A cidade de São Paulo registrou uma sequência de incêndios em prédios nos últimos dias, com ocorrências em diferentes regiões da capital. Apartamentos e imóveis comerciais foram atingidos pelas chamas, mobilizando equipes do Corpo de Bombeiros e chamando a atenção para um problema que pode estar muito mais próximo da rotina de moradores e trabalhadores do que se imagina: a segurança das edificações diante de um incêndio.
Entre os casos registrados recentemente estão ocorrências no Centro, na Bela Vista, República e Santa Cecília. Em um dos episódios, no dia 5 de agosto, o fogo atingiu o 8º andar de um prédio e mobilizou oito viaturas dos bombeiros. Dois dias depois, outro incêndio em um prédio comercial na Avenida Brasil também exigiu a atuação das equipes. Na Bela Vista, no mesmo dia, um edifício na Rua Treze de Maio foi atingido pelas chamas e seis viaturas foram deslocadas para o atendimento.
Os casos têm características diferentes e não há indicação de que tenham uma causa comum. Mas a sequência levanta uma pergunta importante: o que precisa estar em dia para que um prédio esteja realmente preparado quando o fogo começa?
A resposta envolve muito mais do que extintores espalhados pelos corredores. Documentação, instalações elétricas, hidrantes, alarmes, sinalização, portas corta-fogo, treinamento e manutenção fazem parte de uma estrutura de prevenção que precisa continuar funcionando mesmo depois que uma vistoria é realizada.
Em entrevista ao NC News, o Major Palumbo do Corpo de Bombeiros da Polícia Militar do Estado de São Paulo, alerta que a prevenção começa pela regularidade do imóvel e o cumprimento das exigências de segurança de acordo com as características de cada edificação.
“Bom, primeiro, quando a gente fala dos incêndios, é primordial que você tenha o Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros, de acordo ali com a característica da sua execução de trabalho. Então, cada tipo de edificação tem uma exigência e também de acordo com a altura e tamanho desse prédio, fazendo com que esses equipamentos sejam instalados de uma maneira que compreendam as normas contra incêndios e também as legislações municipais”, explica o Major Palumbo.
O Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB) é um dos principais documentos relacionados à segurança contra incêndio. As exigências, porém, não são iguais para todos os imóveis: um prédio residencial, uma loja, um escritório ou uma indústria podem precisar de medidas diferentes, de acordo com o tamanho, a ocupação e o nível de risco.
Além do documento emitido pelo Corpo de Bombeiros, a edificação também precisa manter os equipamentos e sistemas de proteção em condições adequadas de funcionamento. É justamente aí que a prevenção deixa de ser apenas uma questão documental e passa a fazer parte da rotina de quem administra o imóvel.

Como funciona a obtenção do AVCB?
Para conseguir o AVCB, o imóvel precisa primeiro ser adequado às exigências de segurança previstas para aquele tipo de edificação. De acordo com o Major Palumbo, normalmente esse trabalho envolve a contratação de profissionais especializados, como engenheiros e arquitetos, que avaliam a estrutura e indicam as adaptações necessárias.
“Então, normalmente, quando você contrata um engenheiro, quando você vai atrás de um arquiteto, de um especialista nessa área, ele vai fazer a adequação das exigências legais à sua edificação. Então, imagina um prédio residencial que acabou de ser formado, ele precisa ter ali a entrada, dar a entrada pelo site do Corpo de Bombeiros nesses documentos, fazendo ali um processo pra que você inicie isso”, pontua o Major Palumbo.
Depois da análise e da aprovação do projeto, quando exigido, são implantadas as medidas de segurança previstas. Na sequência, o responsável pode solicitar a vistoria para verificar se aquilo que foi projetado foi efetivamente instalado.
O processo varia conforme as características da edificação. Em alguns casos, há procedimentos simplificados ou isenções de determinadas etapas, enquanto prédios maiores ou com atividades de maior risco estão sujeitos a exigências mais rigorosas.
Uma indústria, por exemplo, pode ter medidas de proteção diferentes das exigidas em um edifício exclusivamente residencial.
A segurança vai além do AVCB
Ter o AVCB não significa que o prédio pode deixar de fazer manutenção. A estrutura precisa continuar funcionando depois da vistoria, e essa responsabilidade recai sobre quem administra ou responde pela edificação.
Em um condomínio residencial, o síndico tem papel fundamental nesse processo. O proprietário ou responsável pelo imóvel também possui obrigações relacionadas à manutenção das condições de segurança. Wellington Oliveira, CEO da Profisind, explica que existe uma série de equipamentos que precisa passar por manutenção e revisão periódica.
“Hoje o síndico, ele é totalmente responsável com relação a toda a parte de prevenção de incêndio de um condomínio. Então nós temos ali diversos itens obrigatórios que têm que ter manutenção e revisão ou mensal ou anual. Extintores, hidrantes com mangueiras, kits completos de mangueira com esguicho e chave Storz, porta corta-fogo, sinalização, alarme de incêndio”, explica Wellington Oliveira.
A frequência de manutenção varia de acordo com o equipamento, as especificações técnicas e as normas aplicáveis. O ponto central, segundo os especialistas, é que esses sistemas não podem ficar apenas no papel.
Extintores precisam estar adequados. Hidrantes precisam estar disponíveis. Alarmes devem funcionar. Rotas de fuga e sinalizações precisam estar desobstruídas. Portas corta-fogo não podem ser tratadas como portas comuns.
Em prédios maiores, também podem existir sistemas adicionais, como mecanismos de extração de fumaça.

Por que a instalação elétrica preocupa?
Quando se fala em prevenção de incêndios dentro de casa, é comum pensar primeiro em fogão, velas ou outros equipamentos que produzem calor. Mas existe um risco que muitas vezes fica escondido dentro das paredes: a instalação elétrica.
Palumbo afirma que, pela experiência acumulada durante o período em que trabalhou no Corpo de Bombeiros, problemas relacionados às instalações elétricas aparecem com frequência nas ocorrências residenciais.
“Muitas vezes, eu já passei por situações dessas ainda, quando eu trabalhava no Corpo de Bombeiros, os riscos que a gente tem em edificações, numa residência média brasileira, você tem ali 80% dos incêndios são causados pelas instalações elétricas inadequadas, às vezes equipamentos que são colocados dentro dessas edificações, que não conseguem suportar, ali, a sua fiação mais antiga, todas as cargas exigidas”, Palumbo.
A lógica é relativamente simples: instalações antigas podem não ter sido dimensionadas para a quantidade e a potência dos equipamentos utilizados atualmente.
Quando vários aparelhos são ligados de forma inadequada, pode haver sobrecarga. O aquecimento dos condutores pode provocar danos à instalação e, em determinadas circunstâncias, levar a um curto-circuito e ao início de um incêndio.
Isso não significa que todo incêndio residencial tenha origem elétrica. A causa de cada ocorrência precisa ser investigada individualmente.
Mas o alerta é importante porque muitos desses problemas começam com situações aparentemente banais.
Air fryer, micro-ondas e cafeteira exigem atenção
Entre os aparelhos que podem demandar bastante energia estão air fryer, micro-ondas, chuveiro, secador de cabelo e cafeteira expresso.
O problema pode aparecer quando esses equipamentos são ligados em adaptadores, extensões ou réguas inadequadas.
Palumbo cita justamente o caso da air fryer, que normalmente utiliza um plugue de maior capacidade. Quando a tomada disponível não é compatível, algumas pessoas recorrem a adaptadores para conseguir conectar o aparelho. Essa improvisação pode aumentar o risco de sobrecarga.
“Que nem você falou do chuveiro, do micro-ondas, um secador de cabelo, um air fryer, uma cafeteira expresso, cinco equipamentos que são muito utilizados nas residências, e aí as pessoas, às vezes, não têm o cuidado, vão ligá-lo. Que nem você falou, não faz isso não, pelo amor de Deus, de ligar uma cafeteira ou micro-ondas numa régua, porque ela precisa ter ali uma tomada exclusiva”, afirma Palumbo.
A orientação, nesses casos, é não improvisar. Se a instalação não suporta determinado equipamento, o caminho é procurar um profissional habilitado para avaliar a rede elétrica e verificar se é necessário adequar o circuito, a tomada, a fiação ou o disjuntor. Não se trata simplesmente de trocar o plugue do aparelho ou utilizar um adaptador.
Instalações antigas também merecem atenção
Outro problema está relacionado à idade das instalações.
Uma residência construída há muitos anos pode ter recebido, ao longo do tempo, aparelhos que não existiam ou não eram comuns quando a rede elétrica foi projetada.
Geladeiras, televisores, computadores, ar-condicionado, micro-ondas, air fryer, máquinas de lavar e outros equipamentos foram aumentando a demanda de energia dentro das casas.
Por isso, Palumbo recomenda que o sistema seja avaliado por um eletricista, principalmente em imóveis antigos ou quando há aumento significativo no número de equipamentos.
“Chama o eletricista, faça uma revisão, troque a fiação, que muitas vezes você não precisa quebrar o aparelho. Você só vai lá, dessa tomada que você ligar, por exemplo, uma cafeteira expresso, você liga ela direto no disjuntor do quadro de distribuição da sua residência que seja adequado para que você suporte aquela grande quantidade de energia”, alerta o Major Palumbo.
A avaliação profissional também pode identificar sinais de alerta, como tomadas aquecendo, cheiro de queimado, disjuntores desarmando constantemente, fios danificados ou uso excessivo de extensões.
Celular carregando na cama também pode representar risco
O cuidado não se limita aos equipamentos de alta potência. Palumbo chama atenção ainda para um hábito bastante comum: deixar o celular carregando sobre a cama ou o sofá.
A recomendação é manter o aparelho em uma superfície adequada durante o carregamento e evitar que ele fique em contato direto com materiais combustíveis.
O mesmo princípio vale para outros equipamentos elétricos: quanto mais calor um aparelho produz, maior deve ser o cuidado com o local onde ele é utilizado e com a instalação que fornece energia.
Na cozinha, a atenção também precisa ser redobrada por causa da combinação entre eletricidade, calor, óleo e materiais combustíveis.
Manutenção ainda enfrenta resistência nos condomínios
Para Wellington Oliveira, um dos principais obstáculos enfrentados pelos síndicos é convencer moradores de que manutenção preventiva não pode ser tratada como gasto desnecessário.
Segundo ele, alguns condomínios deixam determinados serviços em segundo plano porque acreditam que uma situação grave nunca vai acontecer.
“Muitos condomínios hoje não querem, acham que não é necessário algum tipo de manutenção, alguns condomínios acham que nada vai acontecer. Então, a parte de investimento destinado a essas situações, em alguns condomínios, prejudica muito o trabalho do síndico. Mas a parte do investimento, o povo brasileiro entender que não é um gasto, né? E que não é um custo, e que sim, é um investimento, ainda eu vejo que é bem complicado essa administração para alguns síndicos hoje”, pontua o CEO da Profisind, Wellington Oliveira.
O problema é que a manutenção de um equipamento de segurança só parece dispensável enquanto tudo está funcionando normalmente.
Em uma emergência, um extintor sem condições de uso, um hidrante sem manutenção ou um alarme que não funciona podem fazer uma diferença importante na resposta ao incêndio.
Quanto tempo vale o AVCB?
A validade do AVCB não é necessariamente igual para todos os prédios.
Ela depende das características da edificação, do tipo de ocupação, das condições previstas na legislação e do processo de licenciamento.
Wellington Oliveira explica que, na experiência de gestão dos condomínios, há documentos com diferentes períodos de validade, incluindo casos de três anos e situações específicas envolvendo prédios novos.
“Hoje, muitos AVCVs saem aí com uma validade de três anos. Prédios novos, com validade de um ano. Então, temos aí todo um processo de normas e documentações que precisam ser entregues ao Corpo de Bombeiros, juntamente com a vistoria que o bombeiro realiza dentro do condomínio”, finaliza Wellington.
Por isso, o responsável pelo imóvel não deve esperar o documento vencer para começar a reunir a documentação e providenciar as adequações necessárias.
Oliveira afirma que, na administração dos condomínios em que atua, os processos são iniciados com meses de antecedência justamente para evitar que a regularização fique para a última hora.
A recomendação é acompanhar a validade da licença e verificar periodicamente se todas as condições que permitiram sua emissão continuam presentes.
Quais cuidados o morador pode tomar?
Mesmo que a maior parte da responsabilidade pela estrutura de segurança esteja nas mãos do proprietário, responsável pela edificação ou síndico, o morador também pode contribuir para reduzir riscos. Entre os principais cuidados estão:

Prevenção começa antes da fumaça
Os incêndios recentes não necessariamente têm relação entre si e cada ocorrência precisa ser investigada individualmente. Mas os casos reforçam a importância de manter prédios residenciais e comerciais preparados para lidar com situações de emergência.
A prevenção passa pela regularização da edificação, pela manutenção dos equipamentos de segurança e pela revisão das instalações elétricas. Dentro de casa, também exige cuidados simples para evitar sobrecargas e outros riscos.
Mais do que ter um documento em dia, a segurança depende de uma estrutura que continue funcionando quando realmente for necessária.
Entenda o contexto
Nos últimos dias, incêndios atingiram prédios em diferentes regiões de São Paulo, incluindo o Centro, a Bela Vista e os Jardins. As ocorrências tiveram características diferentes e não há informação que permita afirmar que tenham uma causa comum.
O que os casos colocam em evidência é a importância da prevenção em edificações residenciais e comerciais.
O AVCB faz parte desse sistema, mas não representa, sozinho, uma garantia permanente de segurança. Os equipamentos precisam ser mantidos, as instalações devem continuar adequadas e os responsáveis pela edificação precisam acompanhar as exigências previstas para cada imóvel.
Dentro de casa, o cuidado também é fundamental. Instalações elétricas antigas, tomadas sobrecarregadas, adaptadores inadequados e equipamentos de alta potência usados de maneira incorreta podem aumentar os riscos.