A norte-americana Martha Ann Lillard morreu aos 78 anos em Shawnee, no estado de Oklahoma, encerrando um capítulo histórico da medicina respiratória nos Estados Unidos. Considerada a última pessoa no país a depender de um pulmão de aço para sobreviver, ela utilizava o equipamento desde 1953, quando contraiu poliomielite ainda na infância.
A morte de Martha marca, na prática, o fim do uso dessa tecnologia nos Estados Unidos. Símbolo das grandes epidemias de pólio do século passado, o pulmão de aço foi gradualmente substituído por aparelhos mais modernos e, hoje, enfrenta outro obstáculo: a falta de peças e de profissionais especializados para realizar a manutenção.
Como a poliomielite mudou a vida de Martha?
Martha tinha apenas 5 anos quando contraiu poliomielite, em 1953, dois anos antes da introdução da vacina contra a doença nos Estados Unidos. O vírus comprometeu sua capacidade respiratória e provocou uma paralisia parcial, tornando impossível respirar sem ajuda mecânica.
Depois de meses internada, ela passou a viver com um pulmão de aço, equipamento que a acompanhou por mais de sete décadas.
Ao longo da vida, Martha conseguiu permanecer alguns períodos fora da máquina, mas voltou a depender dela de forma mais intensa com o avanço da idade e o surgimento de novos problemas de saúde, como a síndrome pós-pólio e as complicações causadas pela Covid longa.
O que é o pulmão de aço?
Criado nas décadas de 1920 e 1930, o pulmão de aço foi uma das principais armas da medicina contra a poliomielite antes da chegada das vacinas.
O aparelho funciona como um grande cilindro metálico que envolve quase todo o corpo do paciente, deixando apenas a cabeça para fora. Por meio da variação da pressão interna, a máquina faz o tórax expandir e se contrair, permitindo a entrada e a saída do ar dos pulmões.
Durante as epidemias de pólio, milhares de crianças passaram semanas, meses ou até anos dentro desses equipamentos em hospitais ao redor do mundo.
Uma rotina construída em torno da máquina
Durante décadas, a casa de Martha precisou ser adaptada para acomodar o enorme equipamento, fabricado nos anos 1940. Dependente de energia elétrica constante, o pulmão de aço exigia atenção permanente da família, especialmente durante tempestades e tornados, comuns em Oklahoma.
Mesmo diante das limitações, Martha construiu uma rotina ativa. Ela gostava de pintar, assistir a filmes clássicos, conversar com amigos e cuidar de cães da raça beagle, uma de suas grandes paixões.
Nos últimos anos, porém, a manutenção do equipamento se tornou cada vez mais difícil. Com o desaparecimento de fabricantes e técnicos especializados, cada defeito representava um novo desafio para manter a máquina em funcionamento.
O avanço da medicina aposentou a tecnologia
Com a vacinação em massa contra a poliomielite e o desenvolvimento de ventiladores mecânicos mais modernos, o pulmão de aço deixou de ser utilizado em larga escala.
Os novos aparelhos, menores e portáteis, passaram a oferecer mais mobilidade e qualidade de vida aos pacientes com dificuldades respiratórias, transformando o antigo cilindro metálico em uma peça histórica.
A morte de Martha reforça o fim definitivo de uma tecnologia que salvou milhares de vidas e marcou uma geração inteira de pacientes.
O legado deixado por Martha
A trajetória de Martha Ann Lillard também serve como um lembrete sobre a importância da vacinação. Sua história representa uma geração que enfrentou a poliomielite antes da existência de imunizantes capazes de conter a doença.
Além disso, especialistas apontam que o caso levanta discussões sobre o futuro de pacientes que dependem de tecnologias médicas consideradas ultrapassadas, mas que continuam essenciais para algumas pessoas.
Com a morte de Martha, hospitais e museus devem intensificar os esforços para preservar a memória do pulmão de aço e das consequências deixadas pelas epidemias de pólio.
ENTENDA O CONTEXTO
Martha Ann Lillard contraiu poliomielite em 1953, antes da introdução da vacina nos Estados Unidos. A doença comprometeu sua capacidade respiratória e a obrigou a viver conectada a um pulmão de aço por mais de 70 anos.
Após a morte de Paul Alexander, em 2024, Martha passou a ser considerada a última usuária conhecida do equipamento no país. Seu falecimento encerra um dos capítulos mais emblemáticos da história da medicina respiratória e reforça a importância da vacinação no combate a doenças infecciosas.