Jorge Jesus cobra Pedro na Seleção e desafia Ancelotti após Mundial

Treinador português critica escolhas na seleção e destaca divergências com Ancelotti após eliminação no Mundial.
Redação NC News
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Jorge Jesus volta a falar sobre a Seleção Brasileira e, nesta terça-feira (21), reforça que convocaria Pedro, do Flamengo, em vez de alguns nomes escolhidos por Carlo Ancelotti para o último Mundial de Seleções. O técnico português admite que sua visão é “tendenciosa”, mas sustenta que o centroavante rubro-negro é, hoje, o melhor atacante em atividade no país.

Críticas após derrota para a Argentina e queda no Mundial

As declarações de Jorge Jesus ganham peso num ambiente ainda sensível. A Seleção vem de uma derrota por 4 a 1 para a Argentina em eliminatórias e de uma eliminação precoce no Mundial, nas oitavas de final, diante da Noruega de Haaland. O time de Ancelotti avança em primeiro no grupo, passa pelo Japão no mata-mata seguinte, mas para na primeira grande pedreira europeia.

O desempenho alimenta a desconfiança sobre escolhas e critérios de convocação. Em entrevista recente, o português revela que chegou a esboçar uma lista própria quando seu nome ainda circulava como possível sucessor de Dorival Júnior no comando da Seleção. “Acabei não treinando a Seleção do Brasil, mas já tinha indicações para fazer a pré-convocação da Seleção do Brasil. Para o jogo que havia em março, depois de eles terem perdido por 4 a 1 com a Argentina… Portanto, o que eu teria feito? Se eu convocaria diferente do que o Ancelotti fez? Claro que eu faria num ou noutro jogador, pelo menos porque era tendencioso…”, diz.

O comentário reabre um debate que atravessa o ciclo até o Mundial: a sensação de que o Brasil chega ao torneio sem um projeto contínuo. A equipe passa por Fernando Diniz, depois por Dorival, até que Ancelotti é anunciado em maio de 2025, já na reta final da preparação.

Pedro no centro da discordância

No centro da crítica de Jorge Jesus está Pedro, hoje referência técnica e emocional do Flamengo. O português, que dirigiu o atacante na passagem vitoriosa pela Gávea, não esconde o apreço. “Acho que neste momento o melhor atacante do futebol brasileiro é o Pedro. Isto é um bocadinho tendencioso, porque ele foi meu jogador no Flamengo. (Minha convocação) teria um, dois ou três jogadores diferentes, mas concordei com a maioria com o que ele fez. Depois, o cunho pessoal, a forma de olhar para o jogo, a forma de treinar, isso que é a diferença”, afirma.

Ao defender o camisa 9, Jorge Jesus toca num ponto sensível da torcida brasileira: a escassez de centroavantes clássicos em alto nível. Pedro mantém média alta de gols pelo Flamengo, decide jogos de mata-mata e é ídolo recente da torcida. Mesmo assim, vê convocações irem e virem sem consolidar seu espaço como protagonista da Seleção. O técnico português transforma o caso num símbolo de conflito de visões entre treinadores.

Para Jesus, o atacante oferece algo que o time de Ancelotti ainda não encontra: presença diária na área, repertório no jogo aéreo e frieza nas decisões. O italiano, por sua vez, privilegia atacantes mais móveis, que recuam para participar da construção e se encaixam em um modelo de ataque mais fluido, com constantes trocas de posição.

Concorrência de bastidores e estilos em choque

As falas também carregam um componente de biografia. O nome de Jorge Jesus é cogitado para a Seleção no período em que a CBF procura um técnico estrangeiro. A escolha final recai sobre Ancelotti, que assume o posto em maio de 2025. O português fica de fora, mas não desaparece do debate público sobre o futebol brasileiro. Seu trabalho no Flamengo, com títulos expressivos e desempenho dominante, mantém a imagem forte no país.

A partir daí, cada passo de Ancelotti é observado com lupa por torcedores, ex-jogadores e técnicos. O italiano herda um cenário instável, sem uma base clara formada ao longo do ciclo. Monta seu grupo com pouco tempo de treino, tenta mesclar nomes experientes com uma geração mais jovem e aposta na própria autoridade para blindar o vestiário.

As escolhas dividem a arquibancada. Convocados que brilham em clubes europeus recebem apoio quase automático. Outros, mais contestados, viram alvo rápido nas redes sociais. A ausência de Pedro alimenta a suspeita, entre rubro-negros e parte da imprensa, de que o comandante ignora o peso do futebol local. Quando o time cai para a Noruega, a conta chega com juros.

Quem ganha, quem perde com a polêmica

O discurso de Jorge Jesus encontra eco imediato. Torcedores do Flamengo veem na fala uma espécie de endosso técnico ao que já gritavam nas arquibancadas. Analistas que cobram mais espaço para jogadores em destaque no Brasil também se apoiam no argumento. Cada gol de Pedro no clube passa a ser usado como munição retroativa contra as listas de Ancelotti.

Na comissão técnica da Seleção, o incômodo é evidente, ainda que ninguém fale publicamente. Qualquer crítica externa à convocação é percebida como interferência no ambiente de trabalho. O discurso oficial segue a cartilha: respeito a opiniões alheias, foco no projeto e defesa da autonomia do treinador. Nos bastidores, porém, o temor é que comentários de técnicos de peso criem dúvidas no elenco e ampliem a pressão sobre atletas que já convivem com comparações permanentes.

Jogadores que disputam posição com Pedro, por exemplo, ficam na linha de tiro da crítica. A mensagem implícita de parte da torcida é dura: se o time não rende, a culpa é de quem foi e de quem convocou, mas também de quem “tirou a vaga” de um ídolo popular.

Seleção sob revisão e futuro em disputa

Com o Mundial já encerrado para o Brasil, o debate sobre o futuro da Seleção entra em modo revisão. Dirigentes discutem se mantêm Ancelotti para o próximo ciclo ou se apostam novamente em mudança de rota. O currículo do italiano pesa a favor da continuidade, mas a combinação de futebol irregular, derrota pesada para a Argentina e queda diante da Noruega mina parte da confiança.

A fala de Jorge Jesus, nesse contexto, funciona como peça adicional numa disputa maior: quem define o modelo de jogo do Brasil daqui para frente. O treinador português reivindica, ainda que indiretamente, uma visão mais próxima da que apresentou no Flamengo, com protagonismo ofensivo e uso intenso de um centroavante de área. Ancelotti, por sua vez, tenta adaptar a Seleção a um futebol de circulação rápida e versatilidade posicional, inspirado em sua longa trajetória na Europa.

O que se decide nos próximos meses vai muito além do nome do técnico. Está em jogo o tipo de jogador que o país quer valorizar, a abertura da Seleção para atletas que atuam no Brasil e a disposição da CBF em blindar ou rever suas escolhas em meio à pressão pública. Enquanto isso, Pedro segue em alta no Flamengo, e Jorge Jesus, de longe, continua a lembrar que tinha uma lista diferente na gaveta.

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