A relação dos jovens com o álcool está mudando. Para uma parcela da chamada Geração Z, beber deixou de ser sinônimo de diversão, socialização e noites de festa. O problema é que a busca por novas formas de relaxar ou alterar a percepção pode estar levando alguns jovens a outro caminho: o uso recreativo de medicamentos.
A prática envolve principalmente remédios que atuam no sistema nervoso e são utilizados originalmente para tratar problemas como ansiedade, insônia e outras condições de saúde. Em redes sociais, alguns desses medicamentos são apresentados como alternativas para produzir efeitos semelhantes aos provocados pelo álcool.
Especialistas ouvidos pela BBC alertam, porém, que a percepção de que medicamentos seriam uma opção “mais segura” pode ser perigosa. O uso sem indicação médica pode provocar efeitos adversos, dependência e intoxicações.
Por que os jovens estão bebendo menos?
A redução do consumo de álcool entre jovens não acontece por um único motivo.
A preocupação com saúde, aparência, bem-estar, desempenho e ressaca aparece entre os fatores que ajudam a explicar a mudança de comportamento. Para parte dessa geração, ficar bêbado deixou de ser visto como algo necessariamente divertido.
Existe também uma mudança na maneira como os jovens encaram a própria saúde. Em vez de associar festas obrigatoriamente à bebida, muitos passaram a buscar experiências que não interfiram tanto no dia seguinte.
Esse movimento ajudou a fortalecer o conceito de “geração sóbria”, usado para descrever jovens que optam por reduzir ou abandonar o consumo de álcool.
Mas a diminuição da bebida não significa necessariamente que desapareceu a vontade de experimentar substâncias capazes de alterar o estado de consciência.
O que está substituindo o álcool?
É justamente nesse ponto que está a preocupação dos especialistas.
Alguns jovens passaram a utilizar medicamentos de forma recreativa, sem que exista uma indicação médica para aquele uso. O objetivo pode ser relaxar, diminuir a ansiedade em situações sociais ou buscar uma sensação semelhante à embriaguez.
A reportagem da BBC cita o crescimento de conteúdos nas redes sociais relacionados a esse tipo de prática. Existem inclusive usuários compartilhando combinações de diferentes substâncias, conhecidas online como “stacking”.
O problema é que medicamentos não foram desenvolvidos para produzir diversão ou servir como substitutos de bebidas alcoólicas.
Por que isso preocupa?
A ideia de que um medicamento é automaticamente mais seguro do que o álcool é equivocada.
Um remédio pode ter efeitos colaterais, interações com outras substâncias e risco de dependência, principalmente quando utilizado sem acompanhamento profissional.
Além disso, algumas substâncias podem provocar sonolência intensa, alterações de consciência, problemas respiratórios ou outras reações potencialmente graves dependendo da dose, da combinação utilizada e das condições de saúde da pessoa.
O risco aumenta quando o usuário não sabe exatamente o que está tomando ou mistura medicamentos diferentes.
Redes sociais ajudam a espalhar a prática
Outro ponto de atenção está na velocidade com que informações sobre medicamentos circulam nas redes sociais.
Vídeos e publicações podem apresentar determinadas substâncias como uma maneira de “relaxar sem ressaca” ou como uma alternativa mais “limpa” ao álcool.
O problema é que esse tipo de conteúdo pode esconder os riscos e transformar uma substância que deveria ser utilizada com orientação profissional em uma espécie de produto de entretenimento.
Segundo Liam Knowles, pesquisador de dependência química da Universidade de Teesside citado pela BBC, alguns usuários podem acreditar que o medicamento é mais seguro justamente por ser um produto farmacêutico.
O perigo de trocar uma substância por outra
Reduzir o consumo de álcool pode representar uma escolha positiva para a saúde. Mas isso não significa que substituir a bebida por medicamentos sem indicação médica seja uma alternativa segura.
O que preocupa especialistas é justamente quando a busca por uma vida mais saudável acaba acompanhada de outro tipo de consumo de substâncias.
O medicamento pode até não produzir os mesmos efeitos do álcool, mas continua sendo uma substância farmacologicamente ativa.
Por isso, não deve ser utilizado para diversão, socialização ou para provocar determinada sensação sem indicação e acompanhamento profissional.
O que é a chamada geração sóbria?
A expressão “geração sóbria” ganhou força para definir principalmente jovens adultos que estão reduzindo o consumo de bebidas alcoólicas.
A tendência não significa que toda a Geração Z tenha abandonado o álcool. O comportamento varia muito entre indivíduos, países e grupos sociais.
O que mudou é a percepção de que beber necessariamente faz parte da vida social.
O fenômeno também abriu espaço para um mercado de bebidas sem álcool e produtos voltados para quem quer participar de situações sociais sem consumir bebidas alcoólicas.
Entenda o contexto
A mudança no comportamento dos jovens diante do álcool é real, mas o crescimento do uso recreativo de medicamentos cria uma nova preocupação.
De um lado, existe uma geração mais consciente dos efeitos negativos da bebida e mais interessada em saúde e bem-estar. Do outro, a busca por alternativas para alterar o humor ou a percepção pode levar algumas pessoas ao uso inadequado de medicamentos.
O desafio, segundo especialistas, é evitar que uma substância considerada “medicamento” seja automaticamente interpretada como segura para qualquer finalidade.