O Vaticano confirmou a excomunhão do padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa e da Capela Santo Atanásio, em Ceilândia, no Distrito Federal. A decisão atinge em cheio a rotina religiosa da comunidade e coloca sob suspeita a validade espiritual de missas, casamentos e confissões realizados no local.
Cisma, nulidade de sacramentos e disputa por autoridade
A medida decorre da adesão formal da capela à Fraternidade Sacerdotal São Pio X, grupo tradicionalista que enfrenta tensão permanente com Roma. De acordo com o Vaticano, a fraternidade ordenou quatro bispos sem autorização da Santa Sé, em Écône, na Suíça. O gesto configura cisma, ruptura grave com a autoridade da Igreja.
A Arquidiocese de Brasília, chefiada pelo cardeal Paulo Cezar Costa, publica nota no dia 11 detalhando o alcance da sanção. O texto afirma que os sacramentos administrados por Françoá — como confissões, casamentos, batismos, unção dos enfermos e missas — passam a ser considerados ilícitos e, em vários casos, nulos no direito canônico. Significa que, para a Igreja oficial, muitos desses atos deixam de produzir efeito religioso válido.
No comunicado, o arcebispo endurece o tom contra a Capela Santo Atanásio. “As celebrações, atividades pastorais, iniciativas de formação ou demais atos promovidos na denominada ‘Capela Santo Atanásio’ são considerados irregulares por não se exercerem em comunhão com o Romano Pontífice nem com o Arcebispo Metropolitano de Brasília, e devem ser terminantemente evitadas pelos fiéis, em razão do grave risco de gradual aderência ao mesmo cisma e excomunhão”, escreve Paulo Cezar.
Padre rejeita excomunhão e promete seguir com missas
Alvo direto da decisão, Françoá Costa reage em vídeos publicados nas redes sociais. No dia 5 de julho, já antecipa o conflito no material intitulado “NÃO estamos excomungados”. O sacerdote afirma que não recua da adesão à Fraternidade São Pio X por “medo de declarações de cismas, excomunhões, ameaças e outras coisas”.
Depois da nota da Arquidiocese, ele sobe o tom e contesta a própria legitimidade da sanção. Em vídeo de 11 de julho, chamado “Resposta aos inimigos”, declara que continuará com as celebrações na capela. “Continuaremos todos os dias a rezar a Santa Missa, a mencionar o nome do Santo Padre [o Papa] no cânon da missa, a rezar, aqui no caso de Brasília, pelo senhor arcebispo de Brasília, consciente de que somos católicos”, afirma.
O padre acusa a Igreja institucional de perseguir a fraternidade e relativiza a acusação de cisma. “Concedamos que a fraternidade desobedeceu fortemente o papa. Pois bem, é uma desobediência forte, é uma desobediência grave, mas desobediência não é a mesma coisa que cisma”, diz. Segundo ele, como o grupo reconhece o Papa e mantém o que considera a fé tradicional, a excomunhão seria “inválida” e “nula”.
Em outro momento, Françoá ataca diretamente a atual orientação da Igreja. “Estamos dispostos a sofrer pela Igreja Católica e a não compactuar, de jeito nenhum, com essa Igreja sinodal, conciliar e falsa religião, a qual, como parasita, cresce aproveitando a estrutura da Santa Igreja Católica e sufoca inclusive, até as mais altas autoridades da Igreja. […] Quem não estiver conosco nesta batalha, pode se retirar”, proclama.
Fraternidade São Pio X volta ao centro da crise
O embate em Ceilândia é episódio local de um conflito que se arrasta há décadas. A Fraternidade Sacerdotal São Pio X nasce em oposição às reformas do Concílio Vaticano II, que, entre outros pontos, autoriza missas em língua local e altera práticas litúrgicas e pastorais. O grupo defende o retorno à missa em latim e critica o diálogo com o mundo moderno.
Em 1988, o então arcebispo francês Marcel Lefebvre, fundador da fraternidade, ordena bispos sem autorização do papa João Paulo II. O Vaticano reage com excomunhões imediatas. Em 2009, Bento XVI revoga a pena pessoal dos bispos, mas mantém a situação canônica da fraternidade em suspenso. O grupo continua sem reconhecimento pleno, e suas ordenações e atividades são vistas com desconfiança jurídica e teológica.
As novas ordenações de 1º de julho de 2023 reacendem o conflito. Ao estender a excomunhão para padres e fiéis que aderem formalmente à fraternidade, o Vaticano sinaliza que considera o gesto como repetição do desafio de 1988. A Capela Santo Atanásio, ao se vincular publicamente ao grupo, entra na linha de frente desse embate.
Dilema para fiéis e pressão sobre a Arquidiocese
O impacto da sanção se sente de forma mais aguda entre os frequentadores da capela, em Ceilândia. Católicos que buscavam ali um espaço de liturgia tradicional agora enfrentam uma escolha difícil: permanecer com o padre e o grupo, assumindo o risco de serem considerados cismáticos, ou retornar às paróquias ligadas diretamente à Arquidiocese para preservar a comunhão plena com a Igreja.
A nota assinada por Paulo Cezar Costa não deixa margem para meio-termo. A Arquidiocese exorta os fiéis a renunciar à Capela Santo Atanásio e a evitar “quaisquer contextos ou ambientes em que se proponha, implícita ou explicitamente, a ruptura prática da unidade e da comunhão como condição para uma, assim defendida, ‘fidelidade mais perfeita à Igreja’”.
Na prática, casais que se casam na capela podem ver o matrimônio religioso ser considerado inexistente pela Igreja oficial. Confissões e absolvições dadas por Françoá não têm efeito jurídico-canônico. Batismos e unções de enfermos são colocados sob suspeita. O alerta do arcebispo busca impedir que a situação se espalhe para outras comunidades do Distrito Federal e reduza a autoridade da Arquidiocese.
O episódio expõe também a dificuldade da Igreja em dialogar com grupos que se apresentam como mais fiéis à tradição justamente ao romper com a estrutura oficial. A retórica de Françoá, ao falar em “falsa religião” e “parasita” dentro da própria Igreja, mostra que, para parte desses setores, não se trata apenas de preferência litúrgica, mas de disputa pela definição do que é catolicismo autêntico.
Conflito aberto e futuro incerto para a comunidade
A Arquidiocese de Brasília indica que pretende seguir com medidas pastorais e, se necessário, canônicas para conter o avanço do cisma. O caminho passa por orientar os fiéis, fortalecer paróquias vizinhas e, eventualmente, adotar novas sanções a clérigos ou leigos que persistirem na ruptura formal.
Na Capela Santo Atanásio, o discurso é de resistência. Françoá promete manter as celebrações diárias e reforça os laços com a Fraternidade São Pio X. O impasse tende a prolongar uma convivência tensa: de um lado, a Igreja oficial insiste que os atos ali praticados são irregulares e espiritualmente ineficazes; de outro, o grupo afirma que justamente preserva a verdadeira fé católica.
O desfecho permanece em aberto. A crise em Ceilândia antecipa, em escala local, debates que a Igreja Católica enfrenta globalmente: como lidar com minorias tradicionalistas que rejeitam reformas recentes, até que ponto é possível acolher divergências e qual o preço de uma ruptura formal. Enquanto Roma, Brasília e a Fraternidade São Pio X calculam seus próximos movimentos, quem sente de imediato as consequências são os fiéis que, diante do altar, se veem obrigados a escolher entre obediência institucional e lealdade a um padre e a um rito que consideram mais fiel à tradição.