A Cemig usou uma audiência pública na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, na segunda-feira, 13, para expor como a Reforma Tributária apertou o fomento à cultura e ao esporte no Estado. A companhia levou números, admite limites e prometeu novos caminhos para não reduzir o apoio a projetos culturais e esportivos, sobretudo fora das regiões metropolitanas.
Reforma encurta espaço para incentivos
O encontro na ALMG discutiu um ponto que preocupa produtores culturais, atletas e prefeituras: a mudança nas regras de tributos mexe diretamente com os instrumentos de incentivo fiscal. Na prática, parte dos mecanismos usados por empresas para patrocinar projetos com renúncia de imposto encolhe ou muda de formato.
O efeito se mostrou imediato em Minas. A Cemig, uma das maiores patrocinadoras de cultura e esporte no Estado, passa a operar com menos previsibilidade sobre quanto poderá direcionar via leis de incentivo nos próximos anos. Essa incerteza atinge em cheio eventos, festivais, times de base e iniciativas sociais que dependem de patrocínio para existir.
Cemig mostra números e reconhece limites
Na audiência, a gerente de comunicação da Cemig, Hanna Drummond, apresenta os dados mais recentes. Segundo ela, a empresa investe R$ 99 milhões em 114 projetos culturais e esportivos em 2026. O volume confirma o peso da estatal no ecossistema de fomento mineiro.
Os números, porém, não escondem um gargalo antigo. Hanna admite que a interiorização desses recursos continua distante do ideal. A maior parte dos projetos aprovados se concentra nos grandes centros, onde há mais produtores organizados, consultorias especializadas e estrutura técnica para captar patrocínio.
Essa concentração deixa centenas de municípios em desvantagem. Cidades médias e pequenas têm grupos culturais ativos, times amadores e iniciativas sociais, mas encontram mais barreiras para acessar os mecanismos tradicionais. A Reforma Tributária, ao redesenhar alíquotas e incentivos, tende a tornar esse acesso ainda mais complexo.
Estudos tributários e novos instrumentos
A resposta da Cemig tenta combinar adaptação jurídica e política de patrocínio. Hanna Drummond afirma que a companhia aprofunda análises técnicas para não reduzir sua presença no setor. “A Cemig faz estudos tributários para ampliar a diversificação de recursos para patrocínios”, diz a executiva, durante a audiência.
Na prática, esses estudos buscam alternativas além da rota tradicional da renúncia fiscal. A empresa avalia instrumentos financeiros e formatos contratuais capazes de dar mais segurança jurídica e flexibilidade, mesmo com o novo desenho tributário. A meta é equilibrar o orçamento de marketing, as obrigações regulatórias do setor elétrico e o compromisso social assumido ao longo de décadas.
O debate na ALMG cria um ambiente de pressão e cooperação. Parlamentares e representantes do setor cultural cobram que o peso da Reforma não recaia apenas sobre artistas, produtores e projetos sociais. Ao mesmo tempo, ouvem da Cemig que uma parte da solução passa por ajustes legislativos, para que a empresa não atue na fronteira da insegurança jurídica ao patrocinar.
Quem perde mais com travas nos incentivos
A restrição aos incentivos impacta toda a cadeia, mas pesa mais em quem está nas pontas. Pequenos grupos culturais, equipes esportivas de base, coletivos de periferia e organizações sociais do interior sentem o corte primeiro. São esses atores que dependem do patrocínio para pagar contas básicas, manter espaços abertos e garantir transporte de atletas e artistas.
Produtores estabelecidos, em capitais e grandes cidades, têm mais capacidade de se reorganizar e buscar outras fontes de receita. Já projetos em regiões menos favorecidas podem simplesmente desaparecer sem o apoio recorrente da Cemig e de outros patrocinadores. O risco é aumentar desigualdades regionais, concentrando ainda mais eventos e oportunidades nos grandes centros.
Para a Cemig, o desafio também é econômico e de imagem. Adaptar processos internos às novas regras fiscais exige equipes técnicas, tempo e, muitas vezes, retrabalho. A empresa precisa redesenhar editais, contratos e fluxos de análise sem quebrar a confiança de quem depende dos recursos. Em contrapartida, manter ou até ampliar o fomento reforça seu papel público e melhora o diálogo com a classe política.
Pressão por mudanças e próximos passos
A audiência pública se converte em vitrine e laboratório. Ao detalhar investimentos e dificuldades, a Cemig sinaliza que não pretende recuar, mas exige condições para continuar como principal patrocinadora de cultura e esporte em Minas. Deputados e representantes de entidades veem no movimento uma oportunidade para propor ajustes na legislação e em normas regulatórias.
A tendência é que os estudos tributários mencionados por Hanna Drummond desembocem em minutas de projetos de lei ou em alterações de regulamentos estaduais. Se avançarem, essas mudanças podem abrir espaço para modelos híbridos de patrocínio, combinando incentivos fiscais, investimento direto e parcerias com fundos específicos.
O efeito não se limita à Cemig. A movimentação da estatal tende a influenciar bancos, mineradoras e outras empresas com forte presença em Minas. Patrocinadores privados observam o que sair da ALMG para calibrar suas próprias estratégias de fomento. Se houver segurança jurídica e instrumentos mais flexíveis, o Estado pode assistir a uma diversificação de fontes de recursos nos próximos anos.
O desfecho, porém, depende da capacidade de articulação entre parlamento, governo estadual, empresas e setor cultural. Sem consenso, o risco é a transição tributária alongar a incerteza, atrasar decisões de patrocínio e comprometer calendários de eventos. Com acordo, Minas pode transformar uma Reforma que restringe o espaço de manobra em ponto de partida para um novo ciclo de fomento cultural e esportivo, mais descentralizado e inclusivo.