Operação Metástase prende quadrilha que fatura R$33 mi com remédios para câncer

Polícia Civil do RJ combate grupo que comercializava ilegalmente medicamentos oncológicos em múltiplas regiões.
Redação NC News
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A Polícia Civil do Rio de Janeiro deflagra nesta terça-feira, 21, a Operação Metástase contra uma quadrilha especializada no roubo e na revenda de remédios para câncer e imunossupressores. A ação ocorre simultaneamente em quatro estados e mira um esquema que, segundo as investigações, movimenta R$ 33 milhões em um ano.

Rede criminosa atravessa quatro estados e chega a hospitais

A ofensiva policial atinge diretamente a cadeia de tratamento de pacientes oncológicos e transplantados no país. Os remédios roubados, de alto custo e uso contínuo, voltam ao mercado de forma clandestina e chegam tanto a hospitais privados quanto a instituições públicas.

De acordo com a Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas da Capital (DRFC-Cap), a organização criminosa atua entre 2025 e 2026 usando 25 empresas de fachada para dar aparência legal às cargas desviadas. “A quadrilha movimentou R$ 33 milhões em apenas 1 ano e utilizava empresas de fachada para recolocar o material roubado no mercado”, afirma a especializada.

Os mandados de prisão preventiva e de busca e apreensão se espalham por endereços no Rio de Janeiro, em São Paulo (capital, Santo André e São Caetano do Sul), em Goiânia, em Goiás, e em Belém, no Pará. No total, a Justiça determina cinco prisões preventivas e 97 buscas, além do bloqueio de R$ 30 milhões em contas bancárias e do sequestro de imóveis e veículos de luxo.

Maré sob cerco e apoio bélico do Terceiro Comando Puro

No Rio, a operação se concentra no Complexo da Maré e na Baixada Fluminense. Policiais relatam intenso tiroteio e barricadas em chamas na Vila do João para tentar impedir o avanço das equipes. A cena repete o padrão de resistência armada visto em ações contra o crime organizado no estado, mas com um alvo diferente: o mercado clandestino de medicamentos de alto custo.

As investigações apontam que a quadrilha conta com suporte da facção criminosa Terceiro Comando Puro (TCP), que controla parte da Maré. “Após as ações criminosas, realizadas por criminosos fortemente armados, os medicamentos eram levados para áreas dominadas pelo Terceiro Comando Puro (TCP), no Complexo da Maré, onde ocorria o transbordo e a redistribuição da carga”, descreve a DRFC-Cap.

A facção oferece proteção armada aos ladrões de carga e garante o uso do território para o armazenamento e o fracionamento das caixas. O material fica em imóveis usados como depósitos improvisados, antes de seguir para outros estados em caminhões, furgões ou veículos menores.

Empresas de fachada e fraudes em licitações de saúde

Os investigadores identificam uma engrenagem dividida em núcleos. Um grupo executa os roubos de cargas de medicamentos, muitas vezes com aliciamento de funcionários de transportadoras, que repassam informações sobre rotas, horários e valor das cargas. Outro núcleo cuida da logística e das finanças, coordenando armazenamento, fracionamento e remessa interestadual.

Para esconder a origem criminosa dos remédios, o grupo usa empresas de fachada abertas em nome de laranjas, contratos forjados com transportadoras e entregadores terceirizados. Essas firmas aparecem formalmente como fornecedoras de medicamentos e insumos hospitalares em vários estados.

Segundo a Polícia Civil, o passo seguinte é atingir diretamente o setor de compras públicas e privadas. “Os medicamentos eram revendidos tanto para hospitais privados quanto, em alguns casos, para instituições públicas de saúde, por meio de processos licitatórios na modalidade de tomada de preços”, informa a corporação.

Ao oferecer preços inferiores aos praticados no mercado regular, as empresas de fachada vencem licitações ou fecham contratos diretos com clínicas e hospitais. Na prática, o setor de saúde, que deveria ser vítima do roubo de cargas, passa a comprar, sem saber, medicamentos desviados.

Remédios fora da temperatura ideal e risco real aos pacientes

O alvo preferencial da quadrilha são medicamentos oncológicos e imunossupressores, usados em tratamentos de câncer, em pacientes transplantados e em pessoas com doenças autoimunes. São remédios que exigem controle rígido de temperatura e armazenamento durante todo o transporte, do fabricante até a aplicação no paciente.

A Polícia Civil alerta para a dimensão sanitária do esquema. O transporte clandestino, sem refrigeração adequada, e o armazenamento improvisado em áreas dominadas pelo tráfico colocam em risco a eficácia e a segurança dessas drogas. “Medicamentos oncológicos e imunossupressores exigem rigoroso controle de temperatura e armazenamento durante todo o transporte. Quando mantidos em condições inadequadas, podem perder a eficácia, sofrer contaminação ou até gerar substâncias nocivas”, pontua a corporação.

O risco não é abstrato. Pacientes podem receber doses que parecem corretas no papel, mas que perderam potência ou foram comprometidas pelo calor. Em tratamentos de câncer, qualquer falha na quimioterapia ou na medicação de suporte pode significar progressão da doença, necessidade de protocolos mais agressivos e queda na chance de cura.

O volume de cargas desviadas também preocupa. O próprio inquérito ressalta que a subtração em série de lotes de remédios essenciais compromete o abastecimento de redes pública e privada, atrasa ciclos de tratamento e pressiona ainda mais um sistema de saúde já sobrecarregado.

Golpe financeiro na quadrilha e pressão por mais controle

Além das prisões e buscas, o bloqueio de R$ 30 milhões em contas e o sequestro de bens buscam atingir o núcleo financeiro do grupo. A expectativa é que imóveis, carros de luxo e valores apreendidos sejam revertidos ao Estado ao fim do processo, com destinação prioritária à saúde.

A Operação Metástase também pressiona hospitais e clínicas a revisar seus processos de compra. A descoberta de empresas de fachada vencendo tomadas de preço expõe falhas de checagem de fornecedores e abre espaço para auditorias internas e externas. A tendência é que redes públicas e privadas exijam mais rastreabilidade da origem dos medicamentos, desde a indústria até o leito do paciente.

No campo da segurança pública, a exposição do papel do TCP no suporte bélico e logístico pode desencadear ações integradas entre polícias civis, forças federais e agências de fiscalização sanitária. O tráfico de medicamentos, que há anos corre em paralelo ao tráfico de drogas e de armas, ganha novo grau de visibilidade.

As investigações continuam. A DRFC-Cap trabalha com a possibilidade de novas prisões e de ramificações do esquema em outros estados. O desafio, agora, é transformar a desarticulação pontual de uma quadrilha em política permanente de controle da cadeia de medicamentos de alto custo, para que o remédio que deveria salvar não volte ao paciente pela via do crime.

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