Leandro Demori anuncia que está fora do Instituto Conhecimento Liberta (ICL), três dias após ser demitido da direção de Jornalismo.
Ruptura em meio ao calendário eleitoral
O rompimento ocorre às vésperas de um período eleitoral que o jornalista classifica como decisivo para o país. A saída expõe o choque entre metas de corte de gastos e a defesa de uma estrutura robusta para a cobertura política.
No vídeo em que comunica o desligamento, Demori diz que a decisão é “unilateral da direção da empresa” e que todas as funções que exercia no ICL se encerram no dia 10 de junho. “Não vou entrar em detalhes aqui sobre os bastidores, que em algum momento virão à tona — mas o fato é esse: de um dia para o outro, deixei de fazer parte da operação”, afirma.
O embate sobre os cortes de 30%
A crise se instala após uma reunião entre o fundador do ICL, o economista Eduardo Moreira, e o Conselho Editorial. Segundo Demori, desse encontro sai a orientação para cortar 30% do orçamento da área de Jornalismo.
O então diretor da redação resiste. Ele defende que o tema seja discutido em reunião com a diretoria e os sócios e que qualquer redução de equipe ocorra apenas depois da eleição, por considerar o período “importante e desafiador editorialmente”.
As sugestões não prosperam. De acordo com o relato do jornalista, a pressão para demitir membros da equipe volta a crescer na semana que antecede 10 de junho. Ao se recusar a executar as demissões, ele é desligado no final do dia.
Na prática, a redação perde o principal nome da área de jornalismo investigativo do instituto. Demori acumulava os cargos de diretor de Jornalismo, apresentador e comentarista em programas centrais da grade.
A versão do ICL e a reorganização interna
Em mensagem interna enviada à equipe, Eduardo Moreira apresenta o episódio como parte de uma “nova etapa” do ICL. “O Instituto passa por uma nova etapa e promove uma revisão de custos em todas as áreas para adequar sua estrutura financeira à capacidade de investimento”, escreve.
Moreira afirma que o modelo de negócios do instituto depende apenas da receita de cursos, sem publicidade pública ou privada, o que, segundo ele, impõe “ajustes permanentes” na gestão de recursos. Na comunicação, diz ainda que “as mudanças concentram-se em poucas posições cuja estrutura de custos deixou de ser compatível com a realidade financeira da empresa e não representam uma avaliação da qualidade profissional dos colaboradores afetados”.
A direção sustenta que já discutia com Demori uma transição na gestão do departamento e que a intenção era concluir essa mudança antes de torná-la pública. A programação eleitoral prevista, inclusive com novos cenários, é mantida. Os programas N1 e N2 devem ganhar novos diretores escolhidos dentro da própria equipe.
O plano inclui a mudança para uma nova sede e a criação de uma incubadora de novos canais. A aposta é em uma estrutura mais leve e em formatos diversos de conteúdo, enquanto reduz a folha de pagamento em um momento de pressão financeira.
Impacto na redação e no jornalismo investigativo
A disputa interna revela uma tensão conhecida em veículos de jornalismo independente: como conciliar a promessa de independência editorial com cortes profundos em ano eleitoral. No ICL, a ordem de reduzir em 30% o orçamento da área de Jornalismo atinge diretamente repórteres, produtores e editores que atuam em coberturas de fôlego.
Demori, que ganha projeção nacional ao comandar o The Intercept Brasil durante a série de reportagens da Vaza Jato em 2019, se torna uma espécie de âncora da vertente investigativa dentro do instituto. Sua saída abre espaço para renovação, mas também acende o alerta para o risco de perda de expertise e de identidade editorial.
Entre jornalistas da casa, as mudanças geram insegurança e expectativa com as futuras direções dos programas. Para o público que acompanha o ICL, o efeito concreto tende a aparecer no formato e na profundidade das reportagens nos próximos meses, especialmente sobre o processo eleitoral.
Demori aposta em financiamento coletivo e autonomia
Ao anunciar a demissão, Demori deixa claro que pretende seguir atuando por conta própria e que não pretende se afastar da cobertura política. “Eu não posso — e não vou — ficar de fora desta eleição. Vou continuar fazendo Jornalismo independente, apurando e contando o que alguns preferem manter escondido. É o que sei fazer, e é mais necessário agora do que nunca”, afirma.
O jornalista lança uma campanha de financiamento coletivo para sustentar o trabalho. Ele argumenta que processos judiciais contra repórteres investigativos se tornam mais frequentes e caros. “Até agora, eu tinha a estrutura de uma empresa para dividir esse peso. De agora em diante, vou enfrentar isso tudo sozinho”, escreve em sua newsletter no Substack.
Demori diz ainda que reorganiza sua vida profissional e conclui um livro sobre relações de poder no Brasil, com lançamento previsto para o período da campanha eleitoral. O projeto pretende dialogar com o debate público em meio à disputa nas urnas.
Formado em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), com passagem por redações como Zero Hora, Galileu, Globonews, GNT, IstoÉ e Terra, ele volta a depender diretamente do apoio do público para manter uma estrutura de apuração robusta.
O que vem pela frente
Do lado do ICL, os próximos meses colocam à prova o discurso de que a reorganização é apenas financeira, sem interferência editorial. A escolha dos novos diretores de N1 e N2 e a implementação da incubadora de canais devem indicar o espaço real reservado ao jornalismo investigativo em uma estrutura mais enxuta.
Do lado de Demori, o sucesso da campanha de financiamento coletivo e a recepção ao livro serão determinantes para medir se há base sólida para sustentar uma atuação independente em um ambiente político polarizado e economicamente hostil ao jornalismo de fôlego.
Em um país em que redações encolhem e a pressão judicial cresce, a disputa em torno da saída do jornalista do ICL antecipa um debate que tende a se intensificar nas eleições: quem paga a conta do jornalismo, e a que preço para a autonomia editorial.
Por que Leandro Demori saiu do ICL?
Demori sai após recusar a implementação de cortes de 30% na área de Jornalismo antes do período eleitoral, divergindo da direção sobre a condução da redação.