O alpinista nepalês Nirmal Purja, 43, morre em uma avalanche no Broad Peak, montanha de 8.051 metros no norte do Paquistão, durante uma expedição comercial de alta altitude. A tragédia atinge um grupo de dez pessoas e deixa ao menos quatro mortos, entre eles três guias nepaleses e uma alpinista de Omã.
Avalanche atinge grupo em uma das montanhas mais perigosas
A avalanche atinge o grupo por volta do meio-dia, no horário local, enquanto os alpinistas avançam pela rota normal de ascensão do Broad Peak, na cordilheira do Karakoram. As equipes de resgate descrevem um cenário instável, com risco elevado de novos deslizamentos de neve, vento forte e baixa visibilidade.
O Broad Peak é a 12ª montanha mais alta do mundo e concentra alguns dos terrenos mais expostos do Karakoram. Guias que conhecem a região afirmam que a combinação de grande inclinação, gelo duro e placas de neve recente torna o local especialmente vulnerável a avalanches nesta fase da temporada.
A operação de busca continua, mas o trabalho avança lentamente. Helicópteros sobrevoam a área, enquanto socorristas se movimentam com cautela pelas encostas. “Algumas dessas áreas continuam sujeitas a avalanches, então nossa equipe de resgate precisa ser extremamente cuidadosa para avaliar se não está colocando as próprias vidas em risco”, afirma a montanhista paquistanesa Naila Kiani, porta-voz do Clube Alpino do Paquistão.
Quatro mortes confirmadas e poucas chances de sobreviventes
Até agora, quatro mortes são confirmadas: Nirmal Purja; a omanense Nadhira Al Harthy; o nepalês Pur Bahadur Gurung, conhecido como “Yukta”; e a norte-americana Sarah Mallory Geis. Outros integrantes do grupo seguem desaparecidos, e as autoridades admitem que as chances de encontrar sobreviventes são muito pequenas devido ao tempo decorrido e às condições extremas.
A Fundação Nimsdai, criada por Purja, divulga uma nota em que lamenta a perda do alpinista e de seus companheiros. “Hoje, lamentamos não apenas a perda de Nims, mas de todas as vidas perdidas nesta tragédia, incluindo seus parceiros de escalada e guias de confiança”, afirma a organização. “O seu legado continuará vivo nas incontáveis vidas que transformou e nas pessoas que inspirou a escalar suas próprias montanhas”, completa.
A Elite Exped, empresa de expedições fundada por Purja, fala em um “golpe devastador” para o montanhismo. “A comunidade do montanhismo perdeu um de seus maiores escaladores, um líder que inspirou milhões por meio de sua coragem, humildade e crença inabalável de que o potencial humano é muito maior do que frequentemente imaginamos”, diz a companhia em comunicado.
Trajetória meteórica do ex-soldado que redefiniu o limite humano
Nascido em uma família humilde no Nepal, Purja serve como soldado gurkha no Exército Britânico antes de ingressar em uma unidade de elite da Marinha do Reino Unido. No auge da carreira militar, escolhe abandonar o posto para se dedicar por completo ao montanhismo de alta altitude.
Em uma virada que redefine o esporte, Purja escala os 14 picos do planeta com mais de 8.000 metros em pouco mais de seis meses, em 2019. O desafio, batizado de “Project Possible”, derruba um recorde que levava anos para ser alcançado e muda o patamar da modalidade. O feito rende o documentário “14 Peaks: Nothing Is Impossible”, lançado em plataforma global de streaming em 2021, e transforma o nepalês em celebridade mundial.
Ao longo da carreira, ele atinge 56 cumes acima de 8 mil metros, sendo 28 sem oxigênio suplementar, marco raro mesmo entre profissionais. Também participa da primeira ascensão de inverno bem-sucedida ao K2, conhecido como uma das montanhas mais letais do planeta. Em reconhecimento à trajetória, recebe condecoração da monarquia britânica por serviços ao montanhismo.
Purja usa a fama para iluminar quem tradicionalmente fica nas sombras: os guias e carregadores de alta altitude, em especial os sherpas nepaleses. “Embora fossem alpinistas extraordinários, eles não recebiam o devido reconhecimento. Eu esperava poder ajudar a valorizar seus nomes”, afirma em uma de suas falas mais citadas, que agora ganha tom de testamento.
Riscos extremos e debate sobre segurança em expedições comerciais
A morte de um alpinista considerado quase sobre-humano expõe, de forma brutal, que nenhum currículo é blindagem contra as forças da montanha. A avalanche no Broad Peak reforça a natureza imprevisível dos picos acima de 8.000 metros, onde uma mudança súbita de temperatura ou vento é capaz de descolar toneladas de neve em poucos segundos.
As condições na região do Karakoram são notoriamente instáveis. Camadas de neve recente sobre gelo antigo formam placas que se rompem sob o peso de cordadas inteiras. O aumento do fluxo de expedições comerciais, que leva mais clientes inexperientes a essas rotas, alimenta o debate sobre se o risco está sendo corretamente comunicado e gerido por operadores e autoridades locais.
A Elite Exped, criada por Purja em 2021, está no centro dessa indústria. A empresa oferece pacotes que prometem levar clientes a cumes como Everest, K2 e Broad Peak com forte apoio de guias nepaleses de elite. A tragédia agora deve pressionar o setor a rever protocolos, incluindo limites de temporada, capacitação obrigatória e critérios de autorização para ascensões em massa.
Para comunidades do Nepal e do Paquistão que vivem do montanhismo, o impacto é duplo. A morte de guias experientes fragiliza um conhecimento construído geração após geração. A eventual retração de clientes e investidores ameaça a principal fonte de renda de vilarejos inteiros, já vulneráveis às mudanças climáticas e à instabilidade política da região.
O drama também tem face pessoal. Nadhira Al Harthy, que morre ao lado de Purja, se torna símbolo em Omã ao levar a bandeira do país a alguns dos cumes mais altos do planeta. Em uma de suas frases mais lembradas, definia a fé como motor de resiliência: “Nossa fé… ela faz você se levantar novamente. Ela lhe dá força, dá poder”.
Últimas palavras à montanha e legado em disputa
Poucos dias antes da avalanche, Purja publica uma mensagem nas redes sociais, acompanhada de uma foto no glaciar do Broad Peak. “Broad Peak, não peço nada além de uma passagem segura para subir e voltar a descer”, escreve. As palavras, agora, circulam como despedida involuntária do alpinista que construiu carreira desafiando estatísticas de morte em alta altitude.
Amigos e colegas descrevem Purja como um líder carismático, disciplinado ao extremo e obcecado por performance. Admiradores o veem como herói que “tornou o impossível possível”, como resume Naila Kiani. Críticos, porém, apontam que a busca por recordes e o modelo de expedições comerciais em grande escala pressionam ainda mais ecossistemas frágeis e donos de pouca voz, como os carregadores locais.
As discussões devem se intensificar nas próximas semanas, à medida que familiares e governos decidem como honrar a memória de Purja e das demais vítimas. Organizações ligadas ao montanhismo já falam em bolsas de treinamento para guias nepaleses e paquistaneses, reforço em seguros obrigatórios e criação de fundos permanentes de apoio a famílias de profissionais mortos em serviço.
As equipes de resgate seguem na montanha, sob neve e vento, em busca dos desaparecidos. O Broad Peak volta a lembrar que, acima de certo ponto, nenhuma fama, tecnologia ou preparação é garantia de retorno ao vale. O futuro do montanhismo de alta altitude, agora, passa por responder a essa evidência sem esquecer quem pagou o preço mais alto.
Quem foi Nirmal Purja, o alpinista que morreu na avalanche no Paquistão?
Nirmal Purja foi um alpinista nepalês de 43 anos, ex-soldado de forças especiais britânicas, que ganhou projeção mundial ao escalar os 14 picos do planeta acima de 8.000 metros em pouco mais de seis meses, fundar a empresa Elite Exped e a Fundação Nimsdai e se tornar símbolo do montanhismo nepalês.
O que aconteceu na avalanche que matou Nirmal Purja e outros alpinistas no Broad Peak?
Uma avalanche atingiu um grupo de dez alpinistas por volta do meio-dia, no horário local, enquanto eles escalavam o Broad Peak, montanha de 8.051 metros no Karakoram, no norte do Paquistão, provocando pelo menos quatro mortes confirmadas, entre elas Nirmal Purja, e deixando desaparecidos em condições extremas que dificultam o trabalho das equipes de resgate.
Quantas pessoas morreram e quantas estão desaparecidas após a avalanche no Himalaia?
A avalanche que atinge o grupo de dez alpinistas na região do Broad Peak deixa quatro mortes confirmadas até agora — Nirmal Purja, Nadhira Al Harthy, Pur Bahadur Gurung “Yukta” e Sarah Mallory Geis — e um número ainda não divulgado de desaparecidos, já que as operações de resgate seguem em curso sob risco de novas avalanches.
Qual era o recorde mundial de Nirmal Purja como montanhista?
O principal recorde de Nirmal Purja foi escalar os 14 picos do planeta com mais de 8.000 metros em pouco mais de seis meses, um tempo muito inferior ao de qualquer tentativa anterior, façanha que rendeu o projeto “14 Peaks”, um documentário em plataforma global de streaming e consolidou sua imagem como um dos maiores alpinistas da história.
Onde exatamente ocorreu a avalanche que matou Nirmal Purja no Paquistão?
A avalanche que mata Nirmal Purja ocorre no Broad Peak, uma montanha de 8.051 metros localizada na cordilheira do Karakoram, no extremo norte do Paquistão, em área glacial de alta altitude próxima à fronteira com a China, considerada uma das zonas de montanhismo mais técnicas e perigosas do mundo.
Quais as condições climáticas que contribuíram para a avalanche no Broad Peak?
As condições climáticas que contribuem para a avalanche no Broad Peak incluem neve recente acumulada sobre camadas antigas de gelo, variações bruscas de temperatura, vento forte e encostas muito inclinadas, cenário típico do Karakoram nesta fase da temporada e que torna a região altamente suscetível a rompimentos súbitos de placas de neve.