Após um dia de reuniões no Palácio do Campo das Princesas, o deputado federal Túlio Gadêlha, do PSD, reafirma que continua candidato ao Senado por Pernambuco e tenta encerrar rumores de desistência.
O movimento acontece em meio a disputas internas no PSD, pressão de aliados e uma guerra silenciosa por apoio de prefeitos, que hoje definem quem entra competitivo na corrida pelo Senado no estado.
Raquel Lyra entra em campo para segurar candidato
Insatisfeito com o ritmo da própria campanha, Gadêlha vinha reclamando nos bastidores de falta de impulso ao seu nome. A tensão chega ao ponto de interlocutores governistas darem como certa a sua retirada da disputa.
Presidente do PSD em Pernambuco e principal fiadora da candidatura, a governadora Raquel Lyra reage. Ela chama prefeitos, deputados e líderes políticos para o Palácio e monta uma corrente pública de apoio, inclusive nas redes sociais, para demonstrar que o projeto segue de pé.

Nesse movimento, Raquel tenta também reverter apoios já comprometidos com adversários. O alvo principal são prefeitos alinhados ao senador Fernando Dueire, do PSD, e ao senador Humberto Costa, do PT, que concorre na chapa do prefeito do Recife, João Campos, adversário direto da governadora no tabuleiro estadual.
Mesmo com a ofensiva, um ato pró-Humberto Costa reúne 32 prefeitos, de uma lista de 45 que declaram apoio ao petista. O número expõe o limite da articulação do governo: a base de Gadêlha cresce, mas não consegue esvaziar totalmente o campo rival.
Postagem nas redes zera boatos de desistência
Pressionado a se posicionar, Túlio Gadêlha escolhe as redes sociais para enviar um recado direto ao eleitorado e aos aliados. Na publicação, ele cita o desempenho na última disputa e exibe o peso do apoio que diz ter acumulado desde então.
“Sou candidato ao Senado por Pernambuco. Me orgulho em dizer que dobrei minha votação na última eleição, tive a confiança de 134.391 pernambucanos. Fui escolhido pela governadora Raquel e conto nesse projeto com mais de 100 prefeitos e prefeitas, que conhecem o meu trabalho e meus valores. O Senado nos espera!”, afirma o deputado.
A fala tem dois alvos. Para fora, busca afastar a imagem de fragilidade e mostrar capilaridade política, com mais de 100 prefeitos na base. Para dentro, funciona como cobrança indireta ao próprio partido, que precisa organizar a campanha e reduzir o ruído entre seus caciques.
A reafirmação pública também reposiciona Gadêlha no jogo sucessório. Com o cenário do Senado ainda em construção, o PSD tenta se projetar como protagonista em Pernambuco e não apenas como coadjuvante na disputa entre campos ligados ao governo federal e à oposição local.

Suplentes viram foco de nova crise interna
No momento em que a candidatura tenta ganhar tração, a definição da chapa de suplentes acende outro foco de crise. Na véspera da postagem, Gadêlha comunica a jornalistas que já escolheu seus dois suplentes: a ex-deputada Dulci Amorim e o vice-presidente do PSD em Pernambuco, André Teixeira Filho, homem de confiança da governadora.
A decisão é anunciada sem alinhamento prévio com Raquel Lyra. Uma entrevista coletiva marcada para formalizar os nomes acaba desmarcada, sinal de que algo desanda. A governadora, que defende uma apresentação conjunta para exibir unidade, não gosta de ver a definição sair como ato isolado do deputado.
O problema se agrava quando o nome de André Teixeira chega aos ouvidos do deputado Eduardo da Fonte, liderança influente e acostumada a participar de decisões estratégicas. Ele reage mal à indicação, abrindo uma nova frente de atrito num partido que ainda tenta se consolidar como eixo do governo estadual.
Na prática, a disputa pelos suplentes revela mais do que uma briga de cadeiras. Suplência de Senado significa representação permanente em Brasília, acesso a estrutura política, influência em emendas e na agenda do mandato. Por isso, cada nome na chapa carrega peso desproporcional, especialmente em um cenário de alianças frágeis.
Disputa redesenha forças em Pernambuco
Ao insistir na candidatura, Gadêlha reforça o plano do PSD de ter uma voz própria em Brasília e de reduzir a dependência de acordos com outros grupos. O apoio declarado de mais de 100 prefeitos amplia a presença do partido no interior, região decisiva em eleições majoritárias.
O movimento também pressiona o campo adversário. A base que se forma em torno de Humberto Costa, com 45 prefeitos declarados e 32 presentes no ato de apoio, mostra força, mas passa a disputar espaço direto com um candidato governista disposto a se colocar como alternativa ao petista.
Dentro do governo Raquel Lyra, o caso é teste de liderança. A capacidade de manter Gadêlha na disputa, acomodar Dulci Amorim e André Teixeira na chapa, e ainda administrar a insatisfação de Eduardo da Fonte, indica até onde a governadora consegue comandar um bloco heterogêneo em ano de pressão eleitoral.
Setores ligados ao PSD e às prefeituras acompanham o desfecho com atenção. Prefeitos tendem a apostar em candidaturas consideradas viáveis e com acesso real a recursos em Brasília. Um tropeço na montagem da chapa pode empurrar parte desses aliados para acordos paralelos com senadores já estabelecidos ou com candidaturas adversárias.
Os próximos dias devem ser marcados por novas rodadas de negociação. Aliados esperam uma apresentação oficial e conjunta da chapa de Gadêlha, com definição clara dos suplentes e sinal de trégua interna. Se a costura funcionar, o PSD pode sair mais forte para a disputa ao Senado. Se fracassar, o partido corre o risco de transformar uma candidatura competitiva em mais um capítulo de fragmentação política em Pernambuco.