O principal efeito das últimas semanas no tabuleiro eleitoral já não está concentrado em projetos de governo, mas em um movimento de autopreservação que passou a orientar os dois principais polos da disputa presidencial.
Pesquisas recentes mantêm o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro tecnicamente empatados em um eventual segundo turno. O cenário se repete desde o fim de junho e, até aqui, resiste ao desgaste provocado pelos escândalos que atingem ambos os campos políticos.
Desgaste alcança o núcleo do governo
Do lado governista, o estopim foi a saída de Jaques Wagner da liderança do governo no Senado, decisão tomada depois que a Polícia Federal o incluiu entre os investigados por suposta proximidade com o Banco Master, do empresário Daniel Vorcaro.
Wagner nega qualquer irregularidade e afirma que sua prioridade é provar a própria inocência. Ainda assim, o episódio já atingiu um dos nomes mais próximos de Lula justamente na reta que antecede a disputa pela reeleição.
PL também enfrenta crise interna
Na oposição, o centro da turbulência é Valdemar Costa Neto. O presidente do PL é investigado por suposto direcionamento irregular de emendas parlamentares, mesmo sem exercer mandato no Congresso, o que levou o Supremo Tribunal Federal (STF) a determinar o bloqueio de bens milionários do dirigente.
Flávio Bolsonaro saiu em defesa de Valdemar, classificando a operação como seletiva. A postura reforça a percepção de que o partido também entra em um movimento de proteção mútua entre seus principais aliados.
Debate perde espaço para a defesa de aliados
Ganha força, nesse contexto, a tese de que a campanha passa a se organizar menos em torno de quem consegue equilibrar a economia ou equacionar o tarifaço nas negociações com os Estados Unidos — tema que já rendeu críticas à ida de Flávio a uma audiência sobre tarifas em Washington — e mais em torno de quem consegue blindar aliados e preservar capital político.
Nesse cenário, os candidatos a vice tendem a assumir papel estratégico, funcionando como mediadores de um debate cada vez mais personalista entre a base petista e a base bolsonarista.
Michelle amplia distância de Flávio
No campo conservador, a crise ganhou um componente familiar. Michelle Bolsonaro rompeu publicamente com o enteado após acusá-lo de desrespeito nas tratativas sobre alianças estaduais e deixou a presidência do PL Mulher.
Nos bastidores, ela evita qualquer gesto de aproximação com a campanha presidencial do senador, embora mantenha o plano de disputar uma vaga no Senado pelo Distrito Federal. Integrantes do partido evitam prever se esse distanciamento será superado até a convenção nacional que deverá confirmar Flávio como candidato.
Polarização segue predominante
Diante da fragmentação das chamadas terceiras vias, que seguem sem conseguir se descolar dos dois principais nomes nas pesquisas, o confronto entre Lula e um representante da família Bolsonaro permanece como o cenário mais provável para outubro.
A diferença é que, nesta fase da disputa, conter os danos internos parece pesar tanto quanto a apresentação de propostas de governo.