PT reforça aposta em Alckmin no interior de São Paulo

PT muda estratégia e aposta em Alckmin para recuperar apoio no interior paulista após pesquisa desfavorável.
Redação NC News
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O PT entregou a Geraldo Alckmin, ontem, 9, a missão de reanimar as campanhas de Fernando Haddad e Luiz Inácio Lula da Silva no interior de São Paulo. A decisão vem logo após pesquisa Datafolha mostrar desempenho fraco dos petistas na região e risco de a disputa estadual não chegar ao segundo turno.

Datafolha acende sinal vermelho no PT

A cúpula petista lê os números como um alerta imediato. Lula aparece com força na região metropolitana da capital, onde lidera com 48% das intenções de voto, mas perde fôlego no interior, onde marca apenas 38%, segundo o Datafolha. O contraste expõe a dificuldade histórica do partido em territórios mais conservadores e amplia a preocupação com o palanque estadual.

Haddad, que tenta chegar ao Palácio dos Bandeirantes, patina justamente nesse eleitorado. A leitura interna é que, mantido o cenário atual, a eleição paulista corre o risco real de não ir ao segundo turno. Esse desfecho seria um revés duplo: enfraqueceria o projeto pessoal de Haddad e criaria um vazio estratégico para a campanha de Lula em seu maior colégio eleitoral.

Dirigentes reconhecem que, sem uma presença competitiva na disputa estadual, a agenda presidencial perde capilaridade no estado. Prefeitos, vereadores e lideranças locais tendem a se alinhar com quem enxergam como favorito, empurrando o PT para uma posição defensiva em boa parte do mapa paulista.

Alckmin vira trunfo contra resistência conservadora

Nesse contexto, Geraldo Alckmin reaparece como peça central. Ex-governador por quatro mandatos e hoje vice-presidente, ele volta ao papel de fiador junto ao interior paulista, terreno em que constrói capital político ao longo de décadas. No diagnóstico petista, sua trajetória ainda fala mais alto que o antipetismo arraigado em muitas cidades de médio e pequeno porte.

O partido quer o vice em campo, com agenda intensa de visitas, reuniões reservadas e conversas diretas com prefeitos de diferentes siglas. “O PT aposta em Geraldo Alckmin para fortalecer as campanhas de Fernando Haddad e Lula no interior de São Paulo”, registra análise publicada por O GLOBO. A frase resume a guinada tática: usar o perfil moderado do vice para romper a barreira ideológica e reabrir canais onde Lula e Haddad encontram resistência.

Aliados lembram que, por anos, Alckmin se apresenta como um quadro identificado com o centro-direita, ligado à defesa da responsabilidade fiscal e de um discurso de gestão. Essa biografia ajuda a reduzir o ruído em cidades governadas por siglas historicamente adversárias do PT. As dúvidas sobre se Geraldo Alckmin é de direita ou esquerda hoje perdem importância prática na percepção de prefeitos que o enxergam como interlocutor direto em Brasília.

No entorno petista, auxiliares exploram também o capital simbólico acumulado pelo vice. A carreira de médico e professor, a imagem de administrador austero e o fato de ter construído a vida política em Pindamonhangaba e no Vale do Paraíba são apresentados a prefeitos como sinais de afinidade com o interior. A figura do “Alckmin jovem” que percorre o estado desde os anos 1980 ajuda a compor a narrativa de continuidade e proximidade.

Vácuo deixado por Kassab muda correlação de forças

Outro ponto decisivo é a mudança no campo adversário. Líderes de campanha veem na saída de Gilberto Kassab da articulação política de Tarcísio de Freitas uma janela rara. Kassab, especialista em conversa de bastidor e articulação municipalista, deixa o entorno do governador para assumir a vaga de vice na chapa presidencial de Ronaldo Caiado, ambos do PSD.

No vácuo, o PT enxerga espaço para Alckmin. “A saída de Gilberto Kassab da articulação política de Tarcísio é vista como uma oportunidade para Alckmin, que tem boa relação com prefeitos”, registra O GLOBO. O raciocínio é direto: se o principal operador de Tarcísio junto às prefeituras se afasta, ganha relevo quem tem trânsito consolidado nesse ambiente.

A movimentação acontece em um momento em que Tarcísio ainda lidera as pesquisas para o governo paulista e tenta manter a vantagem sobre Haddad com o apoio de figuras como Flavio Bolsonaro. No interior, onde o bolsonarismo segue forte, a entrada mais ostensiva de Alckmin promete disputar influência em câmaras municipais e associações de prefeitos que, até aqui, orbitam o governo estadual.

Quadros petistas calculam que cada ponto recuperado no interior tem efeito duplo: aumenta a competitividade de Haddad e reduz a distância de Lula para Flavio Bolsonaro. A expectativa é que uma rede de prefeitos gratos pela interlocução com o vice-presidente ajude a organizar eventos, puxar lideranças locais e blindar o palanque petista em cidades onde a rejeição ainda é alta.

Impacto eleitoral e próximos movimentos

A nova aposta reorganiza o tabuleiro em São Paulo e extrapola as fronteiras do estado. Se Alckmin conseguir reverter parte da desvantagem no interior, o PT acredita que Haddad chega vivo ao segundo turno, o que garantiria um palanque robusto para Lula em outubro. Nesse cenário, o estado voltaria a ser vitrine nacional da aliança entre um ex-sindicalista nordestino e um ex-governador paulista, hoje filiado ao PSB.

Dentro da campanha, auxiliares já falam em um roteiro de viagens quinzenais de Alckmin ao interior, intercaladas com agendas em Brasília. A ideia é combinar anúncios de programas federais com encontros restritos, em que prefeitos se sintam ouvidos e contem com portas abertas em ministérios, inclusive na área econômica da qual o vice participa como articulador.

O PT também testa um discurso que resgata a imagem de Geraldo Alckmin hoje como homem de Estado, mais do que de partido, para dialogar com eleitores que votaram nele no passado e migraram para o bolsonarismo. Perguntas sobre em que o vice é formado, quantos filhos tem ou a que partido pertence neste momento reaparecem nas buscas, sinal de curiosidade renovada sobre sua trajetória.

Se a ofensiva funcionar, o interior paulista volta ao radar petista não como território hostil, mas como campo de disputa real. Caso contrário, o partido encara um cenário em que perde gás no maior colégio eleitoral do país e entra fragilizado na reta final da campanha presidencial. A performance de Alckmin nas próximas semanas, mais do que uma aposta tática, tende a definir o alcance nacional da estratégia de Lula em 2026.

 

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