A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) decide, em 12 de julho de 2026, deixar a equipe que prepara o plano de governo do pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O rompimento ocorre após uma onda de ataques misóginos e ameaças nas redes sociais, atribuída a aliados do próprio senador.
Crise explode em meio ao racha Michelle–Flávio
A saída de Damares se insere na crise que corrói o núcleo bolsonarista desde 24 de junho, quando Michelle Bolsonaro publica vídeos em que diz ter sido “apunhalada” e humilhada por Flávio. O embate familiar se converte em disputa política dentro do PL e acende uma guerra de bastidores na direita.
No rastro desse racha, aliados de Flávio e de Michelle se enfrentam nas redes. A partir de 1º de julho, Damares se torna alvo preferencial de ataques de bolsonaristas, mesmo sendo aliada histórica do campo conservador e ex-ministra de Jair Bolsonaro. A senadora relata ter sido “atacada diretamente pelo time da direita”.
A decisão de romper com a equipe de plano de governo ocorre num momento em que o PL tenta consolidar a pré-candidatura presidencial de Flávio para 2026. O episódio amplia a percepção de desorganização e conflito interno num grupo que depende da imagem de unidade para disputar o Palácio do Planalto.
Do convite à ruptura em menos de duas semanas
Damares havia sido convidada para cuidar da área de direitos humanos do programa de governo. A missão era sensível: traduzir pautas caras ao eleitorado conservador em propostas de políticas públicas, sem afastar setores moderados e religiosos.
O ambiente se deteriora após ataques conduzidos por perfis ligados ao bolsonarismo nas redes sociais. Em 1º de julho, o blogueiro Oswaldo Eustáquio, bolsonarista e pré-candidato a deputado federal pelo PL do Paraná, dispara ofensas contra a senadora, chamando-a de “amante de pastor” e “feminista”. O ataque cruza uma linha interna: a de lealdade entre antigos quadros do governo Jair Bolsonaro.
As agressões se multiplicam, ganham tom de misoginia e passam a atingir a família da senadora. Damares relata ameaças explícitas a uma de suas filhas, criança indígena que ela adotou, e descreve imagens enviadas por agressores que simulam violência extrema. Nas palavras da parlamentar, trata-se de uma “violência política” que foge ao debate público.
Pressionada por esse cenário, Damares comunica a aliados que deixará a equipe de programa. Em entrevistas ao Metrópoles e ao Poder360, resume sua decisão: “Já fiz o que era preciso no 1º momento. Depois a gente volta a ajudar no governo de transição”.
Silêncio de Flávio e desgaste no PL
Desde o início dos ataques, a senadora tenta medir até que ponto o entorno de Flávio está disposto a contê-los. A resposta nunca vem. Ela afirma que o pré-candidato não volta a procurá-la depois da escalada nas redes. “Ele está correndo”, diz, em referência às tentativas do senador de administrar simultaneamente a crise com Michelle e o abalo em sua própria pré-campanha.
O afastamento expõe uma fissura incômoda para o PL. Damares é um dos nomes mais conhecidos do campo conservador na pauta de costumes e direitos humanos. Ex-ministra de Jair Bolsonaro, hoje senadora pelo Distrito Federal, ela dialoga com bases evangélicas, grupos pró-vida e segmentos que veem nela uma referência moral.
Ao perdê-la na formatação do programa de governo, a campanha de Flávio abre mão de uma interlocutora experiente em temas sensíveis como infância, família e violência contra a mulher. Também sinaliza a outros aliados que o entorno do pré-candidato não consegue blindar seus próprios quadros dos ataques internos.
Direitos humanos enfraquecidos no plano
Na prática, a retirada de Damares enfraquece a área de direitos humanos da proposta presidencial de Flávio Bolsonaro. Ela levaria para a equipe experiência acumulada no Executivo e no Senado e poderia articular com conselhos, igrejas e organizações sociais que orbitam o bolsonarismo.
Sem sua presença, o grupo perde uma voz com trânsito entre setores conservadores e instituições públicas. A ausência tende a reduzir a densidade técnica do capítulo de direitos humanos do plano, num momento em que temas como violência política, misoginia e racismo voltam ao centro do debate nacional.
Para movimentos de mulheres, organizações indígenas e entidades ligadas à defesa de direitos, o caso tem efeito duplo. De um lado, uma senadora que constrói sua carreira como símbolo conservador denuncia ataques misóginos vindos da mesma base que a impulsionou. De outro, o recuo pode significar menor prioridade a essas pautas na agenda de um dos principais pré-candidatos de direita em 2026.
Violência política, misoginia e cálculo eleitoral
O episódio coloca em evidência uma engrenagem conhecida da política digital bolsonarista: o uso de ataques personalizados para pressionar ou punir aliados que parecem se desviar de expectativas de parte da militância. Desta vez, a máquina se volta contra uma figura histórica do grupo, em meio a uma disputa familiar em torno de Michelle Bolsonaro.
Michelle deixa a presidência do PL Mulher após o conflito com Flávio e abre mão de um salário de R$ 46.366,19. Seus vídeos, nos quais diz ter sido maltratada e desrespeitada, alimentam o sentimento de injustiça entre apoiadores. A hostilidade se espalha e atinge quem é percebido como próximo ao senador do PL.
O caso de Damares reaquece o debate sobre violência política de gênero e segurança de figuras públicas, especialmente mulheres. Senadoras discutem reagir institucionalmente a ataques desse tipo, mesmo sem representação formal das vítimas, diante da escalada de ameaças e intimidações.
Às vésperas da disputa presidencial de 2026, a crise interna no PL e o desgaste entre Michelle, Flávio e aliados como Damares tendem a pesar na avaliação do eleitorado. A imagem de coesão construída em torno do bolsonarismo na última década dá lugar a um cenário de facções rivais, blogueiros radicais e campanhas descoordenadas.
Damares, por sua vez, tenta manter espaço político. Anuncia que seguirá no Senado e não fecha a porta a uma eventual colaboração, caso Flávio alcance a Presidência. Prefere, por ora, preservar a própria segurança e a da família do que se manter numa equipe em guerra com a própria base.
O próximo movimento caberá ao PL e ao pré-candidato. Se o partido não conseguir conter ataques internos e oferecer garantia mínima a quadros de projeção nacional, outros nomes podem evitar se associar à campanha. A eleição de 2026, marcada pela fragmentação da direita, testará se o bolsonarismo ainda consegue disciplinar suas fileiras ou se a radicalização virtual se torna um passivo eleitoral.
O que levou Damares Alves a deixar a equipe do plano de governo de Flávio Bolsonaro?
Damares saiu após uma onda de ataques misóginos e ameaças nas redes sociais, atribuída a aliados de Flávio, que chegaram a incluir ameaças contra sua filha.
Quais ataques Damares Alves sofreu da direita que motivaram sua saída?
Ela relata xingamentos, ofensas pessoais e ameaças. O blogueiro Oswaldo Eustáquio a chamou de “amante de pastor” e “feminista”, e houve ameaças à filha indígena.
Qual era o papel de Damares Alves na equipe de Flávio Bolsonaro?
Ela havia sido convidada para elaborar a parte de direitos humanos do plano de governo, articulando propostas na área com base em sua experiência no Executivo e no Senado.
Damares Alves pretende continuar atuando na política após deixar a equipe de Flávio?
Sim. Ela segue como senadora pelo Distrito Federal e afirma que pode voltar a colaborar em uma eventual transição presidencial, mas não na fase atual do plano.
Quem é Damares Alves e qual sua relação com Flávio Bolsonaro?
Damares é ex-ministra de Jair Bolsonaro e hoje senadora pelo Distrito Federal. Integra o campo bolsonarista e foi convidada por Flávio para seu plano de governo.