Movimentos no Ceará revelam a tentativa da direita de ampliar presença em um dos principais redutos eleitorais do PT, enquanto o governo Lula busca reforçar alianças para preservar sua base na região.
Bahia acende sinal de alerta no PT
Bahia e Ceará concentram hoje a atenção dos estrategistas eleitorais no Nordeste, ainda que por motivos distintos.
Na Bahia, o desgaste do PT já preocupa a cúpula do partido, com o avanço de investigações ligadas ao caso Banco Master atingindo nomes históricos da legenda no estado. Apurei junto a fontes que o tema já chegou ao Planalto, com alertas internos sobre o risco de contaminação eleitoral da sigla na reta final da campanha.
Ceará vira laboratório da nova direita
É no Ceará, no entanto, que está o experimento mais ousado da nova direita brasileira. O PL fechou aliança com Ciro Gomes, hoje no PSDB, para tentar isolar o PT e derrotar o governador Elmano de Freitas já na largada da disputa.
A cúpula estadual do partido abriu mão de lançar candidato próprio, e o entendimento foi construído com o aval da direção nacional da legenda.
Racha entre aliados de Bolsonaro
Essa aproximação, porém, custou caro nos bastidores. Ciro sempre foi um crítico duro do bolsonarismo, e a guinada abriu uma crise que chegou à própria família Bolsonaro.
De um lado, Michelle Bolsonaro defende uma candidatura de direita sem concessões no Ceará e aposta no senador Eduardo Girão, do Novo. Do outro, o senador Flávio Bolsonaro valida o acordo com Ciro como o caminho mais eficaz para isolar o PT no estado.
Esse racha tem leitura nacional. Setores da direita entendem o arranjo cearense como um teste de até onde o bolsonarismo está disposto a trocar fidelidade ideológica por viabilidade eleitoral, um pragmatismo que pode se repetir em outros estados caso o experimento cearense funcione.
Lula reage para preservar reduto
Do lado do PT, a resposta veio rápida. Lula sabe que qualquer erro na região pode custar caro em outubro, e a saída de Camilo Santana do Ministério da Educação foi lida como o movimento mais relevante da reação petista.
O senador passou a integrar o núcleo de coordenação da campanha de Elmano, ao lado de Cid Gomes, e hoje concentra a articulação com prefeitos e lideranças do interior do estado, região que historicamente decide a eleição cearense.
A hipótese de substituição do próprio Elmano na cabeça de chapa chegou a circular nos bastidores petistas, mas prevalece, por ora, a leitura de que o governador segue como nome da reeleição, com Camilo consolidado como principal fiador político do projeto.
Nordeste entra na disputa aberta
O resultado é um Ceará que se transformou, ao mesmo tempo, em palco de guerra fria dentro do bolsonarismo e de forte mobilização do lulismo.
O episódio confirma que o Nordeste, tratado por anos como um bloco monolítico, chega ao ciclo eleitoral de 2026 como um território de disputa aberta, onde o pragmatismo fala mais alto do que o rótulo ideológico.