ICL demite Leandro Demori e culpa alta de anúncios em big techs

ICL enfrenta desafios financeiros e reajustes após aumento nos custos de anúncios em grandes plataformas digitais.
Redação NC News
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O jornalista Leandro Demori deixa a direção de Jornalismo do Instituto Conhecimento Liberta (ICL) após decisão anunciada em 13 de fevereiro, por motivos financeiros. A saída ocorre em meio a prejuízos acumulados ao longo do ano e a uma estratégia de cortar cargos de maior remuneração para evitar demissões em massa.

Crise exposta em rede nacional do próprio instituto

Eduardo Moreira, fundador do ICL, escolhe o telejornal da própria casa para detalhar a crise. Em tom de balanço, ele associa a demissão de Demori a um cenário de contas no vermelho, pressionadas por mudanças nas políticas de publicidade de grandes plataformas digitais.

O empresário afirma que o instituto enfrenta dificuldades desde o início de 2026. As contas não fecham, segundo ele, porque a principal engrenagem de financiamento do projeto — a venda de cursos — depende quase inteiramente do marketing digital em plataformas da Meta e do Google. São esses anúncios que levam novos alunos às salas virtuais do ICL e, em tese, sustentam o braço jornalístico.

No ar, Moreira responsabiliza diretamente as big techs pela piora do quadro. Ele diz que as plataformas passaram a classificar campanhas do ICL como propaganda política, o que encarece a veiculação e reduz o alcance. “Ao longo desses últimos dois anos essa propaganda cresceu absurdamente e nesse ano ela explodiu de preço”, afirma.

Big techs, cor vermelha e o modelo de financiamento

O fundador do instituto descreve um ambiente hostil a veículos de perfil progressista. Segundo ele, até elementos gráficos simples, como o uso predominante da cor vermelha nas peças, passam a acionar filtros de publicidade política nos sistemas automatizados de Meta e Google. Na prática, cada matrícula conquistada custa mais caro.

Essa mudança pesa sobre um modelo de negócios já limitado por princípios editoriais rígidos. Moreira lembra que a receita dos cursos primeiro cobre a estrutura educacional, para depois irrigar as operações jornalísticas. O ICL, reitera, recusa publicidade de bancos, casas de apostas e governos, além de não monetizar vídeos em plataformas de vídeo, para preservar a independência. Quando a conta não fecha, não há outra fonte de socorro.

Ao longo de 2026, o resultado é uma sequência de meses no vermelho. Moreira fala em prejuízos acumulados e admite que a empresa chega a um ponto em que precisa mexer na folha de pagamento de forma mais drástica. “Não tinha nenhuma alternativa a não ser fazer ajustes aqui na empresa”, diz.

Demori no centro dos cortes de maior remuneração

Nesse cenário, a permanência de nomes de maior salário se torna insustentável, segundo a direção. Demori, que acumula funções e aparece como um dos rostos mais conhecidos do jornalismo progressista no país, passa a integrar o grupo de profissionais no topo da faixa de remuneração, ao lado do então CEO e de outros diretores.

Eduardo Moreira insiste, na fala pública, que a medida não é pessoal, mas contábil. Ele afirma que a estratégia é reduzir o custo de cargos mais altos para preservar a base da equipe. “A gente achou que, para preservar dezenas e talvez até mais de uma centena de pessoas, era mais importante mexer em cargos que tinham maior remuneração”, explica.

Ao citar Demori, o fundador do ICL alterna elogios e justificativas econômicas. “O Leandro, um dos jornalistas mais competentes do país, um cara a quem o país deve muito por todas as matérias que fez”, diz, antes de reforçar que a demissão se insere no pacote de ajustes provocado pela explosão dos custos de marketing.

Efeito dominó sobre o jornalismo progressista

A decisão do ICL acende um alerta em um setor que já opera no limite, o do jornalismo progressista financiado por cursos, assinaturas e doações. A reclassificação de anúncios como propaganda política, com aumento de preço e exigências adicionais, mira diretamente esse tipo de projeto, que depende da segmentação e da eficiência da publicidade digital para alcançar seu público.

O caso expõe o grau de dependência de plataformas como Meta e Google para a sustentabilidade de veículos independentes. Quando o algoritmo muda, ou a categoria de anúncio se altera, toda a cadeia se desequilibra. No ICL, o impacto chega ao ponto de forçar a saída de um diretor de jornalismo de alta visibilidade para que a empresa consiga, segundo sua direção, proteger dezenas de empregos mais modestos.

A área educacional também entra na equação. Se a captação de alunos desacelera porque anunciá-los se torna caro demais, a engrenagem que financia a produção de notícias enfraquece. A demissão de Demori, nesse contexto, simboliza a dificuldade de conciliar projetos ambiciosos de jornalismo com um modelo de negócios que recusa tanto publicidade tradicional quanto monetização em plataformas de vídeo.

Transparência, disputa de narrativa e próximos passos

O pronunciamento de Moreira em pleno telejornal funciona como tentativa de transparência em relação à crise. Ele apresenta números e premissas, assume os prejuízos e enfatiza a escolha por preservar a independência editorial, mesmo ao custo de perder quadros de prestígio.

Ao fundo, há uma disputa de versões sobre os bastidores da saída, travada em outras frentes e em outros espaços públicos, que reforça o peso político e simbólico dessa demissão. No front econômico, porém, a mensagem do fundador do ICL é direta: sem rever gastos com pessoal de maior remuneração, o instituto correria o risco de cortes mais amplos e desorganizados.

Os próximos meses devem ser de reestruturação interna e de busca por alternativas à dependência quase exclusiva de Meta e Google para divulgação dos cursos. O desafio passa por diversificar canais de captação, rever formatos de oferta e, ao mesmo tempo, manter a linha de independência editorial que o ICL usa como marca.

O episódio indica que a crise não é pontual. Outros projetos de mídia com perfis semelhantes podem enfrentar dilemas parecidos à medida que as big techs apertam regras de publicidade política e elevam custos. A sobrevivência do jornalismo progressista baseado em cursos e marketing digital dependerá da capacidade de adaptar modelos de financiamento antes que novas demissões de alto impacto se tornem rotina.

 

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