Emenda Pix de R$ 396 mil paga posto do cunhado de deputado

Verba indicada por Ricardo Maia foi usada pela Prefeitura de Ribeira do Pombal para comprar combustível; parlamentar nega ter escolhido fornecedor
Redação NC News
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Uma emenda parlamentar de R$ 396 mil do deputado federal Ricardo Maia (MDB-BA) financia a compra de combustíveis em Ribeira do Pombal, no interior da Bahia, e acaba no caixa do posto de gasolina do cunhado do parlamentar.

O dinheiro público abastece máquinas usadas na manutenção de estradas vicinais do município, mas também reforça o faturamento do Posto Canabrava, de Antonio Wendell Pereira de Souza, casado com a irmã de Maia e pai de um vereador aliado.

Emenda Pix, estradas e um único posto beneficiado

O recurso sai do Orçamento da União e chega à prefeitura por meio de transferência especial, a chamada emenda Pix, mecanismo que hoje simplifica o repasse de verbas de parlamentares a municípios, com menos exigências na prestação de contas detalhada por item.

De acordo com documentos de prestação de contas do município, a prefeitura usa integralmente os R$ 396 mil para comprar combustíveis no Posto Canabrava, em Ribeira do Pombal. O volume abastece máquinas pesadas que fazem a manutenção de estradas vicinais, vitais para o transporte de moradores e para o escoamento da produção agrícola local.

Na prática, a emenda melhora a infraestrutura viária do município, que depende de vias não pavimentadas para ligar comunidades rurais à sede. Ao mesmo tempo, concentra em um único fornecedor todo o gasto com gasolina e diesel coberto pelo recurso federal, num mercado em que outros postos disputam clientes em um ambiente de margens apertadas e sensível a qualquer aumento de demanda.

Relações familiares e conflito de interesses

O Posto Canabrava pertence a Antonio Wendell Pereira de Souza, empresário conhecido na cidade e aliado político de Ricardo Maia. Ele é pai de João Vitor Maia, eleito vereador de Ribeira do Pombal em 2024 pelo MDB, com apoio direto do deputado.

A combinação entre o dinheiro da emenda assinada por Maia e a empresa do cunhado cria um potencial conflito de interesses. O parlamentar direciona a verba para o município, a prefeitura executa o gasto e o parente se torna o fornecedor contratado para entregar a gasolina e o diesel.

O gabinete de Ricardo Maia nega qualquer ingerência. Em nota, afirma que “não houve indicação, interferência ou participação do deputado na escolha do fornecedor”. A prefeitura de Ribeira do Pombal, responsável pelos contratos de compra, sustenta que “o fornecimento decorre de procedimento licitatório regularmente realizado”.

Ainda que o processo siga o rito formal, a ligação familiar entre o autor da emenda e o dono do posto acende alerta em órgãos de controle e entre especialistas em transparência. A legislação veda que parlamentares usem o cargo para beneficiar familiares de forma direta. Situações em que parentes aparecem como fornecedores de contratos alimentados por emendas tendem a ser escrutinadas com mais rigor.

Pressão por transparência no uso das emendas

A modalidade de transferência especial, apelidada de emenda Pix, transfere o dinheiro diretamente para o caixa do município, que passa a ter maior liberdade para aplicar o recurso em ações gerais, como investimentos ou custeio, desde que dentro de grandes áreas previamente definidas.

Na ponta, essa flexibilidade reduz a burocracia, mas também cria brechas para decisões opacas. No caso de Ribeira do Pombal, todo o montante de R$ 396 mil é usado em combustíveis num único posto, o do cunhado do deputado, sem repartição com outros fornecedores locais de gasolina ou diesel.

O episódio alimenta o debate sobre a forma como as emendas parlamentares influenciam economias locais. As máquinas pesadas seguem funcionando, as estradas vicinais continuam recebendo manutenção e produtores rurais conseguem escoar mercadorias com menos transtornos. Ao mesmo tempo, um posto específico amplia receita e visibilidade graças a um contrato alimentado por verba carimbada com o nome do cunhado deputado.

Concorrentes podem sair perdendo. Em cidades pequenas, a preferência do poder público por um determinado posto pode redesenhar rapidamente o mercado de combustíveis, setor que já enfrenta oscilações frequentes de preços e margens de lucro comprimidas, enquanto consumidores seguem atentos a cada reajuste de gasolina e diesel na bomba.

Possíveis investigações e impacto político

As justificativas oficiais de gabinete e prefeitura não encerram a controvérsia. A concentração da verba no posto de um familiar do parlamentar abre espaço para questionamentos de opositores e para eventuais apurações de órgãos de controle federais e estaduais, que costumam monitorar a execução de emendas Pix.

Ricardo Maia, que constrói base política em sua região com apoio de prefeitos e vereadores, pode enfrentar desgaste na imagem ao ver seu sobrenome associado a suspeitas de nepotismo na destinação de verbas. O envolvimento indireto do filho do cunhado, hoje vereador em Ribeira do Pombal, torna o caso ainda mais sensível num ambiente de disputa política local permanente.

Se confirmada a regularidade formal da licitação, o episódio deve reforçar a discussão sobre ética e transparência no uso de emendas e não necessariamente levar a punições imediatas. A pressão, porém, tende a crescer por mudanças nas regras de repasse e fiscalização, com exigência de critérios mais rígidos para evitar que a gasolina paga com dinheiro público vire combustível para negócios de parentes de políticos.

Nos próximos meses, partidos de oposição e entidades de controle social podem cobrar explicações formais, acesso completo aos contratos e critérios de escolha do Posto Canabrava. A dúvida que permanece é se esse caso se tornará ponto de inflexão para endurecer as regras das emendas Pix ou apenas mais um episódio em meio ao aumento contínuo do peso dessas verbas na política brasileira.

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