Tambaqui entra na lista de espécies vulneráveis, mas pesca não está proibida

Classificação acende alerta sobre o declínio das populações naturais e abre caminho para um plano nacional de recuperação do peixe símbolo da Amazônia
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

O tambaqui, um dos peixes mais emblemáticos da Amazônia e também um dos mais importantes para a pesca e para a alimentação na região, passou a integrar oficialmente a Lista Nacional de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção, na categoria Vulnerável.

A atualização da lista foi formalizada pelo Ministério do Meio Ambiente em abril, e o tema ganhou novo esclarecimento nesta semana depois de dúvidas sobre o que a classificação representa na prática.

A principal informação para pescadores, consumidores e toda a cadeia ligada ao tambaqui é esta:

a classificação como Vulnerável não significa que a pesca da espécie esteja proibida neste momento.

O próprio Ministério do Meio Ambiente esclareceu que, durante o período de transição, continuam valendo as regras de pesca atualmente estabelecidas, incluindo tamanho mínimo de captura e período de defeso.

Por que o tambaqui entrou na lista?

A classificação está relacionada ao declínio das populações naturais da espécie.

Segundo o MMA, a avaliação indica uma redução estimada entre 30% e 40% das populações naturais ao longo de três gerações.

É um sinal de alerta para uma espécie que possui enorme importância econômica, alimentar e cultural para a região amazônica.

O problema, portanto, não é simplesmente a existência ou não de tambaqui.

É a situação dos estoques naturais e a capacidade de garantir que a espécie continue sendo encontrada nos rios amazônicos em quantidade suficiente no futuro.

Pesca continua permitida

A classificação pode causar uma interpretação equivocada: a de que qualquer captura de tambaqui passou a ser ilegal. Não é isso que está valendo agora.

O MMA esclarece que as regras atuais permanecem durante o período de transição. Na prática, pescadores precisam continuar respeitando as normas de tamanho, período, local e demais condições estabelecidas para a atividade pesqueira.

Isso é particularmente importante na Amazônia, onde a pesca tem peso econômico e social para milhares de famílias.

E o tambaqui de criação?

Outra distinção fundamental é entre o tambaqui proveniente de populações naturais e aquele produzido em sistemas de aquicultura.

A classificação está relacionada às populações naturais da espécie.

O tambaqui criado em propriedades aquícolas devidamente regularizadas continua seguindo as regras próprias da atividade de criação.

Essa diferença é importante porque a produção em cativeiro também representa uma alternativa para atender à demanda por pescado sem aumentar a pressão diretamente sobre os estoques naturais.

O próximo passo é um plano de recuperação

A classificação não é o ponto final. Ela serve como instrumento para orientar medidas de conservação e recuperação.

O Ministério do Meio Ambiente informou que será construído um Plano Nacional de Recuperação do Tambaqui, com participação de diferentes setores.

A proposta é estabelecer ações de monitoramento, pesquisa, conservação e recuperação dos estoques naturais, além de aprimorar o conhecimento sobre a situação da espécie.

O objetivo é entender melhor o que está acontecendo nos rios e criar condições para que a exploração do tambaqui possa continuar de maneira sustentável.

Por que monitorar os estoques é tão importante?

Um dos grandes desafios da pesca brasileira é conhecer com precisão quanto está sendo retirado da natureza e qual é a capacidade de reposição dos estoques. Para o tambaqui, esse conhecimento será fundamental.

É preciso acompanhar tanto as populações naturais quanto os desembarques da pesca e outros indicadores que permitam identificar se as medidas adotadas estão funcionando.

Sem informação, fica difícil definir limites de captura, períodos de proteção e outras estratégias de manejo.

Um peixe que movimenta uma cadeia

O tambaqui não é apenas uma espécie da fauna amazônica. Ele está ligado a uma cadeia que envolve pescadores, comerciantes, mercados, restaurantes, consumidores e produtores de pescado.

Em muitos municípios amazônicos, o peixe faz parte da alimentação cotidiana e também representa fonte de renda.

Por isso, proteger os estoques naturais não significa simplesmente restringir a atividade. O desafio é encontrar um equilíbrio entre conservação e geração de renda.

A criação pode ganhar ainda mais importância

O avanço da aquicultura pode contribuir para diminuir a pressão sobre os estoques naturais, especialmente se houver oferta regular de tambaqui criado em sistemas legalizados e tecnicamente adequados. Mas isso não elimina a necessidade de conservar os rios.

A produção em cativeiro e a pesca sustentável cumprem papéis diferentes dentro da cadeia. Uma fornece pescado produzido; a outra mantém uma atividade tradicional e econômica diretamente ligada aos ambientes naturais.

O que muda para quem compra tambaqui?

Para o consumidor, a classificação não significa que o tambaqui desaparecerá das feiras, mercados ou restaurantes. Também não significa que sua comercialização tenha sido automaticamente proibida.

Mas é um sinal de que a origem do pescado e o respeito às regras de pesca passam a ser ainda mais importantes.

Comprar pescado de origem regularizada ajuda a fortalecer uma cadeia que respeita as normas e contribui para o manejo sustentável.

Um alerta para toda a Amazônia

O caso do tambaqui representa uma discussão maior sobre o futuro dos recursos pesqueiros amazônicos.

A região possui uma das maiores diversidades de peixes do planeta e uma relação histórica entre rios, alimentação e economia.

Garantir que essa riqueza continue disponível exige conhecimento científico, fiscalização, manejo e participação dos próprios pescadores e comunidades.

A classificação do tambaqui como Vulnerável, portanto, não é uma sentença de desaparecimento.

É um alerta. E o desafio agora é transformar esse alerta em informação, manejo e ações capazes de recuperar os estoques naturais antes que o problema se agrave.

 

Fontes: Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima; ICMBio; Ministério da Pesca e Aquicultura.

Carregar Comentários