STJ investiga ex-assessora ligada a mensagens sobre caso Buzzi

STJ apura envolvimento de ex-assessora em envio de mensagens confidenciais sobre processo de assédio.
Redação NC News
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O Superior Tribunal de Justiça (STJ) apura, em investigação sigilosa, o envio de mensagens a ministros sobre o caso do colega Marco Buzzi, afastado por denúncias de assédio. A sindicância interna atribui a autoria dos disparos à ex-assessora do magistrado, a jornalista Iara Rebelo de Souza, e ocorre em meio ao processo que pode levar à expulsão do ministro, com desfecho previsto para agosto de 2026.

Mensagens, sigilo e tentativa de influência

A ofensiva por celular acende o alerta no segundo tribunal mais importante do país porque ocorre às vésperas da fase decisiva da sindicância disciplinar. As mensagens falam em uma suposta “reviravolta” nas investigações e são vistas por integrantes da Corte como tentativa de interferir no julgamento de um caso que expõe, de forma rara, denúncias de assédio sexual e moral no topo do Judiciário.

Segundo reportagem, “o envio das mensagens para os contatos dos ministros é vista dentro do STJ como um caso estratégia de intimidação e desinformação”. A avaliação interna é que o episódio corrói a confiança entre pares e pressiona um processo já sensível, que envolve acusações de assédio a mulheres em ambiente de trabalho e em situação de lazer com a família do ministro.

O caminho até o celular da ex-assessora

Iara Rebelo de Souza trabalhou no gabinete de Buzzi por apenas três meses, em 2018. Mesmo assim, seu nome reaparece no centro da crise oito anos depois, agora vinculado ao número de telefone usado para atingir os ministros. A apuração interna do STJ, à qual a coluna de O GLOBO teve acesso, atribui a ela a linha de celular responsável pelos disparos.

A jornalista chegou a ser indicada como testemunha de defesa de Buzzi na sindicância que apura denúncias de assédio e tramita sob sigilo. O processo pode resultar na punição máxima prevista para magistrados, a aposentadoria compulsória, e, num cenário mais extremo, na expulsão do ministro. A mesma reportagem relata que “a expectativa é a de que o plenário do STJ se reúna em agosto para decidir o destino do ministro”.

Apesar de listada pela defesa, Iara não presta depoimento. Os advogados desistem de sua oitiva antes que ela fale aos investigadores internos. O movimento alimenta, dentro e fora do tribunal, dúvidas sobre o papel da ex-assessora na estratégia de comunicação que tenta redesenhar a narrativa do caso.

Reviravolta por WhatsApp e denúncias de assédio

As mensagens enviadas a contatos de ministros falam em “reviravolta no caso Marco Buzzi” e mencionam uma das mulheres ligadas ao processo. O texto diz que uma “suposta vítima” afirma em cartório “que não houve nada” e que o ministro “sempre foi respeitoso”, sugerindo mudança de versão e minando a credibilidade das denúncias. Dentro do STJ, porém, fontes ouvidas pela imprensa afirmam que as duas mulheres que acusam o magistrado não recuam em seus relatos.

As acusações contra Buzzi envolvem uma funcionária terceirizada que atua como secretária em seu gabinete, no STJ, e uma jovem de 18 anos, que o acusa de tentativa de agarrá-la em uma praia de Balneário Camboriú (SC), em janeiro deste ano, durante férias com a própria família do ministro. Os relatos se inserem em um debate mais amplo sobre o que é assédio feminino, os tipos de assédio e a dificuldade de denunciá-lo quando o acusado ocupa posição de poder.

No plano jurídico, a sindicância examina condutas que podem ser enquadradas em diferentes categorias de assédio no trabalho, do assédio moral ao assédio sexual, previstos na legislação e em normas internas do Judiciário. Em paralelo, o Ministério Público avalia se há elementos para responsabilização criminal, em linha com o que o Código Penal define como crime de assédio ou importunação, categoria criada para punir abordagens e contatos de cunho sexual não consentidos.

Credibilidade do STJ em xeque

O disparo de mensagens em massa mira o coração de um tribunal que depende da confiança pública para arbitrar conflitos complexos. O episódio expõe a vulnerabilidade de ministros e servidores ao uso de ferramentas de comunicação para pressionar decisões internas. A reação imediata dentro do STJ, segundo relatos, é de preocupação com a integridade do processo e com a necessidade de blindar o julgamento de qualquer influência indevida.

O caso também atinge a imagem institucional do tribunal no trato de denúncias de assédio no trabalho. A demora em dar respostas e o uso de estratégias paralelas de comunicação alimentam a percepção de que vítimas enfrentam barreiras extras quando decidem formalizar acusações contra autoridades. Para especialistas, episódios assim reforçam a urgência de canais de denúncia protegidos e de regras claras contra retaliações, especialmente em ambientes hierarquizados.

Dentro do STJ, a tendência é reforçar controles sobre o uso de contatos pessoais de ministros e restringir o acesso de assessores e servidores a dados sensíveis. A investigação sobre o número de celular vinculado a Iara expõe ainda um flanco tecnológico: a possibilidade de habilitação de linhas com dados de terceiros, o que exige cooperação com operadoras e autoridades policiais para rastrear a verdadeira titularidade.

Próximos passos e pressões cruzadas

A decisão do plenário do STJ, prevista para agosto de 2026, deve ir além da análise das denúncias de assédio contra Buzzi. Os ministros serão pressionados a avaliar também o impacto das tentativas de desinformação e intimidação sobre o próprio processo disciplinar. O resultado pode ser a adoção de punições mais severas, tanto ao magistrado quanto a eventuais envolvidos na estratégia de comunicação, caso a ligação com o disparo das mensagens se confirme.

A longo prazo, o tribunal tende a ser cobrado por reformas internas que reforcem a transparência de sindicâncias, protejam denunciantes e reduzam espaço para manobras informais. O caso Buzzi transforma-se, assim, em teste para a capacidade do STJ de enfrentar, com rigor e publicidade controlada, denúncias de assédio feminino em seus quadros mais altos. A forma como a Corte responde à combinação de acusação formal e campanha paralela por mensagens ajudará a definir os limites de tolerância institucional ao assédio — e à tentativa de distorcer a percepção sobre ele.

 

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