Rogério Marinho, senador do PL-RN e coordenador da pré-campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, enfrenta nas últimas semanas um desgaste crescente dentro do próprio partido. Aliados do núcleo bolsonarista e influenciadores próximos à família Bolsonaro questionam a concentração de decisões nas mãos do potiguar e cobram mudanças na comunicação e na articulação política.
Viagem aos EUA vira estopim da insatisfação
A tensão ganhou corpo depois da recente viagem de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos, onde o senador do PL-RJ discursou contra a possibilidade de um tarifaço sobre produtos brasileiros. A agenda, tratada internamente como oportunidade para reposicionar o pré-candidato no cenário internacional, acabou vista por críticos como um exemplo de falha de comunicação.
Paulo Figueiredo, influenciador ligado ao bolsonarismo, acusou a equipe de desperdiçar a viagem por não organizar entrevistas, divulgar imagens nem promover coletivas de imprensa. Para esse grupo, a ausência de exposição de Flávio Bolsonaro em um momento de alta temperatura política representa sintoma de um comando fechado demais e pouco permeável a sugestões externas.
Nos bastidores, dirigentes do PL relataram incômodo com o que classificaram como influência quase exclusiva de Marinho sobre a estrutura da pré-campanha. A avaliação é que decisões estratégicas, da agenda pública ao discurso setorial, passam por um filtro restrito, o que limita a entrada de novas vozes do bolsonarismo e acirra disputas internas por espaço.
Aliados de Eduardo Bolsonaro alimentam desgaste
Integrantes do PL e aliados do deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro, do PL-SP, são apontados como articuladores de um movimento de desgaste contra Rogério Marinho. Essa pressão se manifesta sobretudo nas redes sociais, com críticas diretas à coordenação e apelos por uma espécie de “refundação” da campanha.
Publicamente, essas figuras negam qualquer ação organizada para enfraquecer o senador do Rio Grande do Norte. Interlocutores da pré-campanha, porém, afirmam sob reserva que parte das manifestações parte de quadros que ficaram de fora do núcleo decisório e tentam reocupar espaço à medida que a disputa presidencial se aproxima.
O ex-secretário de Comunicação da Presidência Fábio Wajngarten sintetiza o descontentamento em um post que repercute fortemente no campo bolsonarista. Ele afirma que “a campanha de Flávio não existe” e, em seguida, defende uma reestruturação profunda, com troca de nomes na coordenação e na comunicação.
Wajngarten sugere, por exemplo, Marcello Lopes, o “Marcelão”, para a coordenação-geral, além de Duda Lima, Walter Longo e Antônio Costa Neto para áreas de comunicação e estratégia. A proposta mira um modelo de campanha com mais peso político, maior profissionalização da narrativa e integração de diferentes segmentos da direita.
Comunicação na mira e setores à margem
As críticas não se restringem a nomes. Wajngarten cobra que setores como agronegócio, evangélicos, católicos, segurança pública, saúde, educação e varejo tenham participação efetiva nas decisões da campanha. A leitura desse grupo é que esses públicos sustentam a base eleitoral de Jair e de Flávio Bolsonaro, mas aparecem pouco na estratégia atual.
Nessa visão, a centralização sob Rogério Marinho inibe a construção de frentes temáticas mais robustas e impede que lideranças regionais e setoriais se sintam representadas. A ausência de um roteiro claro para dialogar com empresários do agro, pastores influentes e entidades de classe é apontada como um risco à recuperação de Flávio nas pesquisas de intenção de voto.
As queixas alcançam também os estrategistas Eduardo Fischer e Alexandre Oltramari, responsáveis pelo desenho da campanha. Críticos dizem que a mensagem de Flávio Bolsonaro ainda não encontra um tom próprio, distante da sombra do ex-presidente e pouco competitiva diante de adversários que já testam narrativas nas redes e em eventos pelo país.
Fontes próximas à coordenação contestam essa leitura e afirmam que a dupla vem entregando resultados, citando a recuperação de Flávio em levantamentos recentes. Argumentam que a estratégia é gradual, com foco em consolidar imagem e rejeição antes de avançar para movimentos mais arriscados, como confrontos diretos com rivais.
PL fecha fileiras em torno de Marinho
Apesar do barulho, a cúpula do PL sai em defesa de Rogério Marinho. Sóstenes Cavalcante, líder do partido na Câmara, diz que “não é fácil a missão dele. As críticas são injustas”. Carlos Portinho, líder do PL no Senado, classifica o colega como “uma das pessoas mais razoáveis e inteligentes” da legenda.
O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, busca reduzir a temperatura e adota discurso de conciliação. “Precisamos fazer o nosso pessoal se entender melhor para poder ganhar a eleição”, afirma, em uma sinalização de que, por ora, não pretende patrocinar mudanças bruscas na coordenação.
Interlocutores da campanha reforçam que as trocas sugeridas por Wajngarten não estão em discussão. Lembram que Marcelão deixa formalmente a equipe após o desgaste em torno do financiamento do filme “Dark Horse” e, embora siga próximo de Flávio, não deve retornar ao núcleo oficial. Duda Lima teria recusado convite, enquanto Walter Longo e Antônio Costa Neto já haviam se afastado antes.
Marinho, filiado ao PL e com trajetória que passa por alianças no Rio Grande do Norte e na Esplanada, volta ao centro do noticiário político, depois de anos ligado a pautas econômicas e à agenda de reformas. A busca por “Rogério Marinho hoje”, “Rogério Marinho acusado” ou mesmo “Rogério Marinho é de qual partido” reflete, nas redes, o interesse renovado sobre o papel do senador no tabuleiro da direita.
Risco de fissuras em ano decisivo
A disputa em torno da pré-campanha de Flávio Bolsonaro revela mais que um embate de egos. A centralização de decisões em Rogério Marinho afeta a coesão do PL em um momento em que o partido tenta se afirmar como principal polo de oposição nacional.
Caso o desgaste avance, dirigentes temem um cenário em que aliados de Eduardo Bolsonaro e figuras influentes do bolsonarismo passem a atuar de forma autônoma, com agendas paralelas e mensagens desencontradas. Esse quadro dificultaria a construção de alianças regionais, reduziria o tempo útil de campanha e ampliaria a vantagem de rivais que hoje contam com estruturas mais organizadas.
Por outro lado, recuar agora e desmontar a coordenação comandada por Marinho poderia transmitir imagem de improviso e fragilidade, a poucos meses da largada oficial. A direção do PL aposta, por enquanto, em um meio-termo: manter a chefia da pré-campanha, abrir mais canais de participação e tentar acomodar as diferentes correntes do bolsonarismo.
Os próximos movimentos indicarão se o partido consegue transformar o fogo amigo em rearranjo controlado ou se a disputa por espaço implode a tentativa de projetar Flávio Bolsonaro como nome competitivo no cenário presidencial. O teste decisivo será nas ruas, nas pesquisas e, sobretudo, na capacidade de o PL falar a uma só voz quando a campanha começar para valer.