Daniella Marques, aposta de Flávio, detalha ajuste fiscal

Daniella Marques propõe ajuste fiscal de 1,5% do PIB sem reduzir programas sociais e sugere responsabilidade compartilhada entre os Poderes.
Redação NC News
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Cotada para ser vice na chapa presidencial de Flávio Bolsonaro em 2026, a administradora Daniella Marques detalha, em entrevista  um plano de ajuste de 1,5% do PIB, promete preservar programas sociais e tenta se descolar do rótulo de “Paulo Guedes de saia”.

Agenda econômica e disputa por imagem

Ex-presidente da Caixa Econômica Federal e hoje coordenadora da agenda econômica de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Daniella Marques usa entrevista para se apresentar como rosto técnico de um projeto que mira o Planalto e busca reposicionar o bolsonarismo após sucessivas crises. Ela assume o legado do governo Jair Bolsonaro, mas tenta construir identidade própria.

“Não gosto de ser chamada de Paulo Guedes de saia”, afirma. “Eu sou eu, sou Dani.” A frase marca uma tentativa de se afastar da comparação direta com o ex-ministro da Economia sem romper com a base eleitoral que ainda o vê como referência liberal.

O cálculo político é claro. A campanha de Flávio procura alguém capaz de dialogar com o mercado, defender disciplina fiscal e, ao mesmo tempo, tranquilizar eleitores dependentes de políticas sociais, em um cenário de desgaste da atual gestão petista e inflação ainda sentida no dia a dia.

Ajuste de 1,5% do PIB sem cortes sociais

No centro da proposta de Daniella está um ajuste de gastos de 1,5% do PIB. Ela afirma que o esforço de contenção de despesas não recai sobre programas de transferência de renda ou benefícios voltados à população mais vulnerável. “Defendo ajuste de gastos de 1,5% do PIB sem comprometer programas sociais”, diz.

Marques sustenta que há espaço para cortar em outras frentes, citando privilégios, benefícios tributários e má gestão de ativos públicos. Segundo ela, os gastos com assistência social “não chegam a um terço da despesa com juros”, o que reforçaria a tese de que o problema central está no custo da dívida e na falta de credibilidade da política fiscal.

O argumento conversa com a estratégia de campanha: prometer responsabilidade orçamentária sem repetir o discurso de “terra arrasada” que assustou eleitores em pleitos anteriores. A mensagem mira tanto o investidor, que quer previsibilidade, quanto o beneficiário de programas sociais, que teme cortes.

Corresponsabilidade fiscal entre os Poderes

Daniella também propõe uma nova arquitetura institucional para a política fiscal. “Proponho corresponsabilidade fiscal entre os Poderes”, afirma. A ideia é criar um conselho ou instância de governança que envolva Executivo, Legislativo e Judiciário nas decisões que afetam o Orçamento.

Na avaliação dela, o modelo atual concentra o ônus do controle de gastos no Executivo, enquanto Congresso e Judiciário seguem com agendas próprias de aumento de despesas. A solução, diz, passa por “trazer os outros Poderes para o debate orçamentário” e torná-los “partícipes da solução, e não do problema”.

Em termos práticos, a proposta sinaliza mudanças na forma como o país discute reajustes salariais, criação de benefícios e expansão de estruturas administrativas. O desenho institucional ainda não está definido, mas Daniella antecipa que a futura âncora fiscal — se será um teto para o gasto ou para a dívida — também segue em discussão interna.

Estatais, ativos da União e choque de gestão

A modernização da gestão das estatais surge como outro eixo da plataforma econômica. “É fundamental modernizar a gestão das estatais”, afirma Daniella, ao listar problemas como cargos políticos, conselhos inchados e falta de gestão profissional em empresas controladas pela União.

Ela defende um “choque de ordem” sobre ativos públicos, que vão de empresas a imóveis e dívidas a receber. Critica o que chama de “guarda-chuva de empregos” e menciona a necessidade de fortalecer a independência de técnicos e criar um marco regulatório de governança antes de discutir privatizações.

A proposta mira tanto a eficiência do Estado quanto a sinalização a investidores. Ao falar em profissionalização e redução de interferência política, Daniella busca afastar o fantasma de ingerências recentes que derrubaram o valor de empresas estatais e preocuparam o mercado financeiro.

Bolsonarismo, crises internas e disputa com o PT

A entrevista também funciona como peça de gerenciamento de crise dentro do próprio campo bolsonarista. Questionada sobre o conflito entre Michelle Bolsonaro e o enteado Flávio, episódio que expôs divisões na família, Daniella tenta encerrar o assunto. “A crise entre Michelle e Flávio é página virada para o Brasil”, afirma, creditando às pesquisas a indicação de que o tema perdeu força entre os eleitores.

Ao tratar o racha como superado, ela tenta recentrar o debate na economia e na disputa com o PT, que hoje comanda o governo federal. A narrativa apresentada é a de que o país precisa ser “recuperado” da atual gestão, com ênfase em críticas a gastos públicos elevados e à condução da política fiscal.

O movimento atende a dois objetivos: consolidar a imagem de Flávio como herdeiro político viável do bolsonarismo e blindar a futura chapa de conflitos familiares que possam afastar indecisos.

Efeito na corrida de 2026 e próximos passos

As propostas de Daniella já repercutem entre economistas, políticos e investidores. Aliados do PL destacam sua passagem pela Caixa e sua formação administrativa como garantias de “competência técnica”, enquanto opositores devem explorar o vínculo direto com Jair Bolsonaro e questionar se o ajuste de 1,5% do PIB é exequível sem cortes sociais mais profundos.

A discussão deve se intensificar com a formalização da chapa e a abertura oficial da campanha. A promessa de corresponsabilidade fiscal entre os Poderes tende a encontrar resistência em um Congresso acostumado a ampliar despesas por meio de emendas e projetos corporativos, e pode gerar embates com o Judiciário em temas como salários, benefícios e orçamentos próprios.

Se Flávio Bolsonaro e Daniella Marques vencerem a eleição de 2026, o desenho dessa agenda terá impacto direto na governança das estatais, na relação entre os Poderes e na trajetória da dívida pública. Se fracassar, a proposta pode se tornar mais um capítulo da longa lista de tentativas de reforma fiscal que não saem do papel. Nos próximos meses, a forma como Daniella traduz seus conceitos em projetos concretos e acordos políticos vai ajudar a definir o peso real de seu nome na disputa presidencial.

Quem é Daniella Marques e qual sua formação?

Daniella Marques é administradora, ex-presidente da Caixa Econômica Federal e hoje coordena a agenda econômica do senador Flávio Bolsonaro. Sua trajetória combina experiência no setor financeiro e na gestão pública.

O ajuste de 1,5% do PIB mexe com programas sociais?

Segundo ela, não. Daniella afirma que o esforço de ajuste recairá sobre privilégios, gastos tributários e má gestão de ativos, preservando os programas sociais existentes.

O que significa corresponsabilidade fiscal entre os Poderes?

É a ideia de criar uma instância de governança em que Executivo, Legislativo e Judiciário dividam formalmente a responsabilidade pelas decisões que afetam o Orçamento e a trajetória da dívida.

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