A entrada em vigor da tarifa adicional de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre uma série de produtos brasileiros acendeu um sinal de alerta em Minas Gerais. Um dos estados que mais exportam para o mercado norte-americano, Minas pode enfrentar perdas importantes em setores estratégicos da indústria, com impactos que vão desde a redução das vendas ao exterior até riscos para investimentos e geração de empregos.
O alerta é da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG), que acompanha os desdobramentos da medida. Segundo a entidade, o aumento da tributação torna os produtos brasileiros mais caros para os compradores americanos, diminuindo a competitividade das empresas mineiras em relação a concorrentes de outros países que não foram atingidos pela sobretaxa.
Embora o comércio entre Brasil e Estados Unidos continue funcionando, a avaliação da indústria é de que a nova tarifa pode dificultar a conquista de novos contratos e comprometer negócios já existentes, especialmente em segmentos com forte presença nas exportações.
Tarifaço dos EUA: veja os setores de Minas mais afetados
Entre os segmentos mineiros que podem sentir os efeitos da medida estão produtos com grande participação na pauta de exportações para os Estados Unidos. A lista inclui:
- Equipamentos médicos;
- Disjuntores e outros equipamentos elétricos;
- Pedras trabalhadas e rochas ornamentais;
- Sebo bovino;
- Ovos;
- Cana de açúcar e derivados;
- Máquinas e equipamentos elétricos;
- Calçados.
Esses produtos tendem a ficar mais caros para os importadores norte-americanos, o que pode reduzir a demanda e abrir espaço para fornecedores de outros mercados. Para empresas que dependem das exportações, o cenário aumenta a preocupação com a manutenção da competitividade internacional.
Exportações milionárias de Minas entram na mira da nova tarifa dos EUA
Levantamento do Centro Internacional de Negócios da FIEMG (CIN/FIEMG) revela que os 15 principais produtos mineiros atingidos pela nova tarifa somaram cerca de US$ 234 milhões em exportações para os Estados Unidos em 2025.
Os itens com maior volume financeiro são o sebo de bovinos, ovinos ou caprinos, que movimentou quase US$ 34 milhões, seguido pelos disjuntores de baixa tensão, com aproximadamente US$ 33 milhões. Também aparecem entre os mais exportados as preparações capilares (mais de US$ 22 milhões), as pedras preciosas e semipreciosas trabalhadas (cerca de US$ 21 milhões) e as obras contendo magnesita, dolomita ou cromita, que somaram aproximadamente US$ 19 milhões.
Os dados também mostram a forte dependência do Brasil em relação à produção mineira desses produtos. Minas Gerais responde por mais de 99% das exportações brasileiras de obras contendo magnesita, dolomita ou cromita, além de tijolos, placas, peças refratárias selecionadas e ardósia trabalhada. No caso dos disjuntores de baixa tensão, a participação do estado ultrapassa 97% de tudo o que o Brasil vende ao mercado americano.
A medida prevê um período de transição para mercadorias que já estavam em transporte. Produtos embarcados antes de 22 de julho poderão ser isentos da nova tarifa, desde que entrem oficialmente no mercado dos Estados Unidos até 29 de julho.
FIEMG alerta para riscos à economia mineira
Na avaliação da FIEMG, os efeitos da nova tarifa podem ir além da queda nas exportações. A entidade destaca que a redução da competitividade pode afetar toda a cadeia produtiva, impactando fornecedores, transportadoras e empresas ligadas aos setores exportadores.
Outro ponto de atenção é a possibilidade de diminuição de investimentos. Com custos maiores para acessar o mercado dos Estados Unidos, algumas empresas podem rever planos de expansão, produção e contratação de mão de obra.
A federação também reforça que a previsibilidade é fundamental para o ambiente de negócios e defende que haja clareza nas regras para que as empresas consigam planejar suas operações e minimizar os prejuízos.
Nova tarifa pode elevar taxação para 37,5% e ampliar impacto sobre Minas
Além da tarifa de 25% que já entrou em vigor, a indústria mineira acompanha com apreensão um novo anúncio previsto para sexta-feira (24). A expectativa é sobre a conclusão de uma investigação do governo dos Estados Unidos relacionada à importação de produtos fabricados com suposto uso de trabalho forçado.
Nessa apuração, o Brasil foi incluído pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) entre os países que podem ser alvo de uma tarifa adicional de 12,5%. Caso a medida seja confirmada e aplicada aos mesmos produtos já atingidos pela sobretaxa de 25%, a cobrança total poderá chegar a 37,5%.
Para a coordenadora de Facilitação de Negócios Internacionais do Centro Internacional de Negócios da FIEMG (CIN/FIEMG), Verônica Ribeiro Winter, o principal problema é a perda de competitividade dos produtos brasileiros em relação aos concorrentes internacionais.
“A combinação das medidas pode colocar produtos brasileiros em desvantagem significativa diante dos principais concorrentes internacionais, e essa diferença pode pesar diretamente na escolha do importador. A preocupação não está apenas no tamanho da tarifa, mas na diferença de tratamento entre fornecedores que disputam os mesmos compradores”, afirma.
Diante do cenário, a FIEMG defende a continuidade das negociações entre os governos do Brasil e dos Estados Unidos, além da ampliação das exceções previstas na medida. A entidade também pede regras claras sobre a possível soma das tarifas e a adoção de políticas de apoio às empresas mais afetadas, incluindo ações para diversificar os mercados de exportação e reduzir a dependência do mercado norte-americano.
Tarifa de 25% já está valendo
A sobretaxa entrou em vigor nesta quarta-feira (22) e passa a incidir sobre diversos produtos brasileiros destinados ao mercado norte-americano. Apesar disso, alguns itens ficaram de fora da medida por decisão do governo dos Estados Unidos.
Mesmo com essas exceções, a indústria mineira afirma que o impacto pode ser significativo, principalmente para empresas que têm nos Estados Unidos um dos principais destinos de suas exportações.
A FIEMG informou que segue acompanhando as negociações e aguarda novos esclarecimentos das autoridades americanas sobre a aplicação da medida. A expectativa é que os próximos dias tragam definições que permitam avaliar, com maior precisão, o alcance do tarifaço sobre a economia de Minas Gerais e do Brasil.