Fernanda Bolsonaro, esposa do senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL), deixa o papel discreto e assume o centro do palco ao apresentar o marido na convenção nacional do partido que oficializa sua candidatura ao Planalto. Diante da plateia, ela ataca o PT e tenta colar na campanha a bandeira do combate à violência contra a mulher.
Do bastidor ao palco principal
O movimento não é isolado. A cúpula do PL aposta em Fernanda como uma das principais vozes da chamada “caravana feminina” da campanha, criada para reduzir a rejeição de Flávio entre eleitoras e ocupar o vácuo deixado pelo desgaste na relação com Michelle Bolsonaro, madrasta do senador.
Ao microfone, Fernanda resume o tom que o partido pretende repetir nas próximas semanas.
“O Brasil não aguenta mais quatro anos de PT”, diz, em discurso curto, antes de chamar o marido ao palco. Na mesma fala, cita o aumento da violência contra a mulher e apresenta o tema como prioridade do futuro governo que o PL promete.
A convenção, que conta com figuras como o presidente argentino Javier Milei e um vídeo de Michelle Bolsonaro desejando boa sorte ao enteado, funciona como vitrine para a nova frente da campanha. Fernanda é exibida como empresária, mãe e parceira de Flávio na vida profissional e política, numa tentativa de humanizar o candidato e aproximá-lo de eleitores sensíveis a agendas sociais.
Biografia, negócios e investigações
Fora da política institucional, Fernanda constrói a imagem de empresária do mercado imobiliário. Atua em conjunto com o marido em uma intensa agenda de compra e venda de imóveis, que sustenta o discurso de família empreendedora e bem-sucedida. É essa mesma atuação, porém, que abastece o flanco de vulnerabilidade da campanha.
Fernanda é citada em investigações do Ministério Público sobre o esquema das chamadas “rachadinhas” no antigo gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio. Os promotores descrevem o uso de dinheiro vivo para pagar despesas da família, depósitos suspeitos em contas da esposa e transações imobiliárias com recursos que teriam origem em desvios de salários de assessores.
Em documentos do inquérito, o MP fala em “pelo menos três métodos básicos” de participação de Fernanda no esquema, incluindo pagamentos em espécie e uso de imóveis para lavar dinheiro. Cita aquisições de salas comerciais e apartamentos em bairros valorizados do Rio, com valores milionários que, segundo os investigadores, não combinam com a renda formal declarada.
Entre os exemplos aparece a compra de uma cobertura em Laranjeiras, na zona sul carioca, negociada por R$ 1,7 milhão em valores da época. De acordo com o Ministério Público, depósitos feitos por Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio apontado como operador financeiro das rachadinhas, ajudam a compor os sinais do negócio. A defesa do casal sempre nega irregularidades.
Apesar das acusações, a ação penal é arquivada sem julgamento de mérito, depois de uma sequência de vitórias processuais obtidas pelos advogados da família Bolsonaro, que questionam aspectos técnicos da investigação. Na prática, o desfecho esvazia o caso judicialmente, mas preserva o desgaste político.
Estrategia para o voto feminino e riscos calculados
A entrada de Fernanda na linha de frente da campanha marca uma virada de estratégia. Até pouco tempo, ela evitava entrevistas, mantinha um perfil quase vazio no Instagram e aparecia em público apenas em momentos delicados da trajetória de Flávio. Agora, passa a ser aposta explícita para enfrentar duas frentes: a dificuldade do senador com o eleitorado feminino e o temor de novos vazamentos ou denúncias envolvendo a vida pessoal do casal.
Aliados do presidenciável tratam Fernanda como espécie de anticorpo político. Em conversas reservadas, descrevem o papel que ela deve cumprir caso surjam novos episódios constrangedores, como um vídeo íntimo que circula nos bastidores da política há anos. O plano é que ela apresente Flávio como um homem “convertido” e melhor do que no período em que o casamento enfrenta crises, reforçando a narrativa de mudança e família unida.
No roteiro traçado pela coordenação da campanha, Fernanda divide palanques com quadros femininos alinhados ao PL, como a ex-presidente da Caixa Daniella Marques e a deputada Simone Marquetto (PP-SP). As agendas miram diretamente mulheres evangélicas, donas de casa e trabalhadoras de baixa renda, grupos decisivos em disputas presidenciais recentes.
A ênfase na violência contra a mulher é calculada. Ao eleger o tema como marca de sua estreia, Fernanda tenta afastar a imagem de campanha exclusivamente focada em segurança pública dura e moralismo de costumes, aproximando o discurso das preocupações de quem sente na rotina o impacto de agressões, feminicídios e falta de estrutura de acolhimento.
Impactos na campanha e no entorno político
O protagonismo de Fernanda mexe com diferentes tabuleiros. Na política, adversários veem na dentista uma porta de entrada para reacender o caso das rachadinhas e questionar a integridade do projeto presidencial do PL. Na campanha, coordenadores avaliam que o ganho potencial entre mulheres e conservadores religiosos compensa o risco de reabrir o debate sobre as investigações.
No mercado imobiliário, onde o casal constrói parte de sua fortuna e reputação, a exposição pública tem efeito ambíguo. De um lado, reforça a imagem de empresários bem-sucedidos que conhecem o setor e prometem destravar investimentos. De outro, associa o segmento a suspeitas de lavagem de dinheiro e uso de imóveis como instrumento para mascarar recursos de origem obscura.
Grupos de defesa de direitos das mulheres observam com cautela o novo discurso. Entidades cobram propostas concretas para reduzir a violência doméstica, ampliar abrigos e fortalecer a rede de proteção, e não apenas menções genéricas em palanques lotados. Também lembram que políticas de segurança pública e de armamento da população, bandeiras tradicionais do bolsonarismo, costumam ter efeitos complexos nesse tipo de crime.
Dentro do PL, a aposta em Fernanda também funciona como tentativa de pacificar a base bolsonarista. A presença de Milei na convenção, o vídeo de Michelle Bolsonaro e a coreografia em torno da “onda azul” buscam mostrar unidade, enquanto a campanha tenta blindar Flávio de desgastes familiares e jurídicos.
O que vem pela frente
Nas próximas semanas, a tendência é que Fernanda Bolsonaro deixe de ser coadjuvante e se consolide como um dos rostos mais visíveis da campanha. A agenda prevê viagens em série pelo país, encontros com eleitoras e participação em eventos temáticos sobre família, fé e segurança.
O desempenho nesse circuito vai funcionar como teste duplo. Medirá a capacidade da “caravana feminina” de reverter rejeições e, ao mesmo tempo, mostrará até que ponto o passado judicial do casal ainda pesa sobre a opinião pública. Se a aposta der certo, Fernanda se firma como ativo político permanente. Se falhar, aumenta a pressão sobre o PL para recalibrar o discurso e enfrentar, de forma mais direta, as perguntas que seguem sem resposta sobre dinheiro vivo, imóveis e o alcance real do esquema das rachadinhas.