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Polícia desarticula grupo que planejava ataques em Brasília nas eleições de 2026

Investigação cumpre oito mandados de busca em cinco estados. Coletiva na sede do MJSP detalha o perfil dos jovens investigados, o mapeamento de prédios públicos, incluindo a planta baixa do Palácio do Planalto
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A Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), em conjunto com o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), deflagrou nesta terça-feira (4) a Operação Rede Interrompida. A ação cumpriu oito mandados de busca e apreensão em cinco unidades da Federação, sendo elas:  Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Pernambuco e Rio Grande do Sul. O objetivo era desarticular um grupo extremista que planejava ações violentas em Brasília programadas para o período eleitoral de outubro de 2026.

Apesar de todos os alvos residirem fora da capital federal, as apurações apontam a cidade como o ponto focal das ações do grupo.

“Brasília é o que chamamos na representação de centro de gravidade dos atos a serem praticados. Eles planejavam ações e compartilhavam documentos que mostravam como construir explosivos, além de mapas e plantas baixas de edifícios públicos para a escolha primária de alvos”, explicou Maurilio Coelho, coordenador de inteligência da PCDF.

A Origem da Inteligência e a Estrutura do Grupo

A apuração teve início a partir de informações repassadas pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin) ao Ciberlab (Laboratório de Operações Cibernéticas da Senasp/MJSP). O laboratório mapeou a infraestrutura digital do grupo e identificou uma divisão funcional clara: de um lado, um núcleo ideológico; do outro, uma frente operacional.

Com o relatório do Ciberlab, a Divisão de Prevenção e Combate ao Extremismo Violento (DPCEV), vinculada ao Departamento de Inteligência da PCDF, instaurou o inquérito policial. As diligências revelaram que os suspeitos não se limitavam a trocas de mensagens informais, apresentando uma organização no iter criminis (o caminho percorrido para a prática do delito).

“Não se trata simplesmente de existir um grupo aberto numa plataforma, algumas pessoas entrarem ali e terem algum tipo de conversa. A investigação documentou uma sistematização: mais de um grupo, uma série de diálogos, reunião de documentos e discussão sobre recrutamento de novos integrantes. Há uma série de passos dados no ‘iter criminis’ que exigiram uma atuação imediata.” Anchieta Nery, Diretor de Operações Integradas e de Inteligência da Senasp.

 

Foto: Reprodução PCDF

Mapeamento de Alvos

Análises prévias do material digital demonstraram que os integrantes elaboraram desenhos e demarcações da área central de Brasília. O grupo identificou a localização de ministérios, do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal (STF) para a definição do que classificavam como “alvos primários”. Entre os arquivos difundidos nas conversas, estava a planta baixa do Palácio do Planalto.

Segundo a coordenação de inteligência da PCDF, a aquisição desses documentos ocorreu por meio de fontes abertas. Prédios públicos que passaram por reformas recentes tiveram suas plantas e detalhes arquitetônicos publicados em portais de transparência ou editais de licitação, gerando uma vulnerabilidade de segurança que passou a ser monitorada pelas autoridades para a eventual derrubada dos links.

Em relação à motivação, as forças de segurança esclareceram que o grupo não citava autoridades nominais nem apresentava viés partidário definido. O discurso disseminado era de oposição genérica ao “sistema político como um todo”, acompanhado por manifestações de ódio e conteúdos enquadrados na legislação antirracismo.

Perfil dos Investigados

Os alvos da operação têm idades entre 19 e 31 anos, com maior concentração na faixa dos 19 aos 25 anos, não possuem antecedentes criminais e exercem ocupações diversas, desde trabalhadores do setor privado até desempregados.

Entre os locais vasculhados durante as diligências da manhã desta terça-feira esteve o alojamento de um seminarista vinculado a um mosteiro em Pernambuco. O investigador e coordenador do Ciberlab, Alessandro Barreto, destacou a diversidade do perfil dos suspeitos ao pontuar que o jovem seminarista mantinha publicações de alta complexidade e participava ativamente das discussões sobre a estruturação da rede.

Objetivo das Buscas e Fase da Investigação

A PCDF optou por não solicitar mandados de prisão preventiva nesta etapa. O objetivo central das buscas foi a apreensão de celulares, computadores e mídias digitais para medir o grau de maturidade do planejamento e checar se o grupo já havia adquirido materiais para a montagem de artefatos.

Durante o cumprimento das medidas nos cinco estados, que contou com o apoio das respectivas Polícias Civis, nenhum armamento ou artefato explosivo pronto foi localizado. Todo o material eletrônico recolhido passará por perícia técnica.

“A Polícia Civil precisava avançar para a fase ostensiva da operação e cumprir as buscas para justamente encontrar respostas: em que fase de planejamento esse grupo estava e que tipo de itens já haviam amealhado. A PCDF apresentará essa resposta conclusiva possivelmente no relatório final.” Anchieta Nery, Diretor de Operações da Senasp.

O Diretor-Geral da PCDF, José Werick, ressaltou que a ação integrada teve caráter preventivo.

“A articulação entre as polícias civis dos estados, a PCDF e o Ministério da Justiça foi fundamental para conter a progressão e evitar a escalada de ações potencialmente violentas.”

Foto: Reprodução PCDF

O Telegram e o Enquadramento como Rede Social

A utilização de canais públicos do aplicativo Telegram para a difusão dos conteúdos extremistas foi um dos pontos centrais abordados pelos representantes  durante a coletiva em Brasília.

A pasta adotou um posicionamento firme em relação às obrigações legais das plataformas de mensageria que oferecem recursos de conversas abertas:

“Em relação ao Telegram, observa-se que o compartilhamento desses planejamentos ocorria em grupos acessíveis a qualquer pessoa. De acordo com o Marco Civil da Internet, quando falamos de grupos abertos, o tratamento do termo de responsabilidade da plataforma é o mesmo de qualquer rede social. Plataforma de mensageria com grupo aberto é rede social e, portanto, está submetida a um dever de cuidado de impedir a circulação massiva de conteúdos criminosos.”  Victor Fernandes, Secretário Nacional de Direitos Digitais.

Tipificação Jurídica

Neste momento, o inquérito policial instaurado pela PCDF apura a prática dos seguintes crimes:

  • Associação Criminosa (Art. 288 do Código Penal)
  • Incitação ao Crime (Art. 286 do Código Penal)
  • Apologia de Crime ou Criminoso (Art. 287 do Código Penal)
  • Delitos previstos na Lei Antirracismo (Lei nº 7.716/1989)
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