymar, vistos diariamente em jogos, entrevistas, comerciais e redes sociais, ativam sistemas ligados à atenção e à recompensa no cérebro. A presença constante gera um tipo de intimidade imaginária. Neymar passa a ser, ao mesmo tempo, um desconhecido e alguém “de casa”.
Nesse contexto, explica a especialista, a admiração se mistura com identificação. Neymar reúne atributos socialmente valorizados: talento, dinheiro, status, acesso a festas e relacionamentos desejados. “Muitas pessoas projetam nele desejos e aspirações”, diz Telma. Quando esse pacote é colocado na arena digital, o resultado costuma ser humor.
“Na internet, essa admiração frequentemente é traduzida em memes e brincadeiras”, afirma. A conotação sexual, para ela, entra como uma espécie de “erotização simbólica”, um exagero calculado usado para rir, se aproximar e, ao mesmo tempo, manter distância.
Masculinidade sob o filtro do meme
Apesar do tom leve, o “neysexual” toca em um ponto delicado: como homens lidam com afeto e vulnerabilidade. A sociedade ainda cobra que eles sejam duros, autossuficientes, pouco emotivos. Entre amigos, elogios e declarações de admiração costumam vir embalados em piadas, deboche ou bravata.
Telma vê aí um risco. “Quando tudo vira meme, existe o risco de transformar formas legítimas de admiração em caricaturas”, analisa. Em vez de abrir espaço para emoções mais honestas, o humor pode virar uma armadura permanente.
Na prática, a regra implícita permanece: é permitido dizer que Neymar é incrível, desde que a frase venha temperada com ironia e sexualização farsesca. O recurso protege a masculinidade de quem fala, mas restringe a possibilidade de um elogio simples, direto, sem subtexto defensivo.
“Esse fenômeno fala menos sobre o Neymar em si e mais sobre a forma como os homens vêm encontrando novas maneiras de expressar admiração, identificação e afeto”, afirma Telma. O rótulo “neysexual” dá nome a algo que já existia: a tentativa de driblar normas rígidas de gênero usando o humor como escapatória.
Cultura digital, marketing e identidade
A viralização do “neysexual” interessa também a quem trabalha com redes sociais, marketing digital e cultura pop. O caso reforça o poder dos ídolos midiáticos na construção de identidade e pertencimento, sobretudo entre jovens.
Marcas, influenciadores e clubes esportivos observam esse movimento com atenção. A figura de Neymar, já explorada em campanhas tradicionais, ganha agora uma camada emocional diferente, mais afetiva, embora mascarada pelo deboche. Estratégias de engajamento tendem a incorporar esse tipo de linguagem, que mistura desejo simbólico, ironia e identificação.
As reações ao fenômeno são variadas. Há quem veja no “neysexual” um avanço: homens finalmente reconhecendo, mesmo em tom de piada, que podem achar outro homem bonito, talentoso, encantador. Outros enxergam um limite claro: se tudo precisa ser mediado pelo meme, talvez a mudança seja menor do que parece.
Telma chama atenção para esse equilíbrio frágil. Para ela, a cultura digital remodela a forma de expressar emoções, mas também simplifica comportamentos complexos em narrativas fáceis de compartilhar. O risco é que nuances importantes da experiência masculina se percam entre trends efêmeras e frases prontas.
O que pode vir depois do meme
O futuro do “neysexual” é incerto, como todo fenômeno de internet. A tendência pode sumir em semanas ou se consolidar como referência pop recorrente. O impacto mais duradouro, porém, deve aparecer em outro lugar: nas conversas sobre masculinidade e saúde emocional.
Especialistas projetam um aumento de estudos e debates sobre como homens usam o humor para falar de desejo, admiração e vulnerabilidade. Pesquisas devem explorar se rótulos como “neysexual” ajudam a flexibilizar padrões de gênero ou apenas reforçam a ideia de que afeto entre homens precisa estar sempre disfarçado.
Enquanto isso, o feed segue rolando. Entre um gol e uma polêmica, Neymar continua a encarnar o papel de espelho exagerado de um país obcecado por sucesso, espetáculo e, agora, pela chance de rir de si mesmo enquanto testa novas formas de sentir.