Furacão leva chuva e neve ao Havaí em fenômeno raro

Furacão Lala causa tempestades intensas e neve incomum no pico do Mauna Kea durante o verão havaiano.
Redação NC News
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O furacão Lala, de categoria 1, atinge o Havaí com chuva extrema, ventos acima de 190 km/h e inundações, enquanto o topo do Mauna Kea registra neve em pleno agosto.

Neve em pleno furacão tropical

O cenário mais surpreendente desta semana no Pacífico se concentra na Ilha Grande do Havaí. Enquanto comunidades ao nível do mar lidam com enchentes e deslizamentos, o ponto mais alto do arquipélago amanhece coberto por neve, em meio à passagem de um furacão tropical.

O Mauna Kea, vulcão adormecido com cerca de 4.205 metros de altitude, transforma-se em paisagem de inverno. A combinação de umidade extrema trazida pelo Lala com o frio típico das grandes altitudes cria um contraste raro: praia alagada embaixo, montanha nevada no topo.

Rangers do Centro de Mauna Kea Stewardship relatam acúmulo de neve e condições severas no cume, com acesso restrito. A circulação externa do furacão e a parede do olho atingem a ilha mesmo sem o centro do sistema tocar terra.

Ventos de 190 km/h e sensação de -4°C no cume

No momento de maior aproximação do Lala, o topo do Mauna Kea registra rajadas violentas. “No momento de maior aproximação do furacão, o topo do Mauna Kea registrou rajadas extremamente fortes, superiores a 190 km/h, enquanto a sensação térmica chegou a valores próximos de -4°C”, afirma o meteorologista Luiz Fernando Nachtigall.

Nesse ambiente, a enorme quantidade de vapor d’água empurrada pelo ciclone encontra ar muito mais frio do que nas praias havaianas. O relevo colossal força o ar úmido a subir as encostas, processo conhecido como levantamento orográfico. Ao subir, o ar esfria, o vapor condensa e a precipitação se intensifica.

Em altitudes próximas ao cume, a temperatura cai a ponto de a água congelar ainda em queda. O que chega ao solo não é chuva, mas neve, enquanto poucos quilômetros abaixo a mesma nuvem despeja aguaceiros tropicais.

Chuva extrema e inundações nas áreas baixas

Nas partes baixas da Ilha Grande, o Lala reforça a fama de ciclone excepcionalmente chuvoso. Em áreas voltadas para os ventos dominantes do furacão, os acumulados ultrapassam 900 milímetros em poucos dias, sobrecarregando rios, encostas e redes de drenagem.

Em Laupāhoehoe, no nordeste da ilha, medições preliminares indicam 43,55 polegadas de chuva, o equivalente a aproximadamente 1.107 milímetros. Ruas ficam submersas, pontes são monitoradas e moradores enfrentam deslizamentos, interrupções de energia e danos a plantações.

O centro do furacão passa a cerca de 40 a 50 quilômetros da costa da Ilha Grande, uma aproximação incomum tão perto de um território habitado no arquipélago. Mesmo sem landfall, a força dos ventos e o volume de água colocam o Lala entre os eventos mais marcantes da era de observações modernas no Havaí.

Bizarrice meteorológica em agosto tropical

A neve no Mauna Kea não é totalmente inédita. O cume registra episódios de inverno com flocos e até tempestades de neve, apesar da latitude tropical. O que chama a atenção agora é o calendário e o contexto: pleno agosto, auge do calor no hemisfério Norte, sob a influência direta de um furacão.

“Um furacão tropical, no meio do Pacífico, em pleno agosto, provocar neve no topo de um vulcão havaiano”, resume Nachtigall, classificando o episódio como uma das grandes bizarrices meteorológicas do ano. O Lala amplia o debate sobre como sistemas típicos de clima quente interagem com ambientes de alta montanha.

Especialistas em meteorologia e clima usam o caso como laboratório ao ar livre. O furacão fornece a umidade; a montanha, a ascensão forçada; e a altitude, o frio. O resultado é um evento extremo ao nível do mar e, simultaneamente, um quadro quase alpino acima dos 4 mil metros.

Impactos em turismo, ciência e planejamento de riscos

No Mauna Kea, a neve somada a rajadas acima de 190 km/h afeta diretamente a rotina de astrônomos, técnicos e visitantes. Observatórios instalados no cume, entre os mais importantes do planeta, precisam ajustar operações diante da combinação de vento, gelo e visibilidade reduzida.

O turismo de altitude, que costuma levar visitantes para ver o nascer das estrelas sobre o Pacífico, entra em modo de espera. Rangers restringem o acesso por segurança, já que neve sobre solo vulcânico, associada a rajadas intensas, aumenta o risco de acidentes em estradas íngremes e trilhas expostas.

Nas comunidades costeiras e rurais, o foco permanece na resposta às inundações. Agricultores contabilizam perdas em lavouras encharcadas, estradas rurais ficam danificadas e sistemas de abastecimento de água são testados ao limite pelo excesso de chuva e por deslizamentos.

Autoridades locais e centros de pesquisa climática acompanham o episódio com atenção redobrada. A combinação de furacão tropical, relevo extremo e neve em agosto levanta sinais de alerta sobre a variabilidade do clima no Pacífico e reforça a necessidade de planos de emergência que considerem cenários menos óbvios.

O pós-Lala promete um longo período de análise. Cientistas devem destrinchar dados de vento, chuva e temperatura em diferentes altitudes, enquanto gestores hawaiianos revisam protocolos de prevenção e resposta. O Havaí, mais uma vez, descobre que seu paraíso de praias e vulcões também pode ser palco de extremos pouco previsíveis.

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