A deputada federal Adriana Accorsi (PT-GO) denuncia ter sofrido misoginia dentro do próprio partido em Goiás e reafirma que mantém a pré-candidatura à reeleição à Câmara. A presidente estadual do PT relata pressão de colegas para desistir da disputa e assumir a candidatura ao Governo de Goiás, o que ela rejeita com apoio direto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Pressão interna e recado de Lula
No encontro dedicado às mulheres, em Goiânia, Adriana resume o episódio em uma frase: “Queriam me tirar da chapa”, diz, ao falar de pré-candidatos à Câmara Federal por Goiás que tentaram empurrá-la para a disputa estadual. A manobra esbarrava em uma decisão que ela afirma estar tomada desde o início do mês.
A deputada lembra que lançou publicamente a pré-candidatura à reeleição em 2023, no mesmo local. “Eu já tinha tomado essa decisão. Lancei minha pré-candidatura aqui dia 2. Essa decisão já está definitiva, não tem retorno”, afirma.
O impasse chega à direção nacional do PT e é resolvido com a intervenção de Lula, de quem Adriana é vice-líder na Câmara. Segundo ela, o presidente é taxativo ao rechaçar qualquer tentativa de enquadramento. “Ele disse que não ia permitir ninguém violentar a minha vontade. Que a mulher tem o direito de estar onde ela quiser.”
Com o aval de Lula, o PT confirma o decano Luiz Cesar Bueno como nome para o Palácio das Esmeraldas. A insistência em manter Adriana fora da chapa à Câmara passa a ser apresentada pela deputada como exemplo de misoginia masculina na política, em contraste com o discurso de paridade repetido pelo partido.
Misoginia e paridade em choque
Ao descrever as pressões, Adriana usa a palavra misoginia para falar de práticas que, segundo ela, buscam controlar a trajetória de mulheres, mesmo em espaços que se dizem comprometidos com a igualdade de gênero. “Apesar de ainda existem homens machistas em todos os espaços — nas famílias, na polícia e em todos os partidos —, no Partido dos Trabalhadores nós temos paridade em todas as instâncias. Nós somos ouvidas. E a prova disso é que eu fui ouvida e estou aqui fazendo a minha pré-campanha”, afirma.
A denúncia expõe uma contradição incômoda. O PT se orgulha de regras de paridade e de cotas que ampliam a presença feminina nas instâncias internas, mas a tentativa de deslocar uma deputada em mandato para outra disputa, sem seu consentimento, revela limites da cultura política predominante. Na prática, a pressão funcionaria como uma forma de tutela sobre a candidatura de uma mulher já consolidada no cenário estadual.
Adriana insiste que a decisão de seguir na Câmara não é cálculo de conveniência. É uma resposta às interpretações que atribuem a escolha a um suposto medo de enfrentar uma eleição majoritária. “Eu fui candidata a prefeita. Não tenho medo de ser candidata. A minha preferência é porque acredito no trabalho que realizo como deputada federal e nos benefícios que tenho levado para Goiás. Sou uma das poucas deputadas da Câmara que atua diretamente no combate ao feminicídio e na defesa dos direitos das mulheres”, afirma.
O episódio reacende o debate sobre misoginia exemplos na política brasileira. O caso ilustra como, mesmo com regras formais de participação, mulheres podem ser pressionadas a ocupar lugares definidos por dirigentes homens, em negociações que muitas vezes ignoram sua vontade e trajetória.
Disputa em Goiás e impacto na militância feminina
Com a escolha de Luiz Cesar Bueno para o governo, Adriana avalia que o PT encerra uma das últimas indefinições estaduais antes da disputa nacional. A discussão agora se volta ao Senado, alvo de interesse de diferentes grupos internos e de partidos aliados. “Nós temos muitos nomes para o Senado e essa decisão será construída dialogando com os partidos aliados”, diz.
A forma como a crise é resolvida, com Lula chancelando a autonomia da deputada, é lida por dirigentes e militantes como recado para o partido em Goiás e para outras seções estaduais. Ao defender o direito de Adriana de permanecer na disputa que escolheu, o presidente reforça para a base uma mensagem de que a paridade precisa valer também na prática, e não apenas no estatuto.
Para a militância feminina do PT, a reação pública da deputada funciona como gesto de resistência e pode incentivar outras mulheres a contestar situações de machismo e misoginia no dia a dia partidário. No campo interno, pré-candidatos homens que apostavam em uma rearrumação da chapa perdem espaço e visibilidade.
O foco de Adriana na pauta de violência de gênero também ganha força. Ao se apresentar como uma das poucas parlamentares que atuam diretamente no combate ao feminicídio, ela conecta o ataque sofrido à sua agenda legislativa. A discussão sobre misoginia lei e misoginia é crime aparece como pano de fundo do discurso, ainda que não seja tratada em detalhes no evento. O recado central é político: mulheres que enfrentam violência e discriminação encontram pouco espaço de proteção se, dentro dos partidos, a autonomia feminina ainda é negociável.
Renovação, alianças e próxima campanha
Em meio à tensão, Adriana tenta reposicionar o debate, puxando a conversa para a necessidade de renovação política e de novas lideranças femininas. “A política precisa de renovação. O PT incentiva isso. Temos mulheres jovens, novos deputados e novas lideranças surgindo. Esse processo precisa acontecer naturalmente”, afirma.
A referência dialoga com nomes emergentes no partido em Goiás, entre eles a vereadora Aava Santiago. As duas circulam no mesmo campo político e, nos bastidores, chegam a ser vistas como potenciais rivais internas. Adriana, porém, faz questão de afastar qualquer insinuação de conflito. “Meu relacionamento com a Aava é muito bom. Somos amigas há muitos anos”, garante.
O cenário que se desenha em Goiás, com a definição de quem disputa o governo, a construção de uma candidatura ao Senado e a manutenção de Adriana na chapa federal, é decisivo para a estratégia de Lula no Estado. O eleitorado feminino, que a deputada trata como prioridade, é visto como peça-chave para ampliar o desempenho do PT no Centro-Oeste.
Nos próximos meses, Adriana deve transformar o episódio de misoginia em bandeira de campanha. A narrativa de que resistiu a uma tentativa de silenciamento interno, amparada pelo próprio presidente, tende a ser usada para mobilizar mulheres e eleitoras sensíveis a temas como combate ao feminicídio, igualdade de gênero e respeito às escolhas políticas de cada uma. A depender da repercussão, o caso pode pressionar outras siglas a discutir mecanismos concretos de enfrentamento ao machismo e da misoginia masculina na política, além de recolocar no debate nacional projetos de misoginia nova lei e iniciativas em tramitação no Senado voltadas à proteção de mulheres em espaços de poder.
O que Adriana Accorsi relatou sobre misoginia no PT de Goiás?
Ela afirmou que pré-candidatos à Câmara Federal tentaram tirá-la da chapa e pressioná-la a abandonar a reeleição para disputar o Governo de Goiás, o que classificou como misoginia.
Quais exemplos de misoginia foram denunciados por Adriana Accorsi?
O principal exemplo foi a tentativa de controlar sua trajetória, forçando-a a mudar de candidatura contra sua vontade, mesmo já tendo lançado a pré-campanha à reeleição.
A misoginia é considerada crime no Brasil?
O termo misoginia não aparece como crime autônomo no Código Penal, mas atos motivados por ódio ou desprezo às mulheres podem se enquadrar em crimes como injúria, ameaça, lesão corporal ou feminicídio, entre outros.
Existe alguma lei específica contra a misoginia aprovada recentemente?
Há projetos de lei no Congresso que tratam de misoginia, inclusive no Senado, mas o contexto do caso de Adriana não cita a aprovação de uma lei específica recente sobre o tema.
Qual a diferença entre misoginia e machismo no contexto da denúncia de Adriana Accorsi?
Machismo é a ideia de superioridade masculina que atravessa a sociedade; misoginia, no caso relatado, se manifesta como hostilidade prática e tentativa de controle direto sobre a atuação política de uma mulher.