SOJA3 ri com lucro e sobe 504% no Ebitda no 2º trimestre

Boa Safra registra lucro e crescimento expressivo no Ebitda, impulsionada por receita robusta e carteira de pedidos diversificada.
Redação NC News
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A Boa Safra, dona do código SOJA3 na Bolsa, volta ao azul no segundo trimestre com lucro líquido de R$ 2,7 milhões e receita de R$ 124,7 milhões. O resultado marca uma guinada após prejuízo um ano antes e vem acompanhado de forte expansão de margens e de uma carteira de pedidos recorde.

Lucro modesto, margens em disparada

O lucro ainda é considerado pequeno pela própria direção, mas simboliza uma mudança relevante na dinâmica financeira da companhia. O Ebitda ajustado salta 504%, de R$ 4,6 milhões para R$ 27,7 milhões, e a margem Ebitda ajustada avança de 4% para 22%, em um trimestre em que a receita cresce 23%.

O lucro bruto sobe 83%, para R$ 69,7 milhões, e a margem bruta passa de 38% para 56%. A combinação de custos mais favoráveis e a entrada mais forte de culturas além da soja, serviços e insumos puxa essa melhora. O movimento reduz a dependência do ciclo tradicional de venda de sementes de soja, concentrado no segundo semestre.

O CEO e cofundador, Marino Colpo, resume o alívio interno com a virada: “É um trimestre com lucro, um lucro pequeno, mas é lucro. Não é tão simples fazer lucro no primeiro e no segundo trimestre na nossa atividade”.

O comentário reforça o peso simbólico do desempenho em um período historicamente fraco para o setor.

 

Diversificação ganha peso e suaviza sazonalidade

A carteira de pedidos atinge R$ 1,804 bilhão em junho, o maior nível já registrado pela empresa, alta de 4% em um ano. Dentro desse montante, os pedidos de sementes de soja, ainda o principal negócio, recuam 12%, para R$ 1,467 bilhão. A lacuna é preenchida pelo avanço agressivo das outras frentes de negócios.

Receitas ligadas a novas culturas, serviços e insumos crescem 90% no trimestre, diluindo a dependência da soja e suavizando a sazonalidade típica. O CFO, Felipe Marques, aponta essa virada como um dos pilares da mudança estrutural:

“A gente cresce 90% quando a gente olha os outros negócios da companhia em relação a 2025. Isso já está começando a impactar positivamente não só o top line, mas também o resultado da companhia”.

Colpo atribui a queda na carteira de soja a um produtor mais cauteloso. Restrição de crédito, insumos e fretes mais caros e uma relação de troca menos favorável empurram a decisão de compra para mais perto do plantio. O executivo, porém, não vê recuo expressivo na área brasileira de soja e diz que as vendas da Boa Safra caminham ligeiramente acima da média do mercado.

Estratégia muda: menos corrida por volume, mais foco em margem

Após um ciclo de expansão acelerada, a direção decide pisar no freio do crescimento e concentrar esforços na rentabilidade. A empresa preserva uma fatia em torno de 10% do mercado de sementes de soja, mas abandona a lógica de ganhar participação a qualquer preço. Descontos mais agressivos e estrutura comercial inflada cedem espaço para uma atuação mais seletiva.

“Esse ano a gente está contando uma outra história, uma outra meta. Vamos tirar o foco em crescimento e vamos recuperar a margem”, afirma Colpo.

O discurso ajuda a explicar por que margens sobem mais que a receita. O ajuste modera a ambição de expansão rápida, mas fortalece o caixa e a resiliência do negócio em um ambiente de juros altos e crédito mais escasso ao produtor.

No caixa, o contraste é nítido. A geração operacional fica positiva em R$ 204 milhões no primeiro semestre, depois de um consumo de R$ 303 milhões no mesmo período do ano anterior. A necessidade de capital de giro recua de R$ 1,241 bilhão para R$ 769 milhões, aliviando a pressão sobre endividamento e custo financeiro.

Renegociações e concorrência em retração

A melhora do capital de giro vem de um ajuste fino na relação com fornecedores e clientes. A companhia reduz antecipações de pagamentos e renegocia prazos, buscando alinhá-los aos prazos que concede ao produtor. Ao mesmo tempo, interrompe a expansão da capacidade de sementes de soja neste ciclo, o que corta investimentos mais pesados.

O ambiente competitivo também muda. Concorrentes enfrentam dificuldades de liquidez e alguns entram em recuperação judicial, o que reduz a oferta de sementes no mercado.

“Tem tido RJs no nosso setor. Nossos concorrentes a gente sente que eles estão diminuindo de tamanho”, diz Colpo.

Menos oferta, somada a problemas climáticos que afetam sementes de maior qualidade, abre espaço para empresas mais capitalizadas reforçarem posição.

Para a Boa Safra, isso significa uma combinação de preços mais sustentados e menor necessidade de concessões comerciais agressivas. O cenário deve favorecer companhias com balanços mais saudáveis e capacidade de manter o fluxo de entrega aos produtores em meio à escassez.

Impacto no investidor e o desafio do terceiro trimestre

No mercado financeiro, o desempenho chama atenção dos acionistas de SOJA3, que acompanham um movimento de recuperação após um ano de consumo de caixa e pressão sobre margens. Os números do segundo trimestre indicam que a estratégia de priorizar rentabilidade começa a se refletir em lucro, geração de caixa e menor dependência da soja.

A carteira recorde de R$ 1,804 bilhão sinaliza receita futura contratada, mas a direção evita euforia. A queda de 12% nos pedidos de soja mostra que ainda há um “gap” a ser fechado, como define Colpo:

“A gente tem esse gap para fechar no terceiro trimestre, a gente tem muito trabalho a fazer, tem muita venda a fazer, mas ainda tem um mercado para acontecer”.

O período atual, tradicionalmente o mais importante para o faturamento, se torna decisivo para consolidar a virada. Se as vendas de soja reagirem como a empresa espera, a combinação de carteira robusta, diversificação e margens maiores tende a produzir um segundo semestre mais estável que o de anos anteriores.

Para o setor de sementes e insumos, o movimento aponta para uma fase de consolidação. Empresas com estrutura frágil encolhem ou saem de cena, enquanto grupos com caixa, acesso a crédito e portfólio diversificado ganham espaço. A Boa Safra tenta se posicionar nesse bloco, trocando a corrida por tamanho pela construção de um negócio mais previsível e lucrativo.

Os próximos trimestres devem testar a consistência da estratégia. A recuperação de margens já aparece, a diversificação reduz a montanha-russa sazonal e o caixa volta a ficar positivo. A questão agora é se a demanda por sementes de soja reagirá na velocidade necessária para sustentar o novo ciclo de estabilidade que a companhia tenta inaugurar.

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