Um relatório técnico anexado a um processo da Justiça aponta que registros criminais do candidato a deputado estadual Emerson Dias Rocha (Podemos) foram adulterados ou excluídos do sistema da Prodesp, empresa responsável pelo processamento de dados do governo de São Paulo.
Conhecido como Felipinho, Emerson foi preso preventivamente na última quinta-feira (20), durante a Operação Cátaros, deflagrada pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP). A investigação apura um suposto esquema de lavagem de dinheiro relacionado ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
O caso chama atenção porque a suposta manipulação dos registros criminais teria ocorrido anos antes da operação que levou o candidato novamente à prisão.
O que a investigação descobriu?
De acordo com o relatório assinado por um especialista em informática da Polícia Civil, houve manipulação criminosa na rede da Prodesp em pelo menos quatro registros, todos relacionados ao ano de 1999.
A Prodesp forneceu aos investigadores informações sobre os acessos realizados no sistema, incluindo data, horário e a identificação do funcionário cuja credencial foi utilizada para consultar ou alterar o prontuário de Emerson.
Segundo a documentação, os dados que haviam sido excluídos ou modificados foram recuperados. Um dos registros, porém, ainda dependia da obtenção de uma cópia do Boletim de Identificação Criminal.
Candidato tinha histórico criminal
A investigação aponta que Emerson Dias Rocha já possuía antecedentes criminais antes de se tornar candidato à Assembleia Legislativa de São Paulo.
Ele foi investigado por homicídio e tentativa de homicídio relacionados a um episódio ocorrido em novembro de 1998. Segundo denúncia apresentada pelo Ministério Público na época, Emerson teria atropelado uma das vítimas enquanto dirigia um veículo em marcha à ré.
Em 2008, ele chegou a ser condenado por tentativa de homicídio, mas a pena foi posteriormente extinta pela prescrição, em 2020.
A investigação atual também aponta que Emerson teria utilizado uma identidade falsa, com o nome Felipe de Souza Neves, e conseguido obter porte de arma utilizando essa identificação.
Como os registros teriam sido alterados?
A suspeita dos investigadores é de que alguém tenha utilizado uma credencial autorizada para acessar o sistema da Prodesp e modificar informações relacionadas ao histórico criminal do candidato.
O relatório técnico é considerado importante justamente porque permite identificar quando os registros foram acessados e qual credencial foi utilizada.
A existência de um acesso registrado, porém, não significa necessariamente que o funcionário identificado tenha sido o responsável pela alteração. A investigação ainda precisa esclarecer quem realizou efetivamente as modificações e em quais circunstâncias.
Candidato foi preso em operação contra suposta lavagem de dinheiro
Emerson Dias Rocha está entre os principais alvos da Operação Cátaros, deflagrada pelo MPSP nesta quinta-feira (20).
A operação investiga um suposto esquema de lavagem de dinheiro ligado ao PCC e também alcançou políticos de Cotia, na Grande São Paulo.
Ao todo, foram cumpridos 21 mandados de busca e apreensão e dois mandados de prisão preventiva. Entre os alvos estão três vereadores de Cotia.
Segundo o Ministério Público, Emerson seria um dos envolvidos no esquema investigado. As suspeitas, contudo, ainda estão sob investigação e não representam uma condenação definitiva.
O que a Prodesp diz?
A empresa responsável pelo processamento de dados do Estado informou que as informações que haviam sido excluídas ou adulteradas foram recuperadas, com exceção de um inquérito que ainda depende de documentação complementar.
O relatório de acessos fornecido pela Prodesp permitiu aos investigadores reconstruir parte do histórico de movimentações realizadas no sistema.
Suspeita envolve também policial civil
O caso não se limita à possível alteração dos registros.
A investigação também aponta para a suspeita de que um investigador da Polícia Civil teria coagido testemunhas a prestar depoimentos favoráveis a Emerson durante o processo relacionado aos crimes investigados.
Esse ponto ainda precisa ser esclarecido pelas autoridades.
A apuração busca entender se houve uma atuação coordenada para dificultar o acesso ao histórico criminal do candidato e interferir em procedimentos relacionados aos processos anteriores.
Quem é Emerson Dias Rocha?
Emerson Rocha, conhecido como Felipinho, é candidato a deputado estadual pelo Podemos.
Ele entrou novamente no radar das autoridades durante a Operação Cátaros, que investiga possíveis vínculos entre políticos e um esquema de lavagem de dinheiro atribuído ao PCC.
Além da investigação atual, o candidato possui um histórico judicial que inclui a condenação por tentativa de homicídio mencionada no relatório.
A investigação sobre os registros da Prodesp acrescenta uma nova frente ao caso: como informações sobre esse passado criminal teriam desaparecido ou sido modificadas dentro de um sistema oficial do Estado.
O que acontece agora?
O Ministério Público de São Paulo deve continuar analisando os registros da Prodesp, os acessos realizados no sistema e a eventual participação de pessoas que tinham autorização para utilizar as credenciais envolvidas.
Também devem ser aprofundadas as investigações sobre a suposta ligação de Emerson com o esquema de lavagem de dinheiro e sobre a possível interferência em processos anteriores.
A defesa do candidato ainda não havia se manifestado sobre as acusações até a publicação da reportagem consultada.
Enquanto isso, Emerson permanece preso preventivamente.
Entenda o contexto
O caso reúne duas investigações que, embora distintas, ajudam a explicar por que Emerson Rocha voltou ao centro das atenções das autoridades.
De um lado, o MPSP investiga uma suposta participação do candidato em um esquema de lavagem de dinheiro ligado ao PCC. De outro, documentos de uma investigação anterior apontam que dados relacionados ao histórico criminal dele teriam sido modificados dentro da rede da Prodesp.
A principal questão agora é descobrir quem alterou os registros, por que isso aconteceu e se a manipulação teve relação com os processos criminais de Emerson.